O encontro do cinema europeu com Hollywood. P.S.: o quão sexy é a foto acima?

O festival de Veneza é o mais antigo de todos os festivais de cinema, e com certeza um dos mais importantes do mundo. Berlim e Cannes são os mais comparáveis, mas o evento italiano possui uma característica única que também o coloca lado a lado com Telluride e Toronto: seu potencial nas premiações. Seu período de atividades, logo no começo de setembro, é perfeito para distribuidores que buscam alavancar títulos na implacável luta pelo Oscar. Sua tradição confere um distinto ar de sofisticação aos longas apresentados, algo que Telluride e Toronto não conseguem reproduzir. Não é culpa deles: as locações europeias são realmente insuperáveis.

Por outro lado, a quantidade de filmes com potencial em prêmios que passam por Veneza não é tão grande. Em 2014 os únicos títulos importantes foram Birdman e a animação The Boxtrolls. Esse ano as coisas mudaram, e temos vários possíveis competidores no páreo. Mesmo assim, nada comparável com a tonelada de títulos que Toronto irá receber esse ano (falarei sobre eles no próximo artigo).

Felizmente o Oscar Maníacos já cobriu boa parte deles em artigos anteriores. Estou falando mais especificamente de Everest, Beasts of No Nation, The Danish Girl, Black Mass, A Bigger Splash e Spotlight. Todos possuem, teoricamente, ambições em premiações, serão exibidos esse ano em Veneza e já foram analisados nessa coluna.

Everest será o filme de abertura, e considerando o sucesso de seus antecessores Birdman e Gravity fica a dúvida se o longa do diretor Kormákur é realmente um competidor no Oscar. Os trailers passaram a impressão de um filme de sobrevivência com enorme apelo visual, mas o elenco estelar parece anunciar que as ambições da Universal para o filme são maiores.

A Bigger Splash, Beasts of No Nation e The Danish Girl entrarão em competição, concorrendo ao prestigiado Golden Lion e diversos outros prêmios. Black Mass, Everest e Spotlight só vão “a passeio”.

Quanto ao resto? É difícil garimpar títulos interessantes tão cedo, e com certeza alguns dos filmes que eu deixar para trás acabarão ganhando fama posteriormente. Mesmo assim, selecionei 4 longas que parecem interessantes na primeira passada de olhos.

img1

Anomalisa é uma animação em stop-motion que foi paga através de uma campanha no Kickstarter. Considerando a classificação etária (Rated R) e o tema do filme (um homem que analisa o quão mundana é sua vida), é seguro afirmar que não há nada infantil nesse projeto. O diretor do longa é a maior surpresa: Charlie Kaufman, roteirista três vezes indicado ao Oscar e que recebeu a estatueta por seu trabalho em Adaptation. Outros projetos incluem os famosos Being John Malkovich e Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Experiência com animações? Nenhuma. Talvez por isso o filme é co-dirigido por Duke Johnson, que já trabalha na área. Não faço a mínima ideia se o projeto, que também estará presente em Toronto, decola na categoria de Melhor Animação. A princípio parece algo totalmente fora da zona de conforto das animações que a Academia geralmente cita, mas Kaufman está definitivamente “dentro do clube”. Anomalisa estará em competição no festival de Veneza e conta com as vozes de Jennifer Jason Leigh, David Thewlis (Remo Lupin para os Potterheads) e Tom Noonan. Wait and see.

img2

Equals é um projeto que me deixou interessado desde o primeiro momento em que tomei conhecimento sobre o mesmo. A sinopse é intrigante, envolvendo uma ficção científica misturada com romance e ambientada em um mundo futurístico onde as emoções foram erradicadas. Kristen Stewart, continuando sua ascenção no cinema independente, contracena com Nicholas Hoult. O ator está pulando de um blockbuster para outro com resultados diversos: Jack the Giant Slayer e Clash of the Titans de um lado, a franquia X-Men do outro. É em Mad Max: Fury Road, entretanto, que Hoult chamou a minha atenção. Seu personagem Nux se destacou no meio de um filme lunático e entupido de adrenalina, um feito que merece seus méritos. Será que o ator tem mais a oferecer? Guy Pearce também participa, num filme com a direção do romântico Drake Doremus (Breathe In, Like Crazy) e roteiro de Nathan Parker. Equals estará em competição no festival de Veneza.

img3

Que coincidência: com The Childhood of a Leader Robert Pattinson se junta a Kristen Stewart no festival de Veneza. O filme dirigido pelo ator Brady Corbet, novato no cargo de diretor, narra a infância de um futuro líder fascista durante a Primeira Guerra Mundial. A ideia é simplesmente fascinante. O longa poderá explorar as experiências juvenis que lentamente moldam a psique de um extremista e trazem suas consequências na Segunda Guerra. Liam Cunningham (sim, é o Davos) e Bérénice Bejo (The Artist) são os pais do garoto. Estou em dúvida em relação ao papel de Pattinson, que obviamente não poderá interpretar uma criança. The Childhood of a Leader estará em competição no festival de Veneza como parte da seleção Orizzonti, uma categoria secundária direcionada a novos talentos.

img4

Outro longa em Veneza com uma sinopse espetacular é Remember, projeto do diretor indicado ao Oscar Atom Egoyan (The Sweet Hereafter). O filme conta a história de dois amigos judeus interpretados pelos oscarizados Christopher Plummer e Martin Landau que prometem vingança ao oficial nazista responsável pela morte de suas famílias no Holocausto. Combinando uma plot inteligente e chamativa com esse elenco, Remember ganhou minha atenção. Dean Norris, o eterno Hank de Breaking Bad, também participa. Surpreendentemente, já temos um trailer disponível. Confira (sem legendas): https://www.youtube.com/watch?v=_ujjPRZm6Lo Atualizações Pequena novidade: começarei a dar notas nas minhas “mini-reviews”. Principalmente em posts totalmente focados na corrida do Oscar, é bom lembrar-se de que existe bom entretenimento fora da temporada de premiações. Notas em cinco estrelas, obviamente refletindo o que eu colocar no meu Letterboxd. A propósito, estou amando a experiência de stalkear os leitores para saber do que eles gostam, o que estão assistindo e o que pretendem assistir. Junte-se à experiência!

img5

A Girl Walks Home Alone At Night entrou imediatamente no meu Top 10 de 2015. É um daqueles filmes de terror que contorce os limites do gênero sem qualquer cerimônia e maravilha mesmo sem assustar (algo que o igualmente maravilhoso It Follows também fez esse ano). A novata diretora Amirpour emprega um sólido elenco persa numa narrativa vampiresca e romântica que às vezes se dissolve em divagações e pequenas cenas que não possuem importância alguma. Não é um problema: a espetacular trilha sonora, eclética e sempre presente, e a belíssima cinematografia em preto-e-branco carregam o espetáculo. Em certos momentos o filme explode em sensualidade (permitam-me frisar a palavra, EXPLODE), às vezes explora um romance sombrio e trágico e até mesmo uma pequena plot feminista surge para quem quiser vê-la. A Girl Walks Home Alone At Night é um filme que despreza rótulos e apresenta ao mundo um novo e promissor talento. Amirpour já tem um novo filme em 2016 sobre uma comunidade de canibais que conta com Keanu Reeves, Jim Carrey e Jason Momoa no elenco. Aguardo ansiosamente. Avaliação:  ★★★★

img6

Far From the Madding Crowd é espetacular em todos os sentidos, menos em sua história. Baseado em um livro de Thomas Hardy sobre o qual eu não possuía nenhum conhecimento prévio o longa se sustenta em um quadrado amoroso entre Carey Mulligan e os atores Matthias Schoenaerts, Michael Sheen e Tom Sturridge. O grande problema de filmes que mergulham puramente em relacionamentos é que muitas vezes o poço de criatividade é raso e a trama se resume ao enredo novelesco de quem-fica-com-quem. Depois de avaliar a linda fotografia, as belas atuações, a iluminação inspirada e a ótima trilha sonora é exatamente isso que resta. Mulligan e Sheen são os que mais se destacam, mas em nenhum momento surge a tão necessária química entre os atores. Schoenaerts é criminalmente sub-utilizado (justamente quem brilhou em um dos meus “filmes de relacionamento” preferidos, Rust and Bone) e a trama segue uma trilha de plot twists cujo único objetivo é não deixar ninguém solteiro. Sem falar em Sturridge, que carrega nas costas as reviravoltas do filme e não convence em seu papel. Mesmo assim me vejo recomendando Far From the Madding Crowd, cujo título o longa não se importa em explicar. Os aspectos técnicos são realmente assombrosos e a inspirada Mulligan, que nesse fim de ano tem uma grande oportunidade no Oscar com Suffragette, é uma maravilha a ser contemplada. Resta apenas a decepção direcionada ao diretor Thomas Vintenberg, cujo último longa The Hunt antecipava um futuro um pouco melhor para o cineasta. Avaliação: ★★★

img7

Falando em filmes românticos, 5 to 7 é um ótimo exemplo de longa bem-sucedido em explorar esse assunto sem cair na canastrice. Com atuações sensíveis e elegantes de Anton Yelchin e Bérénice Marlohe, o diretor Victor Levin estuda um relacionamento pouco convencional. Arielle é uma mulher casada e com dois filhos de pouco mais de 30 anos de idade que conhece o jovem escritor Brian e inicia um caso extra-conjugal com a “benção” de seu marido. Ela é francesa e está habituada a esse tipo de relacionamento. Ele, americano, tenta se acostumar com a situação. O choque cultural é deliciosamente estudado pelo filme, que questiona abertamente os costumes de cada país em diversas camadas. A química entre os atores funciona muito bem (auxiliada pela beleza estupenda de Marlohe), a trilha sonora é daquelas raras jóias que grudam em sua cabeça e as participações especiais de Glenn Close e Frank Langella são deliciosas, mas em outros sentidos 5 to 7 peca um pouco. A comédia às vezes não funciona e o roteiro por vezes parece pensado demais, criando diálogos que não soam naturais. Entretanto, isso não impede o prazer de aproveitar um filme com ótimos atores e uma mensagem que apesar de às vezes ser idealista demais não deixa de atingir seu objetivo final. Avaliação: ★★★½ img8

Shaun the Sheep Movie é um importante lembrete de que às vezes é preciso pouco, muito pouco, para criar um filme brilhante. A animação em stop-motion é baseada em um famoso seriado britânico infantil (do qual nunca tive conhecimento) e conta a história de um grupo de ovelhas que viaja para a “cidade grande” a fim de resgatar seu dono das garras da amnésia depois que ele é acidentalmente enfiado dentro de um trailer em movimento e acredita ser um famoso cabeleireiro já que… Esqueçam. A comédia pastelão começa imediatamente após os créditos iniciais e segue ininterrupta até o fim do filme, envolvendo fantasias humanas, almoços luxuosos, um cavalo que na verdade é uma motocicleta e um vilanesco agente do controle de animais. Shaun the Sheep é um filme sem diálogos, simples, nada inovador e extremamente infantil. O que o torna tão especial é sua funcionalidade. Tudo é caprichado, criativo e até mesmo emocionante. O longa não se arrasta em nenhum momento e fará você se sentir uma criança por amá-lo tanto. O sentimento é muito bem-vindo. Avaliação: ★★★★

– Era só isso que eu precisava para aguardar com ansiedade By the Sea, novo projeto de Angelina Jolie com seu marido Brad Pitt. Unbroken foi uma completa decepção, mas esse projeto parece ser totalmente diferente e mal posso esperar pela interação dos dois no filme. Ótima escolha musical.

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=F5hBdgFporM

– Saíram trailers de dois possíveis competidores ao Oscar, ambos da distribuidora A24, sobre os quais ainda não comentei. Vou aproveitar a oportunidade: Room é um drama materno do diretor Lenny Abrahamson (What Richard Did e o aclamado Frank do ano passado) que envolve um garotinho que nasceu e cresceu dentro de um único quarto e não conhece nada sobre o mundo externo. A obra é baseada em um livro do mesmo nome e está atraindo a atenção para sua protagonista Brie Larson, outra jovem e talentosa atriz. Larson provavelmente receberá uma campanha para o Oscar, já que a A24 parece decidida a entrar no “mercado” das premiações. Joan Allen e William H. Macy também estrelam o filme, cujo trailer me animou bastante para conferir o resultado final.

Trailer sem legendas:

– Já Mississippi Grind é um filme de estrada misturado com filme de aposta. Dois viciados na arte de perder dinheiro estupidamente são interpretados por Ryan Reynolds e Ben Mendelsohn, cujos personagens se conhecem e iniciam uma parceria para recuperar a grana que perderam. Algumas reviews já saíram e parecem sólidas. Talvez a A24 aposte em Ben Mendelsohn como ator coadjuvante, mas com Room e The End of the Tour parece que a inexperiente distribuidora já tem muito com que lidar.

Trailer sem legendas:

– Abrindo essa semana nos cinemas temos dois potenciais competidores ao Oscar. The Diary of a Teenage Girl mantém as ótimas reviews de Sundance (85 no Metacritic e 96% no Rotten Tomatoes), mas a não ser que o filme comece a aparecer nas premiações não ponho a mão no fogo por ele. Já Ricki and the Flash apanhou da crítica (54 no Metacritic e 58% no Rotten Tomatoes) e fora a atuação de Meryl Streep creio que o filme está fora do circuito. Talvez até mais do que isso: um dos produtores do filme disse que o projeto realmente não tem pretensões de Oscar e talvez Streep nem receba uma campanha.

Previsões do Oscar

Construí algumas tabelas no Google Drive para armazenar minhas previsões do Oscar. Com o tempo irei adicionar outras categorias, e também estarei sinalizando qualquer alteração que for feita. Essa semana apenas rebaixei Meryl Streep na categoria de Melhor Atriz, dada a recepção ruim da crítica e declaração acima reproduzida do produtor do filme. Clique nos títulos e acesse os arquivos completos.

Melhor Filme Melhor Diretor Melhor Ator

Melhor Atriz Melhor Ator Coadjuvante Melhor Atriz Coadjuvante

Melhor Roteiro Original Melhor Roteiro Adaptado

No próximo artigo falaremos sobre o Festival de Toronto!

Artigo anteriorMasterChef Brasil 2×12: Episódio 12
Próximo artigoHeroes Reborn | Assista agora aos seis episódios da web série