Voltamos.
Com mais dez itens, continuamos nosso processo de entender e conversar sobre o que se passou na televisão em 2019. Como nas séries anteriores, vou falar um pouco sobre a temporada de cada uma antes de comentar o episódio em questão. Há séries disponíveis tanto na Netflix quanto em outras plataformas e serviços, e dos mais diversos gêneros (o que sempre torna ainda mais subjetivo elencá-las no mesmo ranking).
Sempre grato pela companhia nessa jornada — e sempre te lembrando que os textos não possuem spoilers, minha lista de Melhores Episódios de 2019 continua assim:
40 – Sintonia, 01×01: “Pegaram a Cacau” (09/08/2019) [Netflix]
Escrito por: Pedro Furtado, Guilherme Quintella e Duda de Almeida // Dirigido por: Kondzilla

Eu acho Sintonia genial — e se você me acompanhar nos próximos parágrafos, eu explico o porquê.
O núcleo da série não é o núcleo pobre da novela, aquele que ocupa alguns minutos por capítulo e está ali pelo alívio cômico. A favela não tem parte aqui, é o todo. Somos deslocados para a periferia de São Paulo (no caso dos que são de fora) para que ela conte suas histórias e seus dramas. Isso mostra a Netflix ligada no fenômeno que se tornou o produtor Kondzilla no YouTube e preparada para consertar um dos maiores erros da própria plataforma: a gente não se vê. Tudo bem que aquela escola britânica é engraçada, aquele grupo de crianças é divertido e aquela prisão feminina rende boas histórias, mas e as anedotas que nós, brasileiros, estamos prontos para contar? O streaming é, como diversos outros serviços, sustentado por boa parte de uma população carente não só em questão de recurso, mas de se ver, reconhecer seus dilemas bem apresentados na televisão. E temos tão boas histórias para contar!
Sintonia reconhece o fenômeno do funk e o coloca como uma das três tramas principais. Como um país que vende esse ritmo ao exterior, de modo que mesmo Madonna se rendeu a ele, não aborda em sua dramaturgia a extensão e alcance desse mundo? Há um potencial bem aproveitado aqui, quando a série reconhece os diversos impasses e possibilidades na indústria da música. Temos a busca por fama, o problema do plágio, as parcerias, enfim, nada parece ficar de fora.
A linguagem da produção é outro grande ponto positivo. Pode não ser original em trazer as gírias para a tevê, mas é no tratamento. Cifrando a comunicação para seu público-alvo sem se preocupar com o quanto o telespectador fora da bolha entenderá a mensagem, Sintonia abraça a própria proposta. Em outras produções, nós temos (por exemplo) policiais, pais ou núcleos adjacentes que não falam da mesma forma, que praticamente traduzem o modo de se portar para que entendamos a linguagem das personagens. Aqui, não. É preciso que o telespectador faça um esforço de entender pelo contexto, ir atrás dos significados ou, de repente, conversar com pessoas que estão mais próximas desse vocabulário. Não é exagero dizer que trabalhos acadêmicos podem sair daqui — comparando, por exemplo, o quão fiel foi o roteiro em retratar a periferia paulistana dessa forma. O resultado disso é que os brasileiros têm uma série somente para si: Sintonia só será aproveitada em seu conteúdo total por nós. A tradução não abraça as brincadeiras e piscadinhas da linguagem, não tem interesse nisso. Na olhada rápida que eu dei no inglês da série, usa-se o significado na tradução, não se busca equivalência. Desse modo, os falantes da língua inglesa entenderão a trama, mas não terão acesso à astúcia ou à qualidade lúdica dos diálogos. Vira um segredo nosso. Só nós faremos as correspondências sociais e regionais do léxico apresentado. (Um passo além do que Shameless da Showtime faz.)
E as personagens? Sintonia se sai bem no que diversas (diversas) séries norte-americanas se saem mal: as personagens são cativantes. Suas motivações são críveis e compramos seus princípios (mesmo que discordemos deles). Temos três pessoas com diversos sonhos, desejos, responsabilidades e problemas. São fiéis a si e valorizam a amizade, o que os coloca como três protagonistas dentro da história. Esta passeia por romances, mas aposta na relação entre os jovens como foco — e, na nossa rotina, a gente tem mais amigo que namoradinhos. Não sei como o universo das séries às vezes se distancia tanto disso. Sintonia também ameaça quebrar uma das regras principais dentro do roteiro, que é nos fazer sentir empatia por uma personagem. Logo no começo, uma delas comete um crime que quase desafia a audiência. Vai contra nossos princípios éticos e não tenta mascarar a situação: ele fez porque fez.
E os atores? Christian Malheiros disputou o Independent Spirit Awards e levou o APCA por Sócrates (Alexandre Moratto), filme lançado também em 2019. Acho que isso já diz tudo. Na série em questão, o ator sabe entregar cenas dramáticas como ninguém, sendo o grande destaque do elenco. Jottapê também tem um desempenho surpreendente — já que gosto de apontar cenas, tem uma em que o ator e cantor precisa chorar que é um dos grandes momentos em atuação da série, no qual ele consegue segurar a carga dramática exigida. Bruna Mascarenhas, por sua vez, injeta carisma em sua personagem e tem uma jornada crível, ao ir de um universo para outro.
(Mas, Welson, e o elenco secundário dessa série? Não vai falar sobre a atuação deles? Bom, se nós vamos mesmo falar de atuações desajeitadas em séries de tevê, eu topo pular algumas casas e falar de Henry Cavill em The Witcher, seus vinte anos na indústria e os três milhões de dólares ganhos na série.)
Pegaram a Cacau, primeiro episódio, apresenta-nos todas as qualidades mencionadas anteriormente. É uma boa introdução para esse mundo, seus protagonistas e os dilemas que enfrentarão em seguida. Se ao final dele você não estiver convencido, a sugestão é que passe para a próxima recomendação — e numa lista de cem, é improvável que nosso gosto não se encontre em algum ponto.
[País: Brasil // Idioma: português // Gênero: drama // Status: renovada para a segunda temporada // AP: n/a.]
39 – The Boys, 01×04: “The Female of the Species” (26/07/2019) [Amazon Video]
Escrito por: Craig RosenBerg // Dirigido por: Fred Troye

Acho The Boys, série da Amazon Videos que estreou em julho de 2019, um porre.
Acredito que ela faz de errado tudo o que Watchmen, lançada no final do ano, fez certo. Tudo. As personagens são chatas, as motivações são questionáveis, o casting é ruim, os conflitos são bobos, os antagonistas são tediosos e a figura do herói não consegue se manter interessante como autocrítica. No lugar de Regina King, temos Jack Quaid e Erin Moriarty — e não sei qual dos dois é mais apático. Enquanto na minissérie da HBO é um grande desafio escolher a personagem mais fascinante, aqui não dá para se importar menos com o destino delas — principalmente de Deep (Chace Crawford) e A-Train (Jessie T. Usher). Não os odeio ou os acho detestáveis; acho-os desinteressantes.
No começo, relevando a trama da garota do interior e a previsível saga de Hughie, temos um roteiro inteligente, com bastante potencial e certo grau de crueldade. Temos sangue, temos boas sequências e uma boa energia para dar início à jornada da série — o final do primeiro episódio é ótimo. Aos poucos, no entanto, minha vontade de saber o que aconteceria com essas pessoas foi ficando de lado. Não conseguia entender a cabeça de Billy Butcher (Karl Urban), e Frenchie (Tomer Capon) não tinha tempo de tela suficiente para me segurar empolgado na maratona. (Esses dois, inclusive, são as únicas personagens que eu gostei no enredo.) Homelander (Anthony Star) é patético. Queen Maeve (Dominique McElligott) sobra em boa parte do tempo. E assim, eu fui reservando em meu imaginário um lugar cada vez mais especial para Watchmen e deixando The Boys cada vez mais de lado.
“Assistiu errado. Assista de novo.” Eu sei, eu sei. Sempre há essa possibilidade. No entanto, trago a série aqui porque, assim como reconheço seu bom começo, reconheço bons momentos dentro da temporada. Entre eles, o quarto episódio. Este realça uma das únicas coisas que valoriza esta série em relação à da HBO: o humor. Humor negro é sempre bem-vindo em histórias de super-heróis, evitando que levemos absurdamente a sério histórias sobre pessoas de capa combatendo o crime, algo que, de alguma forma, soa estranho aos que não acompanham o gênero religiosamente.
Em The Female of the Species, quarto episódio, temos o grupo de anti-heróis encontrando, meio ao acaso, uma personagem que será muito importante no resto da temporada. Esse encontro é batizado com muito sangue e resulta em muita correria para eles. Enquanto isso, temos The Deep tentando resgatar um golfinho — e confesso que eu literalmente gritei nesta cena. Dá vontade de rir só de lembrar. Se o episódio inteiro não fosse bem dinâmico e contasse com um bom ritmo, eu diria que o coloquei por aqui só por conta da cena do avião. Descrevo: dois heróis aparecem em um avião que foi sequestrado e decidem ajudar as pessoas, que os recebem com aplausos. Fugindo da clássica leitura de cenas como essa, temos um desfecho absurdo para a trama que é de se aplaudir pela ousadia.
Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorre, duas outras personagens estão num encontro. O casal, que já é chato separado, ainda o é mais quando junto — além dos atores não terem química alguma. Nesse sentido, é justo dizer que a força de The Boys, quando brilha, é no nível de ação e comédia injetadas em seu enredo. Os dramas, o desenvolvimento das personagens e mesmo os diálogos não são lá tão envolventes. Com Harley Quinn, Watchmen e Legion, entre outras, com temporadas lançadas no mesmo ano, fica difícil não ir buscar heróis na concorrência.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês/espanhol // Gênero: drama // Status: renovada para a segunda temporada // AP: n/a.]
38 – The Handmaid’s Tale, 03×11: “Liars” (31/07/2019) [Hulu]
Escrito por: Yahlin Chang // Dirigido por: Deniz Gamze Ergüven

Esta talvez seja a última vez The Handmaid’s Tale aparece no nosso ranking de melhores do Série Maníacos. Assim como percorremos um longo (e assustador caminho) de 2017 para cá na vida real, o mesmo se deu com a série protagonizada por Elisabeth Moss. Fomos de uma sufocante e assustadora distopia que refletia os problemas do mundo e os vendia como distópico (algo que sempre foi genial) para uma série preguiçosa, que não sabe a hora de dispensar suas personagens (e elenco) e de avançar ou retroceder na própria ambição. A segunda temporada fez uma estranha coreografia de dois para frente e dois para trás com June, protagonista da série, um indício de que os roteiristas não saberiam manter por muito tempo a atmosfera que nos segurou aflitos na cadeira.
O original da Hulu ainda tem bons momentos, assim como todas as produções selecionadas para essa lista. O único problema é quanto tempo demoramos para chegar lá. No caso da terceira temporada, pelo menos na experiência desse resenhista, levamos dez episódios. Tivemos momentos interessantes, boas cenas aqui e ali, mas Liars é o primeiro episódio realmente bom dessa adaptação literária em 2019. O clímax que demorou para chegar, mas chega cumprindo a promessa de uma protagonista que conseguiu encontrar em si a força para manipular o mundo a seu redor e reagir.
June é uma testemunha de seu tempo e, ao colocar o público a seu lado em um quarto pequeno e de decoração indiferente, a série propõe que testemunhamos os horrores e a violência doméstica desse mundo. Depois de um tempo, no entanto, ficamos exaustos desse papel que nos é atribuído e não mais queremos terminar todos os episódios encarando os expressivos olhos de Moss, perguntando-nos onde está a fúria prometida desde o final da primeira temporada. Queremos uma revolução que tarda a chegar. Não acho que The Handmaid’s Tale tenha uma dinâmica insustentável, mas creio que as escolhas feitas deixaram a série assim. Conservar o mesmo elenco dos primeiros episódios, quando diversas personagens perderam a função e motivação inicial, é jogar fora um material tão rico e testar seu público.
Comento isso porque Liars nos oferece boas oportunidades nesse sentido. Temos o que seria a saída perfeita para Serena e Fred, personagens que sobram na série há certo tempo — principalmente ela. Os malabarismos que a terceira temporada faz para que June e seu ex-comandante mantenham um relacionamento não é coeso com as regras de conduta apresentadas anteriormente. Sua esposa, por sua vez, é jogada de um lado para outro no roteiro, trocando de aura como quem troca de vestimenta azul por outra azul: uma hora tem a função de antagonista, outra de salvadora e embaixadora de uma revolução profetizada, mas nunca (aparentemente) iniciada. Séries como Homeland, Mr Robot, Game of Thrones lá no começo e Breaking Bad tiveram tramas tão efetivas porque sabiam a hora de dispensar mesmo seu elenco principal. Aqui temos uma saída: o casal pagando pelas próprias escolhas. Além desse possível final, conhecemos outras famílias e configurações pelo caminho. Não gosto dessa expansão, não acho que caiba dentro da lógica da série, mas, caso ela seja feita e conheçamos o mundo ao redor, este é o caminho.
June tem boas conversas com Lawrence, essa figura de difícil compreensão — não sei se chamo de complexo ou confuso. Há um flerte com traição e cenas desesperadoras que nos fazem (nós e a protagonista) questionar o que fazer a seguir. Ela ainda se mete com a rede de comunicação que lhe ajudou na temporada anterior e bola um plano que, finalmente, ameaça desestruturar a paz do lugar. Não sei bem por que as marthas lhe dão tanto ouvido, mas algo ocorre. Tudo nos encaminha para um encontro à noite e desdobramentos inesperados vindo dele. Temos, de brinde, uma ótima e bonita cena envolvendo limpeza.
Teremos força para voltar à monotonia depois de um episódio como esse?
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: renovada para a quarta temporada // AP: #10]
37 – His Dark Materials, 01×06: “The Daemon-Cages” (08/12/2019) [HBO/BBC One]
Escrito por: Jack Thorne // Dirigido por: Euros Lyn

Vai mais uma adaptação literária aí? Chegamos à His Dark Materials e à complicada missão de falar sobre a nova versão da trilogia de Philip Pullman.
Na qualidade, podemos todos concordar que os oito episódios lançados a partir de novembro de 2019 fizeram uma boa temporada. Os protagonistas e antagonistas foram apresentados, o conflito foi bem explorado, tivemos boas atuações e sequências deslumbrantes. Mas os telespectadores (e alguns críticos) tiveram certa dificuldade em se sentir atraídos pela série. Tudo foi feito de modo correto, é uma boa adaptação, mas falta algo e não sabemos direito apontar o que é. Estávamos prontos para amar as aventuras de Lyra Belacqua, mas não saímos dos episódios apaixonados pela história ou mesmo pela personagem. A sensação era de apatia.
Talvez a resposta para isso esteja na observação de como os gêneros se configuram na série. Temos temáticas muito adultas para uma série puxada demais para o infantil, e temos ângulos infantis demais para um universo muito adulto. A própria série parece estar no catálogo errado quando oferece aos assinantes da HBO algo infanto-juvenil. Esse mundo fascinante adaptado dos livros parece nos provocar o desejo de que ele fosse explorado por outros olhos e conflitos, não os da menina que há de desempenhar um importante papel na história. Game of Thrones pode nos ter deixado acostumados demais com o cruel e o selvagem para que consigamos nos conectar à ingenuidade e ao senso de aventura infantis.
Sendo este o motivo ou não, é inegável que Materials tenha feito bons episódios. Para nossa lista, separei aquele que adapta o clímax do primeiro livro (A Bússola de Ouro no Brasil) e coloca sua heroína no limite do perigo. Confrontando de frente os vilões neste momento inicial, Lyra (Dafne Keen) começa a descobrir (ou a confirmar) qual o plano por trás do sumiço de crianças e o que os adultos responsáveis esperam alcançar. Tem os momentos de aventura que estávamos esperando, tem um bom uso de seu leque de personagens e tem sua protagonista provando sua sabedoria. Também é muito bonito e tem sequências cuja produção é impecável.
Adulta demais para o público infantil, infantil demais para o público adulto e alterada demais para os fãs mais apegados ao material original, His Dark Materials tem algo estranho mesmo em seus melhores momentos. Nesse episódio, por exemplo, a lógica por trás de algumas decisões das personagens parece questionável e a montagem final parece incompleta. Em seu retorno, a série poderá corrigir essa “sensação de oco” e acertar no que muitas séries de nossa lista erraram. Vale lembrar que muitas produções atualmente aclamadas não tiveram inícios tão fantásticos assim.
[País: Reino Unido, EUA // Idioma: inglês // Gênero: aventura // Status: renovada para a segunda temporada // AP: n/a.]
36 – War of the Worlds, 01×01: “Episode 1” (28/10/2019) [Canal+ / FOX]
Escrito por: Howard Overman // Dirigido por: Gilles Coulier

Continuemos com outra adaptação literária do segundo semestre. Ou quase.
Além da adaptação de Os Miseráveis (Victor Hugo) e Catch-22 (Joseph Heller) e His Dark Materials (Philip Pullman), outra história ganhou uma nova versão nas telinhas. Aliás, duas! A BBC e a FOX por coincidência (chamemos assim) lançaram séries exatamente no mesmo período: a primeira em três episódios e a segunda em oito. Por aqui, vamos falar sobre a segunda. Feita em uma parceria entre Estados Unidos e França, a história faz uma releitura do clássico de H. G. Wells e se passa na Europa atual quando cientistas descobrem que algo próximo à Terra está tentando se comunicar.
War of the Worlds é uma boa construção de tensão. Não por acaso ou de maneira acidental: a série se aproveita de uma “ideia do medo” que muitos dramas pegam emprestado do gênero do horror — The Handmaid’s Tale o faz. Refiro-me ao medo do desconhecido que tanto nos move e que influencia nossas interações com o mundo a nosso redor. Quase uma ironia que a história se passe na Europa, temos pessoas das mais diversas profissões e procedências lidando não com os limites desenhados pela lógica humana, mas com uma força maior, que está acima de todos eles. Não cabe, pelo menos no primeiro momento (e por isso separo esse episódio), os dramas rotineiros com os quais estamos acostumados. Quando não somente a sobrevivência de uma parcela da sociedade está ameaçada, mas a sociedade em si, é que entendemos (nós e as personagens) como nossos preconceitos são pequenos e desimportantes.
Partindo desse medo, a série vai brincando com suas personagens e com os telespectadores sobre o que não mostrar e o quanto devemos temer sobre esse mal que ainda não apareceu. Após uma breve apresentação das personagens, vemos uma tensão que vai escalando conforme os minutos avançam. Assim, passamos a conhecer essas pessoas que seguiremos pelos próximos episódios dentro do caos e baseado no que cada uma fará nesses momentos de pânico.
Há conflitos interessantes, decisões criativas e uma boa utilização da televisão como mídia para revisitar essa premissa. Tem aquela característica mencionada anteriormente da televisão amar histórias com caráter épico, de eventos gigantescos. War of the Worlds ganha pontos porque apresenta essa história que já conhecemos, já seguimos do começo ao fim e já lemos a respeito de uma maneira sua, com uma identidade própria e recorrendo ao seu próprio mundo. Ao final de Episode 1, estamos realmente interessados em descobrir o que ocorre com essas pessoas a seguir — e isso é um mérito que nem todas as séries conseguem alcançar.
[País: Estados Unidos e França // Idioma: inglês e francês // Gênero: drama, ficção científica // Status: segunda temporada em produção // AP: n/a.]
35 – Pose, 02×04: “Never Knew Love Like This Before” (09/07/2019) [FX]
Escrito por: Brad Falchuk e Our Lady J // Dirigido por: Tina Mabry

Em primeiro lugar na lista de 2018, Pose vem parar aqui porque algo estranho aconteceu nessa segunda temporada. Esta era uma das maratonas pela qual eu estava mais ansioso, mas que me deixou meio confuso com os rumos da série — e decepcionado com quase todas as escolhas do roteiro. Diferente de The Boys, há personagens carismáticas aqui para emprestar a outros seriados — comparem uma cena de jantar da família de Blanca com uma reunião lá na cúpula do Homelander.
Diferente de The Handmaid’s Tale, porém, não acho irritante a ponto de abandonar e voltar semanas depois.
Pose acertou em alguns pontos nesse retorno. Evan Peters não retornou, por exemplo. Em compensação, a trajetória da maioria das personagens se tornou confusa. Quase voltamos para a dinâmica e a rivalidade da primeira temporada, quando brigas sem sentido tornaram as personagens um espelho do que eram antes. Tivemos momentos musicais bonitos, mas outros que soavam quase de mau gosto — em relação ao contexto, à maquiagem dos figurantes ou à própria ideia em si. Envolvemo-nos em brigas de casais adolescentes demais ao lado de temas tão sérios, e testemunhamos o começo de relações… Estranhas? Era quase como assistir a Glee fazer todo mundo se envolver com todo mundo sem grandes motivações por perto. E por que cito a dramédia musical? Porque creio que o fato de ser a segunda temporada de uma série do Ryan Murphy explique muita coisa.
As tais decisões equivocadas ecoam neste que eu separei como o melhor episódio da temporada. Ele envolve uma personagem secundária que é trazida para o foco e explorada com mais atenção. Minha pergunta é: POR QUÊ???. Foram tocar logo em uma das mais divertidas personagens do elenco secundário. Isso teve o efeito esperado, pois acabamos entristecidos com o que ocorre, mas é um tiro no próprio pé, uma vez que ela oferecia algo muito único na interação entre as personagens da série. Sublinhando isso antes de continuar, temos uma sequência de cenas bonitas, sensíveis e que mergulham o telespectador em uma realidade ainda não superada.
Com músicas, diálogos delicados e certo humor, Never Knew Love Like This Before se ajusta bem ao tema que deseja cobrir. Fala sobre violência no limite em que não se apropria totalmente da vítima e a esquece dentro da mensagem. É respeitoso dentro do que séries do Ryan Murphy conseguem ser. É um episódio que nos lembra a força que Blanca é, seu instinto materno e como a série é dependente dele. Dá para traçar um paralelo com Rupaul’s Drag Race e realçar a necessidade de não termos só conflitos e intrigas sustentando relações e enredos, mas momentos que nos lembram da necessidade de sermos caridosos e gentis com nossos companheiros de comunidade. Cenas de mesas virando e todo mundo brigando com todo mundo são até divertidas, mas se você pode escolher carinho ao fim do dia, escolha carinho.
Mesmo nessa atmosfera de união diante do “problema”, Pose não escolhe o caminho mais fácil. Um fato é um fato, e a série o encara dessa forma. Então, os sentimentos indesejados aparecem: ressentimento, culpa e desamparo. É honesto não deixar esses momentos de fora porque cria um senso de urgência para as personagens e para os telespectadores sobre se importar, agir e preferir o respeito acima de tudo. Não endereça de maneira (tão) correta a relação entre Pray Tell (Billy Porter) e a personagem em questão, mas isso é muito mínimo perto de tudo que o episódio fez certo.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: renovada para a terceira temporada // AP: #1.]
34 – Harley Quinn, 01×04: “Finding Mr. Right” (20/12/2019) [DC Universe]
Escrito por: Jess Dweck // Dirigido por: Juan Meza-Leon

Voltamos ao universo dos heróis e às animações.
No primeiro exemplo do gênero de hoje, temos uma figura presente no cinema este ano e que fez o barulho que era possível fazer antes do próprio cinema se tornar uma impossibilidade. Não mais na responsabilidade de Margot Robbie, Harley Quinn chegou ao DC Universe na voz de Kaley Cuoco. E aqui a recomendação é para aqueles que são inteirados na história da personagem, mas também para aqueles que não a conhecem. A animação se sustenta sozinha, é de fácil compreensão mesmo aos novatos e não depende de pesquisas para interessar seu telespectador. Variando entre momentos melancólicos, de introspecção e momentos alegres, com a energia que esperamos em histórias clássicas de heróis.
Talvez este seja o ponto que individualiza Harley Quinn diante das outras animações citadas por aqui: sua energia. Lembra vagamente algumas facetas de animas mencionados nessa lista, mas aposta em um discurso que não caberia em outras produções. Tem um texto que fala sobre amor tóxico e emancipação, temas em alta, mas que parecem citados aqui não porque o mundo precisa debater estes assuntos, mas porque a própria Harley tem uma carência de aprender sobre eles.
Na trama da temporada, temos a conhecida história da personagem sendo deixada para trás por um Coringa que não está lá tão interessado em corresponder seu amor — ou demonstrar um mínimo interesse. Presa pelos crimes que a dupla cometeu, ela planeja formas de chamar a atenção do amado e estar de novo com ele. A partir disso, e com a ajuda de uma amiga, nossa protagonista vai se desligando da ideia de que ela e o tal vilão ficarão juntos e de que ele, em algum momento, a amou. Parece deprimente? A série o é em muitos momentos, mas na dose correta.
Nessa primeira empreitada de Arlequina pelo serviço de streaming, temos de tudo. As peripécias nos lembram o formato clássico da comédia enquanto os embates fazem alusão à ação de outros gêneros. Para nossa lista, separei o episódio mais engraçado desse seu ano de estreia. Em Finding Mr Right, a vilã percebe que a única forma de chamar a atenção de Coringa é chamando a atenção de seu maior alvo: Batman. Então, assim como seu ex-parceiro, ela sai pela cidade cometendo atrocidades para que o homem morcego apareça para impedi-la. Daí por diante, tudo vai dando muito errado e muito certo, e nós ganhamos uma divertida sequência nessa saga boba e encantadora da jovem Quinn.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: comédia? // Status: segunda temporada em exibição // AP: n/a.]
33 – Frontera Verde, 01×06: “The Seed” (19/08/2019) [Netflix]
Escrito por: Natalia Santa e Antón Goenechea // Dirigido por: Laura Mora Ortega

Algumas produções no audiovisual, nós achamos bonitas, mas não sabemos explicar direito o porquê. Conforme investimos na tarefa de falar sobre o tal programa ou o tal filme, acabamos descobrindo, entranhada nas cenas e sequências, a motivação para tal determinação. Um “estudo do belo”, chamemos. E não digo “belo” pensando na cinematografia elegante e na obsessão simétrica na qual tantos diretores investem. O belo está mais para a forma como algumas coisas são retratadas, como o texto é elaborado e entregue ou mesmo sobre os temas.
Eu diria que há algo quase religioso a respeito de se maratonar Frontera Verde. Isso porque os que conseguirem entrar na atmosfera da série que, confesso, exige um compromisso com seu ritmo, podem se perceber sensibilizados por crenças e mitologias que não necessariamente correspondem às suas. Saímos da minissérie pensando na grandeza e beleza da natureza, em como as florestas são universos vivos que devem ser respeitados e como poderíamos ter uma rica troca de conhecimento entre sociedades se a ambição não falasse sempre mais alto. Mesmo sendo uma história de mistério, há um papo sobre a vida, mas não no sentido mais rotineiro e genérico que o audiovisual está acostumado — a sensibilidade de Frontera está em outro lugar.
Em resumo, uma detetive é enviada para investigar uma série de assassinatos na Amazônia, na fronteira entre o Brasil e a Colômbia. Percebemos que há um jogo de poder e mentiras no local, onde planos maiores e misteriosos são elaborados. Há muito de sobrenatural nessa história, o que pode remeter a um realismo fantástico — a série não destoa para o horror em nenhum momento, mesmo tendo apoio do grotesco em alguns seguimentos. Temos, ainda, um senso de volta ao lar materno, de conhecimento do nosso interior através do lugar onde crescemos e quais significados isso tem oculto em nós.
Em The Seed, conhecemos mais de perto o passado e o destino da que pode ser minha personagem favorita do ano. Lá no começo, sabemos que uma mulher indígena foi assassinada. Trata-se de Ushe (Ángela Cano). No decorrer da minissérie, vamos conhecendo as pessoas que a cercavam e quem teria tido motivos para tocá-la. Nesse episódio, conhecemos sua história, suas decisões e a ligação espiritual entre ela e a mata, generosamente dividida com aqueles a seu redor. Ushe é fascinante e apaixonante, o que só dificulta encararmos seu destino e o que foi feito com seu corpo.
Se a minissérie como um todo é a prova de que podemos tirar (boas) histórias da floresta e cobrir um pouco de verde o vermelho da Netflix, dando-nos um descanso de só vermos prédios e prédios mesmo quando decidimos sentar para assistir algo, esse episódio é o ponto alto da proposta. É respeitoso. É criativo. É belo.
[País: Colômbia // Idioma: espanhol, witoto e português // Gênero: mistério // Status: finalizada // AP: n/a.]
32 – Filhos da Pátria, 02×01: “O Cocô do Cavalo de Getúlio” (08/10//2019) [Globo]
Escrito por: Bruno Mazzeo, et al // Dirigido por: Henrique Sauer

Estando na fronteira entre o Brasil e a Colômbia na série anterior, passemos totalmente para cá. Precisamos falar sobre Filhos da Pátria. Eu basicamente recomendaria esta comédia porque é engraçada. Mas como não devo te deixar na mão citando apenas o fato de ter me feito rir (muito), vamos à série:
Lá no começo dessa conversa, eu disse que Sintonia tem uma riqueza em sua linguagem que somente os brasileiros poderão aproveitar. No caso de Filhos, a questão está no quanto a série reflete de nosso cenário contemporâneo em seu roteiro, nas piscadas que dá ao brasileiro que a assiste. Naquele estilo que às vezes isola algumas comédias norte-americanas somente aos estadunidenses, sabe? Na receita vão referências ao nosso cenário político e a nosso comportamento atual que deixariam qualquer estrangeiro confuso, independente da qualidade da legenda. Parte da graça, então, está em desvendar as piadas e perceber como elas cabem perfeitamente no enredo. Não por nada: o elenco faz um grande esforço para parecer sem esforço — a arte do timing cômico.
Nas duas temporadas, acompanhamos o dia a dia de uma família envolvida, mesmo que minimamente, nos conflitos e intrigas políticos do país. Lá em 2017, a série focou em 1822 e nas tribulações do período. Em seu retorno, mudamos o ano e fomos para 1930 num quase reboot com os mesmos atores e personagens. Sobre o enredo em si, é quase como se estivéssemos assistindo algum bom humorista nosso refletindo sobre a época de forma bem imaginativa, abordando o que uma família “comum” poderia ter passado. Sem deixar, é claro, de cutucar o presente e fazer uma comparação entre nossos erros de agora e nossos erros de sempre.
O ótimo primeiro episódio dessa segunda temporada nos lembra o primeiro da anterior — quando a família se vê em meio ao caos de uma mudança abrupta no país. Acredito, no entanto, que a série se sai melhor nessa segunda tentativa e nesse segundo período. Enquanto antes tínhamos decisões questionáveis, beirando ao mau gosto, agora há uma liberdade maior para explorar seu elenco e suas personagens sem que pensemos que alguns temas delicados estão sendo romantizados. Ah, Fernanda Torres nos mostra novamente como é perfeita na comédia — depois de nos lembrar, também, como é perfeita no drama ao dar uma passada em Sob Pressão. Alexandre Nero e Matheus Nachtergaele também estão ótimos.
Se brasileiro faz piada de tudo, talvez a televisão nos prove que a sátira, ao lado do melodrama, é um gênero muito nosso.
[País: Brasil // Idioma: português // Gênero: comédia // Status: desconhecido // AP: n/a.]
31 – Os Simpsons, 31×08: “Thanksgiving of Horror” (24/11/2019) [FOX]
Escrito por: Rob Oliver // Dirigido por: Dan Vebber

Para a lista de melhores episódios do ano que passou, dessa vez, decidi separar alguns episódios de Os Simpsons para assistir e encaixar a série em nossa conversa, fazendo uma homenagem à animação. Talvez todas as pessoas tocando os trinta por agora tenham a série norte-americana ecoando em algum momento de sua infância, e mesmo o som da abertura as lembre de um passado décadas para trás.
Mas Os Simpsons não está aqui pela nostalgia. Trinta temporadas depois, a animação ainda rende bons e divertidos episódios, parodiando e tirando sarro de seu país e do mundo. Ainda polêmica, a animação continua comprando brigas de forma gratuita num desejo bobo de ser desagradável. Bobo porque não precisa se utilizar de controvérsias para nos fazer rir ou para criar episódios criativos. Isso porque, trinta e um anos depois, é difícil dizer a um fenômeno tão gigante e tão estável que ele precisa seguir novas regras e que mesmo ele não tem a licença dos anos noventa para movimentar seus roteiros. Mas somos implacáveis, e mesmo esse gigante, criatura apegada ao nosso imaginário infantil, precisa parar para ouvir.
Thanksgiving of Horror é uma prova da genialidade da série. Reúne tudo aquilo que a tornou famosa: acena para outras produções, cria realidades alternativas, brinca com a personalidade de suas personagens e homenageia a própria história, uma vez que é muito conhecida por seus episódios de horror. Tendo este segundo momento da temática na temporada, depois do clássico episódio de Halloween exibido em outubro, Os Simpsons mergulha seu universo em três contos de horror que envolvem, de maneira direta ou não, o Dia de Ação de Graças. Seguindo essa proposta, temos a família transformada em perus, conhecemos robôs perigosos e fazemos viagens espaciais, compondo, dessa forma, uma trilogia completa que dá ao feriado seu começo, meio e fim.
Das paródias, temos Black Mirror reconhecível de primeira. Não sei se qualquer série que faz paródias deixou de lado algo envolvendo a produção britânica — é quase essencial. Os filmes Apocalypto e Alien nos esperam nos outros seguimentos. O desenvolvimento das histórias se aproveita do macabro e da estranheza que o gênero do horror tem em si. Como é um mundo alternativo, a animação opera em sua conhecida configuração de episódios assim: sai matando todo mundo e fazendo piada de tudo. Equilibra bem sequências bizarras e engraçadas, explorando o que diversas séries anteriores não possuem para sustentar suas tramas: boas e carismáticas personagens.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: renovada para a 32ª temporada // AP: ausente.]
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Chegamos ao fim da segunda parte do segundo semestre. Nos próximos dias, volto com mais dez séries que compõe os 100 melhores episódios de 2019. Agora passo a bola para vocês e estou especialmente interessado no que acharam de Pose e The Boys. Alguma está no seu TOP10 do ano passado? Você gosta das personagens de The Boys? Acha a segunda temporada de Pose tão boa quanto a primeira?
As capas desses rankings são do André Zuil, que generosamente aceitou participar novamente este ano.






















