Conheçam a premiação mais absurda do cinema americano.
Um total desconhecido chamado Carlos de Abreu criou a alguns anos atrás o Hollywood Film Awards. A premiação autointitula-se o pontapé inicial da temporada de premiações, celebrando nomes que normalmente são reconhecidos pelo Oscar alguns meses depois. De onde veio Abreu? Ele é de Portugal e não tem relação alguma com o mundo cinematográfico: sua experiência é como publicitário e, aleatoriamente, piloto de aeronaves.
Como são escolhidos os prêmios? Segundo o site oficial do HFA, a seleção é feita por um time de conselheiros (12 pessoas) que representa vários segmentos de profissionais de Hollywood. O interessante é que o nome dessas pessoas não é revelada. Novamente, segundo o HFA isso é feito para manter a integridade da premiação e evitar influência direta de terceiros nos votantes.
A teoria mais aceita, entretanto, é que o comitê não passa de uma farsa e Abreu na verdade escolhe sozinho os vencedores. O HFA é uma piada entre quem acompanha a corrida do Oscar: prêmios são dados a filmes que sequer estão prontos, as categorias são totalmente arbitrárias e parecem ser criadas para abrigar o maior número possível de “pagantes” e a própria premiação faz questão de anunciar aos sete cantos do planeta que é o marco inicial da temporada do Oscar (não é). Nesse caso a experiência com marketing de Abreu parece ser um sinal de que tudo não passa de outra jogada publicitária para alavancar filmes nas premiações que realmente importam.
O que um viciado no Oscar faz então com essa esquisitice? Bem, a lógica mais usada é a seguinte: como os prêmios são provavelmente vendidos a quem pague mais e a quem se comprometa a aparecer na cerimônia, podemos pelo menos saber quais estúdios estão gastando mais dinheiro na campanha e quais os filmes escolhidos para representá-los.
Nesse ano o HFA passou por algumas turbulências. Após ser transmitido na televisão pela primeira vez em sua existência no ano passado, o evento ficou sem emissora. A audiência foi pífia e a solução encontrada para 2015 é ao mesmo tempo curiosa, ridícula e esquisita: o Twitter. Sim, o HFA 2015 foi transmitido ao vivo pelo Twitter (*), com vídeos pequenos mostrando o monólogo de abertura de James Corden, os apresentadores e os discursos dos “vencedores”. Até que não foi ruim: Corden foi hilário e o tom durante toda a noite foi autodepreciativo. Todo mundo sabia que a premiação era ridícula e inúmeras piadas foram feitas sobre o fato, embora isso não mude a inafastável constatação de que o HFA é realmente ridículo.
(*) Curioso? Clique aqui e confira tudo o que rolou na noite.
Não houve nem sequer o fator surpresa, já que todos os vencedores são anunciados antes da premiação. Vamos a eles:

Hollywood Career Achievement Award: Robert De Niro
Hollywood Producer Award: Ridley Scott por The Martian
Hollywood Director Award: Tom Hooper por The Danish Girl
Hollywood Actor Award: Will Smith por Concussion
Hollywood Actress Award: Carey Mulligan por Suffragette
Hollywood Supporting Actor Award: Benicio Del Toro por Sicario
Hollywood Supporting Actress Award: Jane Fonda por Youth
Hollywood Breakout Actor Award: Joel Egerton por Black Mass
Hollywood Breakout Actress Award: Alicia Vikander por The Danish Girl
New Hollywood Award: Saoirse Ronan por Brooklyn

Hollywood Ensemble Award: Elenco de The Hateful Eight
Hollywood Breakout Ensemble Award: Elenco de Straight Outta Compton
Hollywood Comedy Award: Amy Schumer por Trainwreck
Hollywood Breakthrough Director Award: Adam McKay por The Big Short
Hollywood Screenwriter Award: Tom McCarthy e Josh Singer por Spotlight
Hollywood Blockbuster Award: Furious 7
Hollywood Song Award: Wiz Khalifa e Charlie Puth por “See You Again” de Furious 7
Hollywood Animation Award: Inside Out
Hollywood Documentary Award: Amy
Hollywood Cinematography Award: Janusz Kaminski por Bridge of Spies
Hollywood Film Composer Award: Alexandre Desplat por The Danish Girl e Suffragette
Hollywood Editor Award: David Rosenbloom por Black Mass
Hollywood Visual Effects Award: Tim Alexander por Jurassic World
Hollywood Sound Award: Gary Rydstrom por Bridge of Spies
Hollywood Costume Design Award: Sandy Powell por Cinderella
Hollywood Make-Up & Hair Styling Award: Lesley Vanderwalt por Mad Max: Fury Road
Hollywood Production Design Award: Cory Gibson por Mad Max: Fury RoadSim, tem alguns prêmios totalmente ilógicos aí no meio. Ignorem. Decidi fazer uma tabela básica de número de prêmios por distribuidora. Isso pode nos dar um panorama geral de quem está gastando mais dinheiro ou exercendo maior influência atualmente no mercado.
Universal 5
Sony 1
Focus Features 4
Lionsgate 1
Warner 4
A24 1
Disney 4
Weinstein 1
20th Century Fox 2
Paramount 1
Fox Searchlight 2
Open Road 11
Impressionantes os números da Universal, não? Esse é só o começo: já que a Focus Features é na verdade uma subsidiária da Universal, o número total sobe para 9. Um terço dos prêmios foram “comprados” pelo estúdio, o que faz sentido já que o mesmo está explodindo a bilheteria americana em 2015 com Jurassic World, Minions, Furious 7 e vários outros títulos. Ganharam dinheiro e estão gastando, mas fica aqui o alerta para Steve Jobs: mesmo levando tantos prêmios pra casa, a Universal deixou de fora aquela que seria sua maior aposta para o Oscar 2016. The Danish Girl e Suffragette acabaram se beneficiando e lembrando que resposta morna da crítica não significa fracasso em premiações.
Outros fatores chamaram a atenção. A Weinstein, uma das distribuidoras mais importantes na temporada do Oscar, ficou com apenas um prêmio. Carol, outro competidor fortíssimo no papel, ficou de fora. Rolam alguns boatos de que a Weinstein está mal das pernas financeiramente, será que esse ano eles desaparecem mesmo com dois fortes títulos? Outro título importante que ficou de fora foi The Revenant, com a Fox preferindo divulgar The Martian e Joy (o prêmio foi pela carreira de Robert De Niro, mas não se enganem que tem tudo a ver com o filme de JLaw).
Quanto a Mad Max, temos uma notícia boa e uma ruim. É reconfortante ver que o filme não foi esquecido pela Warner, mas ao mesmo tempo dá para ver que a obra-prima de George Miller foi deixada nos prêmios técnicos e Black Mass, da mesma distribuidora, a suplantou no prêmio de Melhor Edição (o que é um absurdo tão fenomenalmente gigantesco que prefiro parar por aqui mesmo). Fica também o destaque para Concussion e Sicario: Sony e Lionsgate não esqueceram de seus filmes e conquistaram prêmios “importantes” na noite.
Novas Previsões Melhor Filme & Melhor Diretor
A partir de agora irei atualizar algumas categorias semanalmente para não ter que fazer um reset total como da última vez. Vamos às duas principais:

1. Spotlight
2. The Revenant
3. Joy
4. Bridge of Spies
5. Steve Jobs
6. Carol
7. Room
8. The Martian
9. Brooklyn
10. The Hateful Eight
Os destaques dessas últimas semanas foram com certeza Room e The Martian. O primeiro está ganhando prêmios de audiência em vários festivais de cinema, com o buzz só crescendo. O segundo é um sucesso de bilheteria que quase todos amam e pouquíssimos odeiam, podendo ser o blockbuster que irá salvar o Oscar 2016 de outro fracasso em audiência. Steve Jobs, depois de um resultado horroroso nas bilheterias (mais sobre isso abaixo), caiu algumas posições. Após assistir Beasts of No Nation eu definitivamente creio que a Academia não irá abraçar o filme, e eu acabei deixando The Danish Girl de fora por um triz para abrigar os dois novos competidores. Fora isso, é interessante notar que The Big Short chegou de surpresa e recebeu ótimas reações em sua primeira exibição.
1. Tom McCarthy, Spotlight
2. Alejandro G. Iñárritu, The Revenant
3. Steven Spielberg, Bridge of Spies
4. David O. Russell, Joy
5. Todd Haynes, Carol
Pouco a acrescentar aqui, como sempre. Acho interessante notar que as chances de Ridley Scott e George Miller aqui são bem maiores do que as de seus respectivos filmes na categoria principal. A narrativa de uma “volta à forma” de diretores aclamados do passado e, principalmente, respeitadíssimos atualmente, é valiosa para a Academia.
Atualizações

Bridge of Spies é a primeira viagem de Steven Spielberg à Guerra Fria, e sua visão do conflito que dividiu o mundo é, como sempre, pacifista. Caindo ocasionalmente em cenas melodramáticas demais, o diretor retrata o período de forma burocrática e ao mesmo tempo humanista. Tom Hanks assume a primeira parte, enveredando-se na defesa de um espião russo capturado em território americano e depois negociando uma troca de prisioneiros em meio à construção do Muro de Berlim. Negociações complexas sempre me atraíram na dramaturgia, mas aqui a fonte não é tão abundante quanto eu poderia desejar. Na parte humanista, Spielberg traça hábeis paralelos entre as duas nações conflitantes: não é algo novo para o diretor, mas seus argumentos nunca deixam de ser lúcidos. Em última instância Bridge of Spies é uma experiência recompensante do início ao fim que deve sua qualidade em grande parte às atuações unanimemente sólidas, com especial menção ao contido e sereno Mark Rylance, e aos mesmerizantes aspectos técnicos. Não entrará para o rol de clássicos do diretor, mas é outra prova de seu talento infindável. Avaliação: ★★★½

Goodnight Mommy é mais um ótimo filme de terror lançado esse ano e o segundo a entrar no meu top 10 de 2015. O longa austríaco, submetido inclusive ao Oscar 2016, retrata a confusão de dois irmãos gêmeos quando algo muito estranho acontece com sua mãe divorciada: ela volta para casa após uma cirurgia facial que deixa seu rosto completamente enfaixado e irreconhecível. Esse nem é o maior problema, já que ela começa a tratar seus filhos de forma fria, despida de qualquer afeto e às vezes até abusiva. O que se segue é um filme desconfortável e arrepiante que explora um dos maiores horrores que o gênero do terror ainda não explorou completamente: o abandono parental. A estética do longa é meticulosamente criada, explorando com um incrível tato visual a semelhança entre os irmãos e a elegante, mas desacolhedora decoração da casa onde a maior parte do filme se passa. Goodnight Mommy não é um terror de sustos imediatos, e o abandono materno é apenas um dos temas que o longa explora. Nesse caso prefiro permanecer em silêncio e alertá-los para não buscar spoilers e, principalmente, não assistir o trailer.
Avaliação: ★★★★
– O trailer do antecipadíssimo Anomalisa está no ar! A animação em stop-motion de Charlie Kaufman foi financiada por Kickstarter e agora chega aos cinemas por uma das grandes distribuidoras de Hollywood, a Paramount. Confiram.
Trailer sem legendas:
https://www.youtube.com/watch?v=DT6QJaS2a-U
– Saiu um novo trailer de By the Sea, filme dirigido, escrito e estrelado por Angelina Jolie que também conta com seu marido Brad Pitt. Senti um melodrama forte nesse trailer, e tenho medo de que o produto final acabe seguindo por esse caminho.
Trailer sem legendas:
– Chiraq, o novo filme de Spike Lee, recebeu uma data de lançamento. A Amazon já havia anunciado que lançaria o novo projeto do diretor ainda esse ano, mas depois disso só silêncio. Agora a data é 4 de dezembro, e ao contrário da Netflix o lançamento será primeiro nos cinemas e depois no Amazon Prime. Teremos campanha para o Oscar, resta saber o que virá desse projeto: já fazem anos que Lee não tem um filme de sucesso em premiações.
– Falando em Netflix, Beasts of No Nation teve uma estreia ridícula nos cinemas durante as últimas semanas. Talvez para tirar a má impressão, o CEO da empresa (Ted Sarandos) decidiu fazer algo inédito: tornar público o número de acessos ao filme pelo serviço de streaming. Segundo Sarandos o filme já teve mais de 3 milhões de acessos só nos EUA, e foi o longa mais assistido da semana em todos os países nos quais a Netflix opera. Isso muda alguma coisa? Não sei, mas foi uma boa jogada de marketing para apagar a imagem de fracasso que o filme carregava.
– Quentin Tarantino se envolveu numa polêmica feia nessa última semana. O cineasta compareceu em um protesto contra a polícia de Nova York e fez um comentário no qual chamou os policiais de “assassinos”. A repercussão foi violenta: o comissário de polícia de Nova York falou que “não existem palavras para descrever meu descontentamento com ele e seus comentários nesse exato momento”, se referindo à morte recente de um policial nova-iorquino. Outros departamentos de polícia nos EUA se uniram ao protesto contra Tarantino, e chegou-se a tal impasse que agora corre um boato de que a Weinstein, responsável pelo lançamento de The Hateful Eight, está furiosa com o diretor. Má publicidade durante a temporada do Oscar? Nem pensar.
Nos Cinemas
No final de semana entre 23 e 25 de novembro tivemos o lançamento expandido de Steve Jobs (81 MC/85% RT) e a chegada de Suffragette (67 MC/72% RT) em apenas 4 cinemas.
Suffragette fez números razoáveis, mas nada impressionantes, com uma média de 19 mil dólares por tela. Já Steve Jobs não teve como: flopou feio. É engraçado ver que depois de ter a melhor média por tela do ano em lançamento limitado o filme foi tão ruim quando expandiu. Foram pouco mais de 7 milhões de dólares, quase ficando atrás daquele filme do Ashton Kutcher (lembram daquela porcaria?).
Já nesse último fim de semana (30 de outubro a 1 de novembro) os negócios foram prejudicados pelo Halloween. Burnt (42 MC/29% RT) e Our Brand Is Crisis (51 MC/33% RT) foram os novos lançamentos, e um flopou mais feio do que o outro. Já deu pra ver também que a resposta da crítica foi ácida. Os dois filmes estão oficialmente enterrados nessa temporada de premiações, e as únicas possibilidades são as categorias de comédia no Globo de Ouro.
Por fim, fica novamente o convite para juntarem-se ao Letterboxd e me seguirem no Twitter. Até a próxima!



















