O risco, agora, é alto em Orphan Black.
Se algo faltava a Orphan Black no início dessa temporada e mesmo nos anos anteriores da série era a sensação de perigo, o de perda do controle da situação. A trama de Graeme Manson carecia daqueles momentos em que nada poderia ser feito além de aceitar. Por quase quatro anos, Orphan Black se desvencilhou do inevitável: o luto.
Perder alguém ou perder no simples sentido de derrota é algo por que, cedo ou tarde, todos vão passar. Não adianta pensar no Paul. Ninguém tão significativo deixou a série antes, tanto no contexto geral quanto para alguns personagens isolados. A morte da Kendall afetou a todos e a trama em si numa escala muito grande. Enquanto a saída do Paul só afetou diretamente a Sarah, a própria nem se deixou abalar tanto pelo fim do ex. Para a série, então, Kendall ser assassinada tem muito mais significado do que o ocorrido com Paul.
O impacto dos eventos mostrados em The Scandal of Altruism são claros em ambos os episódios desta review. A sétima parte dessa temporada focou no luto e em como as personagens lidavam com a derrota, que muito indicava a ruína do clone club. Quando as motivações indicavam que o peso maior do luto cairia sobre a Sarah e Cosima, mas até mesmo a Alison cai no choro é por que a situação não está fácil.
É lógico quando se pensa que a os minutos de quase todas as personagens de Tatiana Maslany estão contados. A mãezona da família Hendrix pode muito bem ter sido egoísta e pensado apenas em como as crianças vão sentir falta dela, já que a doença uma hora irá aparecer para ela também. Entretanto, prefiro acreditar que ela também pensou na Cosima e na Helena.
Por outro lado, o fato é que as proporções foram maiores para a suposta “líder” do clone clube e para a bióloga. A primeira sempre tomou para si as responsabilidades e o risco. A sensação de fracasso era visível, o que nos levou a ver o quanto os passos da Sarah muito se assemelhavam aos de Beth. E de modo sutil, Orphan Black mostrou que o diferencial entre as duas era o de que a britânica não trabalhava sozinha. E a necessidade de manter as crias do Projeto LEDA unidas, com alguém para tomar as rédeas da situação, foi o que manteve Sarah viva.
Reação mais natural a da moça, diante de todo o “fracasso”, seria impossível. A relação sempre conturbada com Siobhan e sua própria personalidade impulsiva garantiram que a mãe da Kira fosse afogar as mágoas no sexo, drogas e festas. Com direito a beijo lésbico e fantasminha da falecida, nos entregaram as frustrações de Sarah numa bandeja.
Ainda seguindo com as reações mais apropriadas o possível, Cosima tem uma barra bem mais pesada a enfrentar. Vejam só, além de lidar com a morte da Kendall, ela tinha que lidar com a iminência da própria morte e a suposta partida do amor da sua vida. Dá pra dizer que querer colocar o implante em si mesma, numa medida arriscada para tentar desvendar uma cura para as irmãs, é até leve.
Mais uma vez, os roteiristas entregaram desenvolvimentos muito coerentes para suas personagens. Sempre foi senso comum para os fãs de que Tatiana é a grande responsável por diferenciar com maestria todas as personas que passam por suas mãos. Todavia, a verdade é que a equipe criativa da série já entrega um material e um texto primoroso no que se diz respeito a criação de personagens. É de emocionar ver como as atitudes e reações de cada clone é milimetricamente pensado para condizer com sua construção.
Já ficou estabelecido que The Antisocialism of Sex foi um episódio sobre luto, mas ainda houve espaço para revelações e reviravoltas. Ambas vinham sendo plantadas desde o início. A primeira é óbia até porque não haveria necessidade de fazer um mistério enorme em torno do paradeiro da Delphine. Ela pode estar morta? Sim, claro. Mas a questão é que a dúvida pode salvar uma vida. E como foi o caso, graças a Krystal (cuja presença seria muito bem-vinda nesses dois episódios), o Felix pode convencer a Cosima a não fazer besteira.
Como não poderia ser perfeito, foi muito feio segurarem essa revelação até quase o fim do episódio. Como é que o Feliz simplesmente esqueceu de falar? Senti vergonha, foi forçado, mas não teria drama se não fosse do outro jeito. Porém, sério, como é que dá pra esquecer de falar que alguém não morreu? Isso é muito sério, gente.
Partindo para a segunda reviravolta do sétimo episódio, Duko veio bater o martelo na sua condição de filho da p***. Olha, os minutos finais foram intensos. Só que não tinha como ser de outra forma. O que é mais tenso do que acabar com festa de criança? Prender o pai da aniversariante! Eu juro que segurei minha respiração durante toda a sequência e ficava alternando com pensamentos de que aquilo não passava de uma brincadeira.
Não tem como não pensar em como tudo teria sido diferente se nossa Helena estivesse presente. E se essa cena já estava prevista há muito tempo, fizeram muito bem em tirar a sestra de jogo, pois a coisa ia ficar feia. Ia ter criancinha tomando banho de sangue de policial, sim. Por mais que sua ausência seja plausível, Helena faz muita falta. Daqui a pouco até o Tony reaparece, a Katja Obinger renasce das cinzas e a Helena não volta.
De certa forma, foi o Art que levou as coisas ao ponto visto no aniversário da Gemma. Dar uma surra no cara que já declaradamente ameaçou expor todos os erros dele e do clone club não foi nada esperto. Todos provavelmente amaram, como eu, ver sangue escorrendo das narinas do desgraçado do Duko, mas as consequências disso vieram mais cedo do que esperado. Uma hora ou outra, o detetive ia utilizar o que sabe do Art e dos Hendrixes, mas um orgulho ferido certamente deu um empurrãozinho.
Se você está entendendo tudo o que está acontecendo em Orphan Black, é porque tem alguma coisa errada. Foi provavelmente pensando nisso que os roteiristas decidiram trazer a Rachel de volta e inserir uma trama bizarra. Suas aparições foram pontuais no que se referia à tomada da Neolution pela Evie Cho. No entanto, aquele cisne, ganso ou o que for aparecendo como um erro no olho dela é uma das maiores bizarrices da série. E pra contribuir em nada, o episódio seguinte só mostra a moça vendo mais coisa bizarra. Não tenho ideia alguma do que são essas visões. Se não fosse por tantos outros plots mais importantes, eu teria ficado mais curioso.
Também foi hora da Mika reaparecer. Com uma leve participação ao fim do episódio, achei que ela teria uma trama particular com a Kira. Seria inusitado e foi bem mais curioso do que o ganso do olho da Rachel, na verdade. Mas, para frustração maior de todos, era apenas a hacker tentando falar com a Sarah. Como o esperado desde sua primeira aparição, MK é de grande ajuda para as meninas do LEDA. Mas, como todo clone que aparentemente tem uma função eficaz no club, está fadada a morrer. Não é curioso que as mais intelectuais sejam as primeiras a apresentar os sintomas da doença genética?
Dando continuidade quase que direta, The Redesign of Natural Objects tratou de finalizar a questão do luto mesclando bem com a necessidade de abordar a resolução dos conflitos entre Duko e a família Hendrix. Com um atraso de um episódio, Siobhan tomou a coragem de fazer a nossa vontade e tentar dar o sumiço no detetive corrupto. Mesmo com a demora, era esperado que essa fosse ser a atitude a ser tomada por S.
A novidade ficou mesmo por conta do plot da Alison, lidando com a ida de Donnie à prisão. Como de costume, os dois acabam muitas vezes sendo o ponto alto dos episódios. A questão é que dessa vez houve um toque dramático na abordagem geralmente cômica que os Hendrixes têm. De um lado, um Donnie desesperado pela própria vida e do outro, a Alison soltando a voz num musical religioso. É ou não é pra amar?
Acredito que nunca aconteceu antes de o clone club duvidar da fidelidade de uma das integrantes originais. Situação compreensível, mas complicada, a que Alison estava. Prezar pelo marido ou pelas irmãs (família x família)? Não que tenha sido legal que desconfiassem da Hendrix, mas que ver nas mãos da Alison uma decisão tão importante foi algo novo para a série, isso foi.
Esse plot rendeu umas das cenas mais bacanas da temporada, na sempre bem realizada mistura de tensão e humor. Os cortes entre o musical, o espancamento na prisão e o jogo de gato e rato com Duko foi de fazer o coração sair pela boca. Eles ainda seguraram o fato de que Alison estava passando a perna no inimigo, pra tudo ser coroado com o momento de epifania no musical. Foi lindo, foi divertido e foi emocionante. Não sabia se ria ou se chorava.
Na parte científica da série, uma luz no fim do túnel. Todos entendem muito bem o sentimento da Sarah ao ouvir de Cosima que vão fecundar os óvulos dela com o sêmen de CASTOR. Ao menos, esses malditos serviram (ou vão servir) de alguma coisa na série. O que é assustador, na verdade, é que a ideia da Cosima fez TODO o sentido e, realmente, soou plausível que isso não teria sido pensado antes. Em se tratando de ficção científica, a gente só balança a cabeça e concorda porque não entende nada mesmo, mas agora foi diferente. Entretanto, como eu disse lá em cima, se tudo parece fazer sentido é porque tem alguma coisa errada.
Pode não ser opinião geral, mas particularmente considero essa 4ª temporada como uma obra incrível, perdendo apenas para a 1ª temporada. Foram mais dois bons episódios, com revelações, reviravoltas, drama, comédia e tensão. A série pode parecer ter perdido o fôlego, mas isso só se deve ao fato de que o sexto episódio foi muito acima da média.
Pra quem não é fã de episódios de luto como eu, esses dois fogem (um pouco) das abordagens batidas desse tipo de temática. Isso graças ao bom equilíbrio com que as informações flutuam nessa série. Quando outras séries parecem parar para se despedir de uma personagem, Orphan Black não se dá esse luxo, tendo a consciência de que restam apenas duas semanas para concluir esse arco.
The Redesign of Natural Objects começa a traçar o caminho para a finale, com o peso de um bom desenvolvimento, enquanto o seu antecessor fechava algumas pontas soltas. O terreno está quase pronto para encerrar o possível penúltimo ano de Orphan Black e a sensação de que a trama está mesmo indo em direção a um desfecho já deixa um aperto no coração.














