Com pouquíssimos novos filmes ganhando força em Toronto, todos olham para os lançamentos do fim do ano.
Conforme o fluxo contínuo de lançamentos no Festival de Toronto foi acontecendo um padrão começou a se estabelecer. O relativo marasmo do evento mais entupido de títulos do cinema atual foi surpreendente, afetando até as compras dos estúdios que chegaram ao Canadá com esperanças de encontrar um filme com potencial para distribuição nos EUA.
Lançamentos que já haviam feito barulho em Veneza, Telluride e até mesmo Cannes continuaram sua jornada bem-sucedida, mas poucos lançamentos exclusivos de Toronto chamaram a atenção em questão de Oscar. Obviamente que, com o lineup monstruoso do festival, vários outros longas tiveram destaque e serão eventualmente abordados aqui na coluna. Os competidores aos prêmios, pelo menos no papel, é que não se saíram muito bem.

Isso se refletiu um pouco no principal prêmio do festival: o People’s Choice Award. Todo ano um filme é escolhido pelo público de Toronto para receber a honraria, que nos últimos anos vem sempre acompanhada de cheiro de Oscar. Alguns dos últimos vencedores: Slumdog Millionaire, Precious, The King’s Speech, Silver Linings Playbook, 12 Years A Slave e The Imitation Game. Dessa vez o escolhido foi Room, filme originário de Telluride que encantou os críticos, mas estava sendo considerado mais como um competidor nas categorias de atuação do que no prêmio principal. Isso pode mudar agora, mas é preciso saber se a pequena A24 terá cacife para fazer uma boa campanha e não ser engolida por distribuidores mais poderosos.
Enfim, vamos aos principais filmes que tiveram sua estreia mundial no 40º TIFF (Toronto Internacional Film Festival):

Com 74 no Metacritic e 75% no Rotten Tomatoes, Truth é o principal vencedor de Toronto, mesmo que as reviews de The Martian estejam melhores. O drama jornalístico de James Vanderbilt (roteirista de Zodiac) já ganhou comparações com Spotlight e carrega uma elogiadíssima atuação de Cate Blanchett que promete bagunçar as categorias femininas esse ano. O longa tem seus detratores e já foi o primeiro alvo de um artigo negativo pelo The Hollywood Reporter, mas é nas atuações de Blanchett e o coadjuvante (?) Robert Redford que o filme pode brilhar em premiações.
Já The Program combinou péssimas críticas (55 no Metacritic e 44% no Rotten Tomatoes) com sua aquisição para distribuição nos EUA por uma companhia desconhecida que pessoalmente eu nunca havia ouvido falar antes. A biografia de Lance Armstrong morreu na praia e vai deixar Ben Foster sem reconhecimento na Academia por mais um ano.
O mesmo pode ser dito de I Saw the Light, que com 45 no Metacritic e 25% no Rotten Tomatoes foi varrido dessa temporada de premiações. Tom Hiddleston e Elizabeth Olsen tiveram elogiadas atuações, mas o filme foi tão enterrado pelos críticos que provavelmente irão para casa de mãos vazias. Por outro lado, isso abre espaço para a distribuidora Sony Pictures Classics focar em títulos como Grandma, o próprio Truth e até mesmo Son of Saul.

Nada em Toronto esse ano foi mais excitante do que ver as ótimas reviews de The Martian. Com 76 no Metacritic e 97% no Rotten Tomatoes o filme é o primeiro projeto de Ridley Scott em anos a ganhar uma boa recepção da crítica. The Martian foi considerado surpreendentemente engraçado, instigante e inventivo. O que isso quer dizer para o Oscar? Boa pergunta. A distribuidora Fox tem simplesmente dois dos filmes mais antecipados em relação a premiações do ano em The Revenant e Joy. Eu apostaria em algumas categorias técnicas, mas o potencial pra mais existe. Só resta saber se a Academia abraça o projeto.
Quanto a Our Brand Is Crisis, a comédia política da Warner Bros. estrelada por Sandra Bullock, o território é bem mais nebuloso. As reviews (59 no Metacritic e 33% no Rotten Tomatoes) foram ruins, mas alguns ainda militam por uma indicação a Bullock. O que esses números do MC/RT não mostram é que há uma divisão bem bagunçada na opinião dos críticos que não permite que eu exclua totalmente o filme da competição. Mesmo assim, é inevitável adicioná-lo ao pacote das relativas decepções de Toronto esse ano. Pelo menos é um competidor interno a menos para Mad Max: Fury Road, também da Warner.
Freeheld, junto de I Saw the Light, era uma de minhas apostas na categoria de atuação. Após 39 no Metacritic e 43% no Rotten Tomatoes descobri que meus dois escolhidos afundaram feio. Ellen Paige e Julianne Moore foram elogiadas, mas aqui nada muda em relação a Hiddleston e Olsen: o filme foi tão pisoteado que é difícil que elas escapem. Ótima notícia para Sicario, que agora terá a total atenção da distribuidora Lionsgate.

Trumbo caiu no limbo e não se sabe exatamente para onde o filme vai. 63 no Metacritic e 86% no Rotten Tomatoes são bons números, mas o Metacritic representa melhor a reação ao filme: bom, nada extraordinário. Várias comparações foram feitas com filmes feitos para a TV, sem que ninguém tenha ficado realmente impressionado com o resultado final. Bryan Cranston como protagonista parece ser a principal oportunidade em premiações, e tenho a impressão de que o filme só não foi excluído das previsões de todo mundo pelo seu tema principal: Hollywood. É um bom motivo, já que todos sabem o quanto a Academia gosta de falar sobre si mesma. Fiquem de olho.
Legend, o filme de máfia com dois Tom Hardy’s em tela, também teve uma recepção morna com 59 no Metacritic e 56% no Rotten Tomatoes. Apesar do filme estar quebrando recordes de bilheteria em seu país natal, o gênero e as críticas afundaram suas chances de prêmios. Uma pena, pois Tom Hardy foi aclamado pelas duas performances. Será que The Revenant será sua grande chance?
Saindo de 2015, temos o lançamento de 2016 Demolition que deixou todos especulando se a Fox Searchlight iria mudar sua data se o filme ganhasse buzz. Depois de 51 no Metacritic e 53% no Rotten Tomatoes acabou que provavelmente nada irá mudar. Gyllenhaal ganhou inúmeros elogios, já que nesse ponto de sua carreira parece impossível entregar algo menos que brilhante, mas o resto foi bem “meh”. Entretanto, há defensores ardentes do filme que me deixam esperançoso. Mesmo assim, é consenso geral de que o longa não sobreviveria na temporada de premiações, principalmente com uma sinopse tão “comum”. Mais um que vai pro ralo.

Alguns outros filmes fizeram barulho no festival. The Lady in the Van parece ser um veículo perfeito para os talentos de Maggie Smith, apresentando uma comédia adorável que poderá receber uma campanha através da Tristar, braço da Sony Pictures. Também apostando em uma atriz veterana, The Meddler saiu de Toronto com ótima resposta à atuação de Susan Sarandon e um contrato de distribuição com a Sony Pictures Classics. Já em Born to Be Blue Ethan Hawke impressionou os críticos interpretando uma lenda do jazz (alguns anunciando que é a melhor atuação dele), mas o filme ainda precisa de distribuição.
Fora de todos esses pretensos competidores ao Oscar temos toneladas e toneladas de filmes estrangeiros e/ou desconhecidos que provavelmente valem a pena. Entretanto, é praticamente impossível abordar tudo isso sozinho. Vários filmes estrangeiros submetidos ao Oscar provavelmente foram exibidos no festival, e ao longo do próximo ano os longas que conseguirem distribuição, tanto estrangeiros como americanos, serão lançados.
Quanto à temporada de premiações em si, Toronto ficou muito vazio. É claro que outra tonelada de fortes competidores passou por aqui (Sicario, Youth, Spotlight, Beasts of No Nation e Room, só para citar alguns), mas essas pérolas já haviam sido reveladas em outros festivais. O que isso significa para o Oscar? Será que filmes do começo e meio do ano (Love & Mercy e The Diary of a Teenage Girl) ou títulos menos “óbvios” (Mad Max, Anomalisa, Son of Saul, Inside Out) serão beneficiados?
Em breve uma nova rodada de previsões do Oscar. Esperem mudanças drásticas nas tabelas. A competição está apenas no início e tem muita água pra rolar.
Atualizações

Coming Home representa o meu primeiro contato com o diretor chinês Zhang Yimou, um dos mais aclamados cineastas orientais da atualidade. Seus prêmios falam sozinhos: 2 filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, 2 BAFTA’s, 1 Urso de Ouro e 2 Leões de Ouro. Yimou é reconhecido por grandes épicos de artes marciais, mas Coming Home é uma pequena e emocionante história ambientada logo após o fim da Revolução Cultural chinesa. O esposo da protagonista interpretada por Li Gong, cuja colaboração de longa data com o diretor é comparada a duplas como De Niro/Scorsese, é libertado da prisão por suas supostas conexões capitalistas e retorna para casa. Ele tenta se reconectar com sua mulher, mas ela sofre de uma doença mental que impede o seu reconhecimento. Com a ajuda da filha ele tenta fazer com que a memória da personagem volte. Tudo isso é espetacularmente filmado com uma paleta de cores que lembra um pergaminho, e o peso emocional da história é esplendorosamente carregado por Li Gong e o restante do elenco. Coming Home é uma lição sobre como lidar com o passado a fim de criar um futuro melhor, tema que parece estar em ressonância com o período histórico mostrado no filme. Avaliação: ★★★★

O filme de boxe talvez seja o gênero mais saturado da história do cinema, e Southpaw mostra todas as marcas dessa crise criativa. O diretor Antoine Fuqua não entrega um filme bom há muito tempo, e para meu desgosto descobri que Jake Gyllenhaal estará em seu próximo projeto. Sai dessa, parceiro. O filme é carregado pela atuação do protagonista e oferece pouco mais do que isso. A cinematografia é irritantemente escura, mas de outra forma é difícil criticar Fuqua por algo além de falta de originalidade. Os clichês são reproduzidos com competência e o roteiro de Kurt Sutter apresenta bons diálogos. É Gyllenhaal quem brilha outra vez, e isso me faz pensar que ele só precisa encontrar o projeto certo para levar o Oscar pra casa. Não é o caso de Southpaw. Avaliação: ★★★
– Quer interagir com o Oscar Maníacos durante o resto da semana? Me adicionem no Letterboxd para acompanhar os filmes que eu e outros leitores da coluna estão assistindo. Se não tiverem Letterboxd e amarem cinema, só tenho isso a dizer: o que estão esperando?
– Também comecei a usar minha conta no Twitter para divulgar notícias com mais agilidade, sem precisar esperar uma semana para elas aparecerem na coluna. Sigam lá ;D
Nos Cinemas
Nesse final de semana os filmes de Oscar começam a ser lançados pra valer nos cinemas, e logo de cara temos ótima representação de 3 títulos de peso: Everest, Black Mass e Sicario.
Black Mass sai bem na frente e até briga com o blockbuster da semana (Maze Runner) pelo primeiro lugar nas bilheterias com 23,4 milhões de dólares. É o primeiro sucesso de Johnny Depp após muito tempo amargando resultados ruins em filmes como Mortdecai e Transcendence.
Everest recebeu um inusitado lançamento, tendo seu primeiro final de semana nos EUA apenas em salas IMAX. O número limitado de cinemas não impediu o filme de entrar no Top 5 com 7,6 milhões, e o prognóstico para quando esse número aumentar é muito favorável. Enquanto isso, no resto do mundo, o filme faz $28,2M. Outro sucesso para o ano histórico que a Universal está experimentando.
Quanto a Sicario, o filme deu largada com um lançamento limitado a apenas seis cinemas. O que o aparentemente pequeno número de $390m não mostra é que essa foi a maior média de arrecadação por cinema do ano: $65m. Só para dar uma pequena comparação o número 1 desse final de semana, Maze Runner, teve uma média de $7m. Vamos ver o que o filme consegue fazer quando expandir para mais cinemas.






















