Talvez impulsionada por Mad Max, loucura continua nessa imprevisível temporada de premiações.
Temos três assuntos importantes para debater, então sem mais delongas…
Os (vários) prêmios dos críticos
Uau. Nesse último domingo uma tonelada de premiações, tanto conhecidas como desconhecidas, deram seus pitacos sobre o cinema em 2015. A mais importante de todas, com facilidade, foi a associação dos críticos de Los Angeles (LAFCA). Esse grupo é conhecido por atirar pra todo lado, escolhendo filmes e atuações com pouco ou nenhum buzz e raramente seguindo o caminho mais tradicional do Oscar. Bem, esse ano não foi bem assim. Os segundos colocados estarão em parênteses.

Melhor Filme: Spotlight (Mad Max: Fury Road)
Melhor Diretor: George Miller, Mad Max: Fury Road (Todd Haynes, Carol)
Melhor Ator: Michael Fassbender, Steve Jobs (Géza Röhrig, Son of Saul)
Melhor Atriz: Charlotte Rampling, 45 Years (Saoirse Ronan, Brooklyn)
Melhor Ator Coadjuvante: Michael Shannon, 99 Homes (Mark Rylance, Bridge of Spies)
Melhor Atriz Coadjuvante: Alicia Vikander, Ex Machina (Kristen Stewart, Clouds of Sils Maria)
Melhor Roteiro: Spotlight (Anomalisa)
Melhor Design de Produção: Mad Max: Fury Road (Carol)
Melhor Cinematografia: Mad Max: Fury Road (Carol)
Melhor Edição: The Big Short (Mad Max: Fury Road)
Melhor Trilha Sonora Original: Anomalisa & Carol, por Carter Burwell (The Hateful Eight, por Ennio Morricone)
Melhor Filme Estrangeiro: Son of Saul (The Tribe)
Melhor Documentário: Amy (The Look of Silence)
Melhor Animação: Anomalisa (Inside Out)
Bem, não houve nada tão dramático dessa vez. O momento mais “wtf” foi a vitória de Michael Shannon por 99 Homes, mas isso terá repercussão nula na competição. O que vimos em Los Angeles, no geral, foi uma dominação de Mad Max: Fury Road, principalmente em termos técnicos, que não se traduziu no prêmio principal. Essa é a dicotomia que muitos esperam acontecer entre Spotlight e The Martian no Oscar. Será que o filme de George Miller substituirá a ficção científica de Ridley Scott?
Charlotte Rampling conseguiu um necessário apoio dos críticos aqui, que foi até previsível vindo de LA. O que não se esperava era a ressurreição do semi-flopado Steve Jobs na categoria Melhor Ator, além da vitória de Vikander por Ex Machina enquanto o grande competidor dela na temporada é The Danish Girl. De forma um pouco diferente, o segundo lugar de Kristen Stewart aqui (mais a vitória em alguns outros prêmios menores) elimina a percepção de que sua escolha em Nova York foi algo excepcional. Enquanto isso, Son of Saul segue imbatível e Anomalisa consegue sua primeira vitória para cima de Inside Out.
Em outros lugares, vários prêmios foram anunciados. Os críticos de Boston, os críticos online de Boston, os críticos online de Nova York, os críticos de Washigton, o BIFA (para filmes britânicos independentes), duas premiações destinadas aos filmes com atores negros e algumas outras que provavelmente esqueci. A mais importante delas é Boston, que também seguiu o padrão Spotlight para Melhor Filme e George Miller para diretor. Kristen Stewart continuou sendo mencionada.
As indicações ao Screen Actors Guild Awards

O primeiro representante da indústria de Hollywood se manifestou. O SAG representa os atores, tanto do cinema quanto da televisão, e considerando que essa categoria é a mais vasta dentro da Academia não podemos subestimar o que aparecer aqui.
O problema é que esse ano o SAG resolveu seguir a tendência geral e ir à loucura. Muitas indicações improváveis, algumas delas ridiculamente impossíveis, tornam as previsões um pouco mais difíceis. Vamos aos indicados.
Melhor Ator
Bryan Cranston, Trumbo
Johnny Depp, Black Mass
Leonardo DiCaprio, The Revenant
Michael Fassbender, Steve Jobs
Eddie Redmayne, The Danish Girl
Tudo muito tranquilo até chegarmos em Bryan Cranston. Trumbo estava morto na competição, mas nesse caso é bom lembrar que o SAG é em boa parte formado por atores da televisão e Cranston é um dos mais prestigiados dentro desse grupo. Quem ficou chupando o dedo foi Matt Damon.
Melhor Atriz
Cate Blanchett, Carol
Brie Larson, Room
Helen Mirren, Woman In Gold
Saoirse Ronan, Brooklyn
Sarah Silverman, I Smile Back
Joy teve problemas ao enviar screeners para os votantes espalhados pelos EUA e nem todos viram o filme. Isso pode justificar a entrada de Helen Mirren, que é tão amada pelo SAG que foi indicada por um projeto lançado no meio do ano e com buzz nulo. Entretanto, não ficaram satisfeitos com uma indicação inesperada. Silverman é algo verdadeiramente inacreditável, e não faço ideia de como ela entrou. De resto, o trio principal segue forte rumo ao Oscar.
Melhor Ator Coadjuvante
Christian Bale, The Big Short
Idris Elba, Beasts of No Nation
Mark Rylance, Bridge of Spies
Michael Shannon, 99 Homes
Jacob Tremblay, Room
Essa categoria continua uma bagunça indescritível. Michael Shannon se repete aqui após o LAFCA, e parece que a ameaça é verdadeira. Tremblay e Bale já estavam sendo considerados, mas nunca tomando o lugar do elenco de Spotlight. Elba recebe um grande impulso aqui e Rylance vai criando um consenso poderoso. Sua indicação ao Oscar é a mais provável, principalmente considerando que Ruffalo e Keaton podem ter se anulado ao competir aqui pelo mesmo filme.
Melhor Atriz Coadjuvante
Rooney Mara, Carol
Rachel McAdams, Spotlight
Helen Mirren, Trumbo
Alicia Vikander, The Danish Girl
Kate Winslet, Steve Jobs
O SAG possui uma regra peculiar: a escolha de categorias pelos votantes deve seguir o que os estúdios recomendarem. Ou seja, nenhuma rebelião pode acontecer aqui, deixando Mara e Vikander na categoria de coadjuvantes. Se isso se repetir no Oscar, a indicação é quase certa. Quem recebe um bom empurrão aqui é McAdams, passando por cima de seus companheiros masculinos no elenco de Spotlight. Winslet se consolida um pouco mais enquanto o SAG mostra novamente o quanto gosta de Helen Mirren. É de se imaginar que essa posição será tomada por Jennifer Jason Leigh no Oscar, já que The Hateful Eight não foi exibido para os membros do SAG a tempo.
Melhor Elenco
Beasts of No Nation
The Big Short
Spotlight
Straight Outta Compton
Trumbo
Essa é a principal categoria do SAG, comumente considerada como o Melhor Filme dessa guilda. Spotlight foi a única coisa perfeitamente previsível aqui. The Big Short era uma possibilidade, e sua presença fortalece a posição do último filme a chegar na competição esse ano. Beasts of No Nation também recebe um necessário empurrão, mas de resto é difícil entender o impacto dessas indicações para a corrida. Será Straight Outta Compton um competidor verdadeiro? Trumbo também? As 3 indicações desse último filme falam mais alto do que a biografia do NWA, e o assunto relacionado à Hollywood é certamente algo atraente para a Academia. É preciso ficar atento a essa ameaça.
Os indicados ao Globo de Ouro

Chegou então a vez do eclético Globo de Ouro anunciar seus indicados. O grupo tem pouco mais de 100 membros, todos oriundos do meio jornalístico, e estão espalhados em mais de 50 países. Esse número é relativamente pequeno e significa que os membros do HFPA (Hollywood Foreign Press Association) conseguem assistir todos os filmes da competição com facilidade, mesmo aqueles que são lançados tardiamente.
Apesar de o Globo de Ouro ser o prêmio mais conhecido por aqui depois do Oscar, sua influência é pouca. O que o evento mais tem a oferecer é publicidade, já que a premiação ocorre antes do anúncio dos indicados ao Oscar e oferece tempo de televisão para distribuidoras, atores e diretores divulgarem seus filmes. Vamos aos indicados!
Melhor Filme (Drama)
Carol
Mad Max: Fury Road
The Revenant
Room
Spotlight
Vamos começar listando quem ficou de fora por causa da entrada de Mad Max: The Hateful Eight, Joy, Brooklyn e Steve Jobs. Ter isso em mente ajuda a entender o quão significativa é a entrada do filme de George Miller na categoria mais importante do Globo de Ouro. Estamos diante da possibilidade de ver esse filme se tornar um gigante nas categorias técnicas do Oscar, exatamente como Gravity fez em 2013/2014.
Melhor Filme (Comédia)
The Big Short
Joy
The Martian
Spy
Trainwreck
As opções aqui eram escassas, de forma que Joy, The Martian e The Big Short entraram de olhos fechados. Trainwreck já era uma forte aposta, enquanto que o ótimo Spy (melhor filme de espionagem do ano, a propósito, chutando as bundas de James Bond e Ethan Hunt) conseguiu passar por cima de Grandma e The Lady in the Van.
Melhor Ator (Drama)
Bryan Cranston, Trumbo
Leonardo DiCaprio, The Revenant
Michael Fassbender, Steve Jobs
Eddie Redmayne, The Danish Girl
Will Smith, Concussion
A esse ponto o trio DiCaprio-Fassbender-Redmayne está garantido no Oscar. É aqui que Trumbo mostra força mais uma vez, ultrapassando Caine, McKellen e Depp para garantir uma indicação a Cranston. Se fosse apenas no SAG poderíamos afastar essa possibilidade como mera anomalia, mas a presença do filme se reafirma e confunde ainda mais as duas últimas vagas da categoria. Smith recebe sua primeira menção da temporada (excluindo-se o irrelevante Hollywood Film Awards), mas o amor do Globo de Ouro por estrelas de cinema pode ter influenciado na decisão.
Melhor Atriz (Drama)
Cate Blanchett, Carol
Brie Larson, Room
Rooney Mara, Carol
Saoirse Ronan, Brooklyn
Alicia Vikander, The Danish Girl
Blanchett, Larson e Ronan são apostas sólidas, sendo as duas últimas as claras frontrunners da competição. No caso de Mara e Vikander, é bom lembrar que o Globo de Ouro resolveu ir contra os distribuidores e classificá-las como protagonistas. A campanha das duas ainda será focada na categoria de Atriz Coadjuvante, e sabe-se lá o que isso trará para o Oscar. O resultado aqui foi a ausência de Rampling e Mulligan, que precisavam desse apoio.
Melhor Ator (Comédia)
Christian Bale, The Big Short
Steve Carell, The Big Short
Matt Damon, The Martian
Al Pacino, Danny Collins
Mark Ruffalo, Infinitely Polar Bear
Bale, Carell e Damon eram certezas nessa categoria deserta. Isso acabou trazendo duas das indicações mais absurdas do dia com Pacino e Ruffalo. Esqueçam desses dois no Oscar ou em qualquer outro lugar.

Melhor Atriz (Comédia)
Jennifer Lawrence, Joy
Melissa McCarthy, Spy
Amy Schumer, Trainwreck
Maggie Smith, The Lady in the Van
Lily Tomlin, Grandma
Outra categoria vazia. JLaw vence aqui de olhos fechados, mas pelo menos isso abre espaço para atuações mais diferenciadas que não terão espaço no Oscar. Talvez Lily Tomlin, mas é muito difícil.
Melhor Ator Coadjuvante
Paul Dano, Love & Mercy
Idris Elba, Beasts of No Nation
Mark Rylance, Bridge of Spies
Michael Shannon, 99 Homes
Sylvester Stallone, Creed
Por onde começar? Essa é de longe a categoria mais ridiculamente confusa do Oscar, e o festival de bizarrices vem se repetindo em todas as premiações até agora. A competição é muito forte e isso acabou trazendo pela segunda vez a ausência dos dois atores de Spotlight, considerados até então os favoritos para levar o prêmio. As pessoas não sabem em quem votar e tanto Keaton quanto Ruffalo acabam dividindo atenção e não entrando. O mais constante até aqui é Rylance, que lentamente vai construindo um poderoso consenso. Stallone e Shannon são duas chegadas tardias, previstas por ninguém, que bagunçaram ainda mais a já competitiva categoria. Elba e Dano já eram possibilidades, e fortalecem sua posição aqui (principalmente Elba, que também apareceu no SAG). Quem ficou de fora além da dupla de Spotlight? Bale está sendo promovido nessa categoria, Hardy e Tremblay também, Del Toro é outra possibilidade e ainda nem começamos a falar do elenco de The Hateful Eight. Uau.
Melhor Atriz Coadjuvante
Jane Fonda, Youth
Jennifer Jason Leigh, The Hateful Eight
Helen Mirren, Trumbo
Kate Winslet, Steve Jobs
Alicia Vikander, Ex Machina
Com Vikander e Mara fora do páreo por essa categoria, pelo menos no Globo de Ouro, espaços foram abertos para… Vikander outra vez? Sim, a atriz sueca arrecadou duas indicações aqui. A outra beneficiária foi Mirren, também mencionada pelo SAG, que com essa repetição prova que não é mera anomalia. Leigh e Winslet são fortes possibilidades no Oscar, enquanto que Fonda entrou supostamente em detrimento de McAdams. Vejam só, nenhuma indicação para o elenco de Spotlight!
Melhor Diretor
Todd Haynes, Carol
Alejandro G. Iñárritu, The Revenant
Tom McCarthy, Spotlight
George Miller, Mad Max: Fury Road
Ridley Scott, The Martian
George Miller outra vez, agora passando por cima de Tarantino. De resto temos um importante reconhecimento a Tom McCarthy, que apesar de dirigir o frontrunner da temporada não teve seu trabalho por trás das câmeras especificamente mencionado.
Melhor Roteiro
Room
Spotlight
The Big Short
Steve Jobs
The Hateful Eight
Tarantino e Sorkin são chavões do Globo de Ouro e mostraram finalmente sua força aqui. O mais estranho é ver Carol, o recordista de indicações, não ser mencionado nessa categoria. Um tanto quanto esquisito.

Melhor Animação
Anomalisa
The Good Dinosaur
Inside Out
The Peanuts Movie
Shaun the Sheep Movie
Consigo ver esse line-up se repetindo no Oscar com facilidade. Shaun the Sheep, yay!!
Melhor Filme Estrangeiro
The Brand New Testament (BÉLGICA)
The Club (CHILE)
The Fencer (FINLÂNDIA)
Mustang (FRANÇA)
Son of Saul (HUNGRIA)
Eu acompanho vorazmente a temporada de premiações e até hoje nunca ouvi falar de The Fencer, que foi escolhido pela Finlândia para representar o país no Oscar. É um pouco triste ver o domínio europeu num ano tão forte para o cinema latino.
Atualizações

The Gift marca a estreia de Joel Edgerton como diretor, nesse filme em que ele também estrela ao lado de Jason Bateman e Rebecca Hall. Ah sim, o roteiro também é dele. É importante frisar esses detalhes pois temos em mãos algo extraordinário. Muitos atores tentam seguir a carreira de diretor, todos querendo assumir a cadeira de comando. Não costuma funcionar. No caso de Edgerton o resultado é espetacular. The Gift aborda a mudança de um casal de classe média-alta para a Califórnia, onde um deles encontra um antigo conhecido dos tempos de escola. Ele se revela um tanto quanto esquisito, numa interpretação soberba de Edgerton, e a relação entre o trio começa rapidamente a se deteriorar. Esse é um daqueles filmes que te surpreende com frequência. Existem vários clichês dentro do gênero “stalker”, e The Gift nunca submete seu expectador a eles. Quando eu esperava que o filme fosse para o buraco, ele se reerguia de forma surpreendente. Os três personagens centrais são muito bem delineados, e os estereótipos de mocinho e vilão são constantemente bagunçados. The Gift não é um terror com sustos baratos, mas sim um estudo aprofundado sobre feridas do passado e a natureza do ser humano ao lidar com as mesmas. Avaliação: ★★★★
Nos Cinemas
Vamos começar pelo final de semana entre 27 e 29 de novembro. Tivemos dois grandes lançamentos aqui: The Good Dinosaur (MC 66/RT 67%) e Creed (MC 82/RT 93%). O segundo obviamente teve uma recepção melhor que o primeiro. Creed cresceu fantasticamente na corrida pelo Oscar nessa última semana, com ótimas críticas, sucesso de bilheteria (abrindo com 29 milhões) e menções a Sylvester Stallone em vários prêmios de jornalistas.
O mesmo não pode ser dito de The Good Dinosaur. Essa foi a primeira vez em que a Pixar lançou dois filmes no mesmo ano, e o resultado foi que um ofuscou completamente o outro. A abertura em 39 milhões é uma das menores da história do estúdio, com uma recepção da crítica igualmente morna. A indicação ao Oscar de Melhor Animação é garantida, mas nada além disso.
The Danish Girl, por sua vez, foi lançado em apenas 4 cinemas com ótimos resultados. A recepção da crítica não foi tão boa (MC 67/RT 73%), mas com uma média de 46 mil dólares por tela e várias características que o Oscar ama (produção luxuosa, atuações chamativas, Tom Hooper) é inteligente manter o filme nas previsões.
Por outro lado, comparem esses 46 mil com os 19 mil de Youth. O resultado não é bom, e a recepção da crítica americana foi surpreendentemente ruim: 62 no Metacritic e 72% no Rotten Tomatoes. Macbeth teve um resultado similar (71 MC/82% RT), com 13 mil dólares por tela, mas ninguém esperava nada desse filme mesmo. Em relação a Youth, entretanto, isso pode ser mais perigoso.
Enquanto isso, Brooklyn e Spotlight continuam reinando na bilheteria. Dois filmes muito bem recebidos pela crítica com ótima presença de público. Duas fortíssimas apostas para o Oscar 2016.
ATENÇÃO: irei separar um post só para atualizar minhas previsões do Oscar, que deverá ir ao ar daqui a poucos dias. Fiquem ligados e me acompanhem no Twitter e no Letterboxd.






















