Começar uma série é algo complicado. Apresentar um enredo interessante e personagens desconhecidos, e acima de tudo causar uma boa primeira impressão nos telespectadores é uma das tarefas mais difíceis de qualquer showrunner.

Alguns pilotos são um desastre, outros são idênticos a outro piloto de uma série do mesmo gênero, e por aí vai. Ainda assim, há aqueles pilotos que, além de conquistar o público, superam as expectativas de qualquer um apresentando um primeiro episódio genial. Baseado nisso, nós aqui do Série Maníacos reunimos os 16 melhores e mais importantes pilotos da televisão.

16º – Twin Peaks (por Paula Pötter)

Rever qualquer episódio de uma das suas séries favoritas é sempre um problema, foi só ouvir a musiquinha ultra anos 90 de abertura de Twin Peaks que bateu uma vontade de ver tudo de novo. Mas, fazendo um esforço tremendo para me concentrar no piloto e não levar em consideração o resto da série (foi divertido tentar lembrar-se das minhas reações quando eu vi o episódio pela primeira vez e ver o quão errada eu estava sobre quase tudo), duas coisas me chamaram atenção: começando pela rapidez com que a série consegue fazer eu me importar com os seus personagens.

É difícil uma série prender a minha atenção logo nos seus primeiros minutos, sempre começo o episódio meio dispersa – digamos que primeiro a série tem que me convencer de que merece minha total atenção. Twin Peaks começa com o corpo da Laura Palmer sendo encontrado e segue mostrando o impacto da morte dela nos demais personagens, e eu me lembro de assistir a série pela primeira vez e logo sentir esse impacto. Assim, não pensem mal da minha pessoa, mas eu vejo muita série em que pessoas são assassinadas e muitas vezes a crueldade do crime, o lado trágico mesmo da história, passa quase despercebido, a gente fica meio Sherlock/House sabe? Só quer desvendar o mistério e pouco se importa com a vítima. Impossível (para mim) não se comover nem um pouquinho com as reações dos pais, dos colegas e todo o resto da população de Twin Peaks a notícia terrível.

Aliás, tinha esquecido a quantidade absurda de personagens (a maioria bizarros) que desfilam pela série! Vendo o episódio pela milésima vez eu fiquei reparando como o Lynch consegue apresentar cada um desses personagens, mostrando a superfície de cada um deles (quem viu sabe que o povo de TP tem vida tripla) e dando um gostinho de que cada um deles esconde alguma coisa; o que serve não só para deixar bem claro que todos são suspeitos, como também gera curiosidade e interesse em ver o resto da série (no meu caso, ver novamente o resto da série). O melhor para mim é o Agente Cooper – que só dá as caras lá pela metade do episódio – cinco minutos e quase tudo que ele passa pela tela, acho fantástico: ele chegando ao hospital e alternando perguntas pertinentes sobre o caso e aleatoriedades como “qual o nome das árvores espalhadas pela cidade” para um perplexo xerife Truman. Fora que ver Cooper falando com Diane é impagável sempre.

PS. Muita vontade de comentar sobre ver o piloto sabendo quem matou Laura Palmer, mas eu me controlei.

15º – Mordern Family (por Vinícius Barros)

É consenso entre os viciados em série que piloto de comédia é uma coisa complicada. Frequentemente as piadas não funcionam, tanto que damos mais uma chance para a série engrenar. Mas Modern Family não precisou disso. O piloto foi unanimemente aclamado pela crítica à época, e ganhou, sozinho, 5 premiações. Por conseguir atingir vários grupos demográficos, o mockumentary também caiu no gosto da audiência, ainda sendo, após três temporadas, a comédia mais vista da fall season americana (além de já ter 43 prêmios na bagagem, incluindo 8 Emmy’s – e contando).

E não é por menos. Os núcleos da família moderna – a latina que se casa com um homem mais velho, a clássica família feliz americana e o casal gay que adota uma criança – foram retratados de maneira leve e irreverente, sem precisar apelar para piadas de gosto duvidoso. Não tem como não se sentir acolhido por Claire, uma reencarnação da Mônica de Friends; Phil, o paizão boa pinta e “apatralhado”; Gloria, a soccer mom colombiana com voz de taquara rachada; Jay, o sessentão gente boa; Mitchell, o nervoso pai de primeira viagem e Cameron, a “diva” do grupo. Sem falar das crianças (como elas cresceram, hein?), que, afiadíssimas, completam a receita de um piloto bem-sucedido.

Mas não só pela boa escolha do elenco se justifica a presença da série neste top. O episódio foi recheado de ótimos momentos: Mitch, dando piti no avião; Phil, encenando a coreografia de High School Musical; Luke, morrendo de medo de ser atingido pelas balas de plástico; Gloria, defendendo seu rebento a plenos pulmões na partida de futebol… E, claro, a entrada triunfante de Cam, apresentando a pequena Lily para a família, ao som da trilha sonora de O Rei Leão. Por tudo isso, Modern Family foi a grande revelação daquele ano. Mesmo com uns tropeços em sua segunda temporada, continua como uma das melhores comédias da atualidade – o que, convenhamos, foi muito fácil de prever após este brilhante piloto.

14º – Arrested Development (por Vinícius Barros)

A música triunfante e a narração ao fundo eram sinais de que algo diferente surgia na TV em 2003. It’s Arrested Development! No programa, Michael, o único membro da família Bluth com um pouco de sanidade, se vê encarregado de tocar o negócio de seu pai, George, preso por desviar o dinheiro dos acionistas. Mas não é tão simples. Somos apresentados aos demais membros da disfuncional família Bluth, que trouxeram muita dor de cabeça ao protagonista. Esnobes e vazios, os Bluth estavam acostumados a não trabalhar e viver à custa do dinheiro da companhia – mas essa fonte secou. Destaque para Buster e Gob, irmãos de Michael: aquele, louco de pedra, este, um fracassado, carismático e sem noção mágico ilusionista (brilhantemente interpretado pelo então desconhecido Will Arnett).

Além de personagens afiados e um roteiro bem construído, o piloto se destaca pela sua audácia ao lançar mão de recursos até então inéditos na comédia americana. Para começar, adotou o formato de documentário e foi filmado com câmeras operadas manualmente, e não em tripés. Também se utilizou de flashbacks, descartou as laugh tracks (aquelas risadas de fundo das sitcoms) e trouxe um narrador constante, que não se contentava em ser imparcial. Até a transição entre os blocos era diferente: ao invés do tradicional fade to black, a tela ficava branca. Havia, também, um singular “on the next…” que, ao invés de apresentar as cenas do próximo capítulo, dava continuidade aos arcos iniciados naquele episódio, de maneira irônica e às vezes decisiva para a trama.

De fato, o modelo é inusitado até para os dias de hoje, e a baixa audiência fez com que a série fosse precocemente cancelada após seu terceiro ano (embora tenha sido bem recebida pela crítica, faturando 6 Emmy’s). Por todos os seus méritos, o piloto é obrigatório a qualquer série maníaco e, se você ainda não viu, aproveite que a Netflix resolveu encomendar episódios inéditos para 2013 e faça uma maratona. Após um piloto como esse, duvido que você consiga desgrudar da televisão e não assistir ao restante da série.

13º – Friday Night Lights (por Fernanda Santana)

FNL foi desenvolvida para ser o novo drama teen de 2006. E na teoria era isso mesmo. Mas logo no piloto abandonamos essa idéia, e deixamos de ver FNL como um drama teen, e passamos a vê-la simplesmente como um bom drama. Os personagens são marcantes e convincentes (preciso dizer que fiquei loucamente obcecada por Tim Riggins) e as atuações condizentes. O roteiro bem resolvido é uma das características mais positivas, já que na maioria das vezes, o piloto não nos dá a real ideia do que se tornará a série. Direção de arte, fotografia, estilo cinematográfico, que até então, não era utilizado de maneira tão forte em uma série de TV que visa o público adolescente, tudo muito bem amarrado com a dose certa e real de drama na vida de cada personagem e a pressão que a cidade colocava no time.

Sim, os clichês de toda produção que tem como base o “high school” e o time de futebol estão presentes aqui. Líder de torcida, o quarterback popular que se machuca e tem que viver em sua nova realidade, o jogador problemático e torturado (aaaaaaaa Tim Riggins), o quarterback reserva que é subestimado, mas que brilha como nunca quando tem sua oportunidade, o jogador que se acha e fala demais, a high school bitch, a filha ingênua do técnico. E o técnico, menção honrosa para Kyle Chandler e seu Eric Taylor, que logo no piloto nos mostra que é a balança certa entre coração e razão.

FNL é a adaptação televisiva do livro de 1990 (Friday Night Lights: A Town, a Team, and a Dream, escrito por H. G. Bissinger). Em 2004 tivemos também a adaptação para o cinema, com nomes como Billy Bob Thornton, Tim McGraw, Garrett Hedlund, Derek Luke e Jay Hernandez. As diferenças entre o filme e o seriado são bastante sutis. Mudaram o nome da cidade e os nomes dos personagens (as características marcantes e necessárias foram mantidas). Os únicos elementos que permaneceram os mesmos são: a ótima Connie Britton na pele da esposa do técnico (aquela que age como sua consciência) e Peter Berg que no filme atua como diretor, e no seriado como diretor e produtor executivo.

Quem assistiu ao filme, ou leu o livro, sabia o que deveria acontecer, mas não podemos deixar de parabenizar a produção da série pela seriedade, qualidade e cuidado que tiveram na realização do piloto, o que acabou sendo a melhor surpresa de FNL. Pouco me importa se no decorrer de suas cinco temporadas a qualidade de FNL tenha caído e/ou que a audiência nunca foi satisfatória. Pelo menos sempre teremos a qualidade desse piloto!

12º – How I Met Your Mother (por Guilherme Inojosa)

O que torna o piloto de How I Met Your Mother tão especial é conseguir servir como uma ponte entre o espectador, o clima da série, a história contada e todas as características que a tornaram uma série tão marcante nos seus primeiros anos. Os personagens e suas primeiras idiossincrasias, sendo mais notável no caso de Barney, elementos marcantes da mitologia como Ranjit, o trompete azul, as frases de efeito mais marcantes durante os próximos anos, até mesmo algumas situações que seriam aproveitadas posteriormente, como o momento em que Ted e Barney se conhecem ou Marshal acertando Lilly.

Entretanto, existe um elemento que consegue ser o diferencial que o torna tão marcante: Bob Saget. É ele quem rouba a cena, mais do que Neil Patrick Harris, fazendo uso do seu narrador semi-onisciente para formular boas piadas, ser um demonstrativo suficiente de pontos da personalidade de seus personagens, além de o roteiro o utilizar para construir a surpresa tão marcante do final do episódio, aquela frase que quebra todos os clichês tão marcantes do gênero e deixou todos de boca aberta. Afinal, como o próprio Ted admite no fim, conhecer Robin foi apenas o primeiro tijolo na sua longa caminhada e aquela seria uma longa, longa, longa, longa história.

11º – Smash (por Aline Diniz)

Steven Spielberg anda colocando seu nome a torto e a direito em produções televisivas que não chegam ao ambiente com o mesmo respeito que o produtor. Uma de suas últimas tentativas que resultou em fracasso foi Terra Nova, série de alto orçamento que não fez sucesso entre o público, sendo cancelada logo após a primeira temporada. Mas a questão aqui não são os erros, e sim o acerto de Spielberg na televisão: Smash. Cheia de grandes nomes em seu elenco – tanto da televisão quanto da Broadway -, a nova série musical chegou com créditos para muita gente. O grande problema foi que isso não durou muito tempo.

Apesar de haver apenas dois seriados musicais na TV, não se deve compará-los. Enquanto Glee tem como público alvo principalmente adolescentes, utilizando a música apenas como acessório em meio à trama, Smash foi criada especialmente para apresentar músicas originais ao seu público. Produzida por Craig Zadan (Chicago) e Neil Meron (Hairspray), com Marc Shaiman e Scott Wittman (ganhadores do prêmio Tony por Hairspray) como compositores, Smash tem por trás das cortinas pessoas que entendem daquilo que estão falando.

Mesmo enfatizando o longo tempo de espera entre a ideia em si e a primeira apresentação da peça, a série acelerou um pouco o processo de produção para não deixar a coisa muito maçante para a audiência. Logo no piloto já foi escolhido o diretor da peça e começa a ser discutido quem será a estrela da produção – coisa que, na vida real, levaria algo em torno de seis meses a um ano. Mas não entenda mal, a aceleração de todo o processo é o que deixa o piloto de Smash interessante.

Smash também teve a seu favor o fato de ser gravado em locação, o que significa que os personagens vão mesmo às ruas de Nova York – e não rodam suas cenas dentro de estúdios. Além de passar uma maior sensação de veracidade à série, a ambientação fez com que as atuações ficassem mais naturais. Outro grande ponto positivo foram as músicas temas e suas melodias. Ao final do episódio, é inevitável não ficar cantarolando “Let Me Be Your Star” ou “20th Century Fox Mambo”. Mas não se deixe por enganar, o que foi um ótimo piloto acabou se tornando uma série incrivelmente medíocre.

10º – Friends (por Tiago Pacheco)

A série de comédia mais amada por 8 entre cada 10 fãs de séries: é difícil escrever como Friends começou, pois poucos de nós estavam lá quando ela só tinha, de fato, um único episódio. Dá pra contar nos dedos o número de fãs que presenciaram o nascimento ‘ao vivo’ – eu mesmo sou um que peguei a série no meio, e só fui ver esse piloto tempos depois. Aliás, “piloto” não: prefiro chamar pelo carinhoso nome de “aquele onde tudo começou”.

Esse primeiro episódio é um exemplo claríssimo de que uma série não precisa tentar fazer nada exuberante, espalhafatoso, para conseguir passar uma boa imagem. Basta que atinja o seu ponto principal. No caso de Friends, fazer rir. As três, quatro cenas inicias desse primeiro episódio são completamente soltas, aleatórias, sem nada de mais por trás. Tudo casual, ‘vivendo a vida’, até o momento em que Rachel entra pela porta do Central Perk correndo com um vestido de noiva. E a ideia é justamente essa, meu amigo: no meio da vida acontece alguma coisa que muda tudo, e você simplesmente não tem como prever isso. O máximo que você pode fazer é terminar com sua esposa lésbica e estar disponível para pegar uma colher.

O ator galinha, o nerd desajeitado, o piadista sarcástico (como eu ri com Chandler nesse episódio, meu Deus!), a patricinha que nem um café sabe fazer, a limpadora de auras (hahaha), a única responsável, que no fim se ilude com uma canalhice. De cara não deu pra ver, mas nascia assim um dos grupos mais promissores e bem-sucedidos da história da televisão.

9º – Breaking Bad (por Arlane Gonçalves)

“Man, some straight like you, giant stick up his ass, all of a sudden at age, what, 60, he’s just gonna break bad?”

Assim como é o caso de muitas outras séries, o piloto de Breaking Bad é apenas a ponta do iceberg da imensa excelência que a série viria a alcançar. Mas, já de início, dá para perceber que esta sinopse tão peculiar conseguiu a proeza de ser bem sucedida em sua apresentação. Afinal, quem diria que a história de um professor de química com câncer, que se torna um produtor de metanfetamina, chegaria aonde chegou?

Acontece que o melhor mesmo não dá para captar numa sinopse. O Piloto da série não mostra um professor de química com câncer. Mostra um homem frustrado com sua vida, sua profissão, suas conquistas, seu tudo. A única razão de sua existência é sua família. O câncer entra na história apenas para enterrar este homem frustrado e fazê-lo mudar de atitude, visto que, com sua morte iminente, ele não teria nada a perder. Assim, o tímido e reservado Walter White deixa sua pacata vida para trás e recomeça sua jornada como aquele que deixa de temer tudo para ser o maior temor de todos.

A atuação de Bryan Cranston é um dos maiores trunfos deste primeiro episódio. Sua expressão de submissão diante do cunhado, da esposa e do patrão só muda quando ele está falando de química, sua grande paixão. Sua indiferença ao ouvir o diagnóstico, sua demissão no lava jato, e a chantagem para que Jesse aceitasse a parceria para a produção de metanfetamina, expressam muito bem o início da metamorfose do personagem. Ou, como ele descreve, seu despertar.

E então, gostaram da primeira parte do Top? Quais séries vocês acreditam que serão as 8 primeiras? Não deixe de passar aqui no Série Maníacos amanha para conferir a parte final da lista.

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