As premiações importantes começam a chegar, com o National Board of Review e os críticos de Nova York (NYFCC) laureando seus favoritos.
A temporada do Oscar já começou faz tempo, mas agora é a vez das infinitas premiações de fim de ano anunciarem seus indicados e vencedores. Alguns desses eventos são importantíssimos para a temporada e podem carregar um filme ou uma atuação até o Dolby Theater em 2016. Nessa semana foram 3 prêmios interessantes, que serão abordados abaixo. Felizmente, eles estão apenas começando.
Gotham Independent Film Awards

O Gotham é organizado pelo Independent Filmmaker Project, uma importante organização americana sem fins lucrativos que busca o crescimento dos filmes independentes no país. A premiação em si não tem muita influência na corrida do Oscar, mas é sempre prestigiada por grandes nomes da indústria e respeitada no circuito alternativo. Os vencedores são escolhidos por pequenos comitês de cinco pessoas, normalmente famosos, de forma que a representatividade dos prêmios é bem pequena.
Melhor Filme: Spotlight
Melhor Documentário: The Look of Silence
Diretor Revelação: Jonas Carpigano, Mediterranea
Melhor Roteiro: Tom McCarthy & Josh Singer, Spotlight
Melhor Ator: Paul Dano, Love & Mercy
Melhor Atriz: Bel Powley, The Diary of a Teenage Girl
Ator Revelação: Mya Taylor, Tangerine
Prêmio da Audiência: Tangerine
Prêmio Especial do Júri – Performance do Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Stanley Tucci, Liev Schreiber e outros por Spotlight
Spotlight começou por cima aqui, mesmo não tendo precisado desses prêmios para se destacar na competição. The Look of Silence é um dos documentários mais aclamados do ano, sendo que seu antecessor do diretor Joshua Oppenheimer foi indicado ao Oscar em 2014. Mediterranea é um longa que surgiu absolutamente do nada, conseguindo 3 indicações ao Spirit semana passada e agora também se destacando no Gotham.
Entretanto, o verdadeiro destaque além de Spotlight foi Tangerine. É exatamente o tipo de filme que o Gotham gosta, e o amor veio tanto do júri quanto dos membros do IFP, que lhe deram o Prêmio da Audiência. Mya Taylor conseguiu uma merecidíssima vitória como Revelação (esse prêmio em específico não distingue gêneros, o que é curioso já que a vencedora é transsexual) enquanto que Bel Powley superou a competição forte de Cate Blanchett, Brie Larson e Lily Tomlin para se consagrar como Melhor Atriz. Em Melhor Ator, Paul Dano foi a escolha menos obscura entre outras atuações em filmes mais pequenos como James White (Christopher Abbott) e 99 Homes (Michael Shannon).
Esnobados? Poderíamos dizer que Carol ficou de fora da festa, com 3 indicações e nenhuma vitória. Nesse caso o tributo que Todd Haynes recebeu durante a premiação mostrou que o Gotham também gosta dos trabalhos do diretor.
National Board of Review Awards

O National Board of Review é uma das instituições mais antigas do cinema americano, tendo sido criada no ano 1909. Sua função inicial era de funcionar como uma espécie de censura a qualquer longa produzido nos EUA, de forma a escapar do controle do governo americano sobre a nova mídia.
Atualmente a organização tem funções mais modestas de fomento à sétima arte, como seminários e cursos, e sua principal e mais conhecida atividade é ser um dos primeiros a anunciar seus prêmios na temporada do Oscar. A influência do NBR é certamente presente na competição, mas nos últimos anos vem diminuindo. O grupo, que é formado de críticos de cinema, estudantes, acadêmicos e sabe-se lá mais o que, tem preferências óbvias e por vezes vexatórias. As principais delas são: 1) filmes da Warner Bros.; 2) filmes do Clint Eastwood; 3) filmes do George Clooney. Mesmo assim, a publicidade do prêmio significa que filmes e atuações fora do radar podem alcançar os holofotes com uma vitória no NBR.
Melhor Filme: Mad Max: Fury Road
Melhor Diretor: Ridley Scott, The Martian
Melhor Ator: Matt Damon, The Martian
Melhor Atriz: Brie Larson, Room
Melhor Ator Coadjuvante: Sylvester Stallone, Creed
Melhor Atriz Coadjuvante: Jennifer Jason Leigh, The Hateful Eight
Melhor Roteiro Original: Quentin Tarantino, The Hateful Eight
Melhor Roteiro Adaptado: Drew Goddard, The Martian
Melhor Animação: Inside Out
Performance Revelação: Jacob Tremblay por Room e Abraham Attah por Beasts of No Nation (empate)
Melhor Estreia em Direção: Jonas Carpignano, Mediterranea
Melhor Filme Estrangeiro: Son of Saul
Melhor Documentário: Amy
Melhor Elenco: The Big Short
Vou focar aqui nos prêmios que foram importantes para seus respectivos recipientes (os vencedores, não os itens de cozinha). Obviamente que o grande destaque aqui vai para Mad Max levando o prêmio principal. Muitas dúvidas circulavam a respeito das chances do blockbuster apocalíptico no Oscar, e o prêmio da NBR foi importantíssimo para lembrar a todos o quão maravilhoso o projeto de George Miller foi.
Outro prêmio importante foi o de Ator Coadjuvante. Justo na semana de lançamento de Creed, quando o buzz sobre a qualidade do filme estava nas alturas, o NBR cementa os vários comentários a respeito de uma indicação de Stallone no Oscar. Agora sua presença é mais real do que nunca, e será interessante ver como esse cenário inusitado se desenvolverá: Rocky Balboa finalmente vencendo um Oscar de atuação após todos esses anos?
New York Film Critics Circle Awards

Existem várias associações de críticos de cinema nos EUA, e muitas delas possuem seus próprios prêmios anuais. Entretanto, os mais importantes para a temporada do Oscar são dois: Nova York e Los Angeles. Estes são os críticos mais tradicionais e influentes do país, e com frequência catapultam filmes e atuações para outras premiações (ano passado mesmo Nova York ajudou Marion Cotillard a obter uma indicação no Oscar por Two Days, One Night).
Melhor Filme: Carol
Melhor Diretor: Todd Haynes, Carol
Melhor Ator: Michael Keaton, Spotlight
Melhor Atriz: Saoirse Ronan, Brooklyn
Melhor Ator Coadjuvante: Mark Rylance, Bridge of Spies
Melhor Atriz Coadjuvante: Kristen Stewart, Clouds of Sils Maria
Melhor Roteiro: Phyllis Nagy, Carol
Melhor Animação: Inside Out
Melhor Cinematografia: Carol
Melhor Documentário: In Jackson Heights
Melhor Filme Estrangeiro: Timbuktu
Melhor Filme de Estreia: Lázló Nemes, Son of Saul
O NYFCC é normalmente uma organização mais tradicional e mais alinhada ao Oscar. Essa característica se provou verdadeira com o domínio completo de Carol sobre as principais categorias, algo que era previsível considerando o amor que os críticos de Nova York têm pelo trabalho de Todd Haynes. Os prêmios de Melhor Filme, Direção, Cinematografia e Roteiro foram importantíssimos para manter o longa firme na competição justamente quando as dúvidas poderiam começar a aparecer.
Outras vitórias mais “comportadas” foram as de Mark Rylance como Ator Coadjuvante e Saoirse Ronan como Melhor Atriz. Ambos já estão muito bem cotados para o Oscar e solidificam suas posições na corrida. Inside Out consegue mais uma vitória aqui, e fica a questão: será que Anomalisa vencerá alguma coisa com um dos melhores filmes da Pixar barrando-lhe o caminho?
Já em outras categorias Nova York deu alguns mortais carpados com suas escolhas. A performance de Kristen Stewart em Clouds of Sils Maria foi ressuscitada do além após a atriz ser a primeira americana a vencer o César, equivalente francês do Oscar. Ela não recebeu nenhuma campanha até o momento, e não se sabe se o IFC Films vai correr atrás do prejuízo. Uma indicação não está fora dos limites da realidade, mas Stewart necessariamente precisará de uma campanha para chegar ao Oscar.
A outra safadeza que Nova York fez foi dar o prêmio de Melhor Ator para Michael Keaton, numa atuação que recebe campanha como coadjuvante e até agora não encontrava nenhuma polêmica em relação a isso. O consenso é de que essa vitória solidifica a posição do ator e o coloca como favorito na extremamente competitiva categoria de Ator Coadjuvante, já que a posição de NY é ponto fora da curva e ninguém os seguirá nessa categorização de Keaton.
Dois outros prêmios inesperados foram os de Melhor Documentário e Melhor Filme Estrangeiro. In Jackson Heights ficou com o primeiro, e o filme sequer entrou na shortlist divulgada há alguns dias atrás para o Oscar. Outro fora de futuras competições é o estrangeiro Timbuktu, que venceu em Nova York e foi indicado ao Oscar ano passado.
No geral, é importante notar aqui as ausências. Nenhum dos “atrasados” esse ano conseguiram vitórias. Não se sabe se Joy, The Revenant e The Hateful Eight foram vistos a tempo ou se Nova York não gostou deles mesmo. Esse problema com filmes lançados muito tarde no ano vem sendo uma constante ultimamente, dificultando o envio de screeners e consequentemente as vitórias e indicações em prêmios que chegam mais cedo durante a temporada. É quando as Guildas começarem a anunciar seus indicados que realmente veremos se houve algum estrago.
Previsões para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Já estava na hora, não? Farei aqui uma previsão da shortlist de 9 filmes que serão selecionados entre os 81 competidores. Na verdade são 80, já que o Afeganistão teve seu filme desqualificado por ter uso excessivo da língua inglesa.
1. Son of Saul (HUNGRIA)
2. Mustang (FRANÇA)
3. Que Horas Ela Volta? (BRASIL)
4. The Clan (ARGENTINA)
5. Labyrinth of Lies (ALEMANHA)
6. Rams (ISLÂNDIA)
7. A War (DINAMARCA)
8. The Assassin (TAIWAN)
9. A Pigeon Sat On a Branch Reflecting On Existence (SUÉCIA)
Boa notícia para nós brasileiros: Que Horas Ela Volta? tem todo o potencial para conseguir uma indicação ano que vem. O problema é que a essa altura do campeonato o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro está praticamente definido. Son of Saul tem o apoio massivo da crítica e uma temática perfeita para a Academia. Fora isso, o francês Mustang tem grande potencial com sua história de repressão religiosa, tendo um elenco repleto de jovens garotas enfrentando discriminação e machismo. A Argentina chega forte com um vencedor do festival de Veneza e sucesso de bilheteria nacional, enquanto que Labyrinth of Lies é outro título com suporte da Sony Pictures Classics que é isca de Oscar por definição. Não gostei do filme e me sinto mal por prevê-lo, mas essa é a realidade.
Atualizações

Arabian Nights: Volume 2 – The Desolate One é o segundo capítulo da ambiciosa trilogia do diretor Miguel Gomes, e o escolhido para representar Portugal no Oscar 2016. Tive a oportunidade de ver apenas o segundo volume, e como as histórias são perfeitamente aproveitáveis mesmo assistindo fora de ordem, decidi mergulhar na experiência. Não estou arrependido. Arabian Nights usa o conceito das famosas 1001 Noites para contar diversas histórias independentes sobre o atual estado econômico e social de Portugal. Esse volume é dividido em três partes, e seus contos constroem com uma imaginação singularmente fértil alguns retratos do país no século XXI. Seja por meio de um assassinado renegado fugindo da polícia, uma juíza tentando resolver uma miríade de crimes interligados ou a vida de um adorável cachorro num dos bairros mais pobres do país, Arabian Nights alça voo. O roteiro é provavelmente o melhor que já presenciei esse ano: sofisticado e acessível ao mesmo tempo, humorístico e imaginativo. Raramente um filme te deixa com o queixo caído usando apenas de diálogos, e Gomes consegue isso sem necessariamente usar de sua crítica social. O longa consegue ser entretenimento puro em vários momentos, e é claro que o conceito da trilogia é apenas um ponto de partida para as experimentações do diretor. Arabian Nights só não alcança a nota máxima por ter uma primeira história um tanto inferior em relação às subsequentes, mas esse é sem dúvida nenhuma um dos melhores filmes de 2015. Avaliação: ★★★★½

The Stanford Prison Experiment é um ótimo filme que, infelizmente, foi prejudicado pelos seus antecessores. A ideia de um longa que mostre a condução de um experimento prisional já foi usada mais de uma vez no cinema e coloca esse novo projeto de Kyle Patrick Alvarez sob uma nuvem de previsibilidade. Dessa vez a história é baseada em fatos reais, ocorridos na universidade de Stanford durante os anos 70. Um elenco de jovens talentos como Ezra Miller (o futuro Flash da DC), Tye Sheridan (Ciclope em X-Men Apocalypse) e Thomas Mann são atraídos por dinheiro para participar do experimento coordenado pelo Dr. Phillip Zimbardo (Billy Crudup). O que se segue é previsível, mas mesmo assim se destaca. The Stanford Prison Experiment não exagera como seus antecessores, e desenvolve com cuidado a evolução de comportamento de cada personagem, seja um guarda ou um prisioneiro. Há espaço para interessantes reflexões sobre a natureza humana e sua propensão para a autoridade ou submissão. A mensagem é atual e relevante, criando uma discussão que considero particularmente amedrontadora: somos naturamente condicionados à obediência ou à liderança? Avaliação: ★★★½

Victoria é o filme de assalto que fez barulho no festival de Berlim por um motivo simples e colossal ao mesmo tempo: o diretor Sebastian Schipper decidiu rodar seu projeto de uma vez só e sem qualquer corte. Isso já foi feito antes (mais precisamente, Victoria é o oitavo filme do tipo), mas a ferramente não cansa de surpreender quando usada da forma correta. O mais fascinante num filme como esse, que mistura ação com drama pesado, é como o diretor e os atores encontram a delicada balança entre exatidão técnica e peso emocional. Victoria é uma garota espanhola que, nunca balada em Berlim, encontra quatro amigos suspeitamente adeptos a furtos e sai com eles para passear. Eventualmente o passeio se torna algo mais perigoso, e o cinematógrafo Sturla Brandth Grøvlen faz um trabalho inumano ao acompanhar a narrativa toda de uma vez só. A técnica de um take, que para alguns é mero exibicionismo técnico, aqui funciona como um combustível para a urgência do longa. A experiência é absurdamente imersiva e ainda mais impressionante por englobar atuações genuínas e carismáticas de seus atores principais, que demonstram pleno domínio de seus personagens. Avaliação: ★★★★
Não se esqueça de acompanhar o Oscar Maníacos no Twitter e no Letterboxd. Na próxima coluna teremos os vencedores do LAFCC, prêmio dos críticos de Los Angeles, além de mais atualizações nas minhas previsões do Oscar. Até mais!















![Oscar Maníacos 1×30: Reflexões Finais [Season Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2016/03/OScar.jpg)
