Não tem jeito. A corda sempre arrebenta do lado mais fraco.

Pela primeira vez nesta temporada, me vejo obrigado a abrir uma exceção no ótimo Don’t Make Me Come Back There (“Não me faça ir aí!”). Não porque os flashbacks de Aleida não tenham sido interessantes – e até necessários, eu diria -, mas sim porque existiu uma trama muito mais importante e cativante do que a dela neste episódio. E a dona desse arco atende pelo nome de Sophia.

Foi muito bacana ver Orange Is The New Black finalmente se abrindo para explorar a importante questão da transfobia. A homossexualidade é abordada com extrema frequência, de maneira muito correta e bem sucedida, mas, com uma personagem do calibre de Sophia e uma atriz em evidência como Laverne Cox à disposição, estava difícil entender por que não estávamos mergulhando mais fundo no mundo das pessoas transexuais.

E não poderíamos acreditar que Sophia seria tratada com manadas de unicórnios vomitando arco-íris. Como sempre, Orange Is The New Black esbanja realismo e mostra por que a luta de muitos em nome da causa LGBTTT (geralmente uso um T só na sigla para, em termos práticos, representar travestis, transexuais e transgêneros, mas aqui vale explicitar que estamos falando de minorias que não apenas são muito diferentes dos gays como também muito distintas entre si) ainda é extremamente necessária – e, ao mesmo tempo, desprezada – nos nossos dias.

Sophia estava errada em sua briga com Gloria e deixou o orgulho falar mais alto? Sim! Mas isso jamais poderia justificar toda uma rebelião transfóbica estimulada por ninguém menos que Aleida (e por isso faz muito sentido que Aleida seja a personagem central no episódio em que essa história toda explode), e jamais poderia justificar qualquer tipo de agressão. O curioso é que, a rigor, todos nós concordamos com isso – até a mula do Bolsonaro vai dizer que concorda que não se pode espancar transexuais! Mas o que a maioria das pessoas não capta é que a maioria dos que acham errado espancar são cúmplices diretos de atos de violência como o que houve com Sophia.

Vejamos a própria Aleida, por exemplo: tudo o que ela fez foi “expressar a opinião dela”, certo? Então, por que haveríamos de “censurar” e de impedir que ela “exerça sua liberdade de expressão”? Porque é justamente a liberdade de expressão de Aleida que faz pessoas serem espancadas, torturadas, mortas. Aleida fez, sim, o papel de agressora de Sophia, e agressora física. Não é porque a série muito sabiamente coloca umas whos para fazer o serviço sujo que as personagens que conhecemos – Taystee, que evitou fazer o cabelo com Sophia, por exemplo, dando força à onda transfóbica – deixam de ser responsáveis pela agressão.

Sophia, que não é nada boba, foi ameaçar Caputo e mostrar que estava pronta para a guerra. Uma guerra que ela, coitada, estava fadada a perder. Sozinha numa prisão só com pessoas cuja identidade de gênero segue a convenção social e é culturalmente dominante, Sophia não tem outro papel a exercer a não ser o de oprimida – uma oprimida lutadora, mas uma oprimida. Isso pode mudar a partir do momento em que forças externas atuarem a seu favor, já que a união entre cada segmento, cada letrinha da sigla LGBTTT foi responsável por mudanças significativas na nossa sociedade e já contamos com um Danny que, ainda que de mãos atadas, é humano suficiente para tentar interceder por Sophia. O próprio Caputo não era avesso à causa. Nós sabemos que ele concordava com a trans, que ele próprio já havia exigido treinamentos aos policiais que haviam sido recusados. Mas, na posição de chefia, ele não pode se dar ao luxo de verbalizar que está tudo errado e perder o controle.

Os mais ingênuos ou de mais má fé podem considerar, portanto, que as ameaças de Sophia de ir à imprensa e a exigência de demissão e treinamento foram demandas excessivas – “privilégios”, até – e foi ela própria quem trouxe para si a solitária como destino. Mas não é verdade. Sophia lutou como sabia, reagiu como pôde diante de um sistema que a marginaliza. Fez o que sentiu que era necessário para garantir a própria segurança daquele momento em diante. E jamais será errado ceder ao instinto de autopreservação como ela fez.

É possível que apareça alguma mulher transexual nos comentários dizendo que eu não faço ideia do que elas sofrem. E, se acontecer, ela estará certíssima. É nesse sentido que vai o belíssimo diálogo entre Sophia e a doce irmã Ingalls – que resistiu ao instinto inicial de usar sua religião para condenar e fez o que deveria: usá-la para abraçar e acolher Sophia. Não há como não se emocionar ao ver a trans constatando que ela não era uma das garotas, ela não fazia parte daquilo. A sensação de inclusão é ilusória e extremamente frágil. Em algum momento, alguém pode usar as diferenças para marginalizá-la novamente e arrancar essa sensação de pertencimento. O mais triste do progresso é que ele pode ser desfeito. Uma fruta podre, um discurso inflamado, um deputado mais influente, isso tudo pode mudar o que foi conquistado, e, se já não temos hoje na prática uma garantia do direito às trans de mudar o próprio RG, é complicado se dar ao luxo de perder mais progresso.

A verdade é que, sabendo ou não o que as trans passam, cabe a todos impedir que as Aleidas do mundo real “exerçam a sua liberdade de expressão” para colocar hematomas nos rostos das Sophias e levá-las para as solitárias da vida, onde fiquem marginalizadas, invisíveis, sem perturbar a “ordem natural das coisas”.

Falando em Aleida, é importante comentar os flashbacks da personagem, que finalmente conseguiu nos mostrar que é uma mãe e, como tal, sente amor pela filha. Um amor torto, é verdade, um amor ciumento, doentio e que coloca a própria ambição e o próprio ego acima de tudo. Mas ainda um amor. Conhecer melhor Aleida ainda nesta temporada era importante porque a personagem estava completamente unidimensional em sua vilania, e agora ganhou profundidade, passou a ser menos linear.

Particularmente, me comovi com as lágrimas de Aleida, preocupada com a filha. Ela mereceu ser rejeitada, sem dúvida, mas, no fim das contas, ela também é gente. Mais importante, ela também é mãe. E, ainda que tenha que ser levada a circunstâncias extremas para cair na real, ela também é capaz de pensar no bem da filha e de impedir que ela se separe da sua cria. De uma maneira torta, mentindo loucamente, porque uma vez Aleida, sempre Aleida, mas ao menos com boas intenções. E isso nós definitivamente podemos chamar de progresso.

Quem também mostrou um belíssimo lado no episódio foi nossa querida Pennsatucky, que segue ganhando espaço em razão dos desdobramentos do episódio nela centrado. Eu, que sou um grande entusiasta de uma Revenge muito bem aplicada, precisei tirar o chapéu para o roteiro e para o lindo texto envolvendo toda essa trama de múltiplos episódios. Quando Big Boo anunciou o tipo de vingança que pretendia, algo já soava errado desde o início. Pareceu literal demais, e difícil demais de executar. Mas, ainda assim, fiquei ansioso para ver Donuts acordando e percebendo que foi ferrado, ou melhor, madeirado.

E o resultado final dessa história poderia ter sido extremamente anticlimático, não fosse por duas coisas. Primeiro, o divertidíssimo humor que a parceria entre Big Boo e Pennsy proporcionam, que finalmente pôde ser utilizado novamente após a nuvem negra da discussão sobre estupro e prostituição ser dissipada. Ver as duas planejando e executando a vingança de maneira meio atrapalhada foi bem divertido. Mas, novamente, a sensibilidade do roteiro à questão do estupro foi o que falou mais alto, e foi muito tocante ver Pennsy vocalizando seus reais sentimentos. Não havia raiva, não havia sede de vingança. Havia apenas tristeza. Doeu ouvi-la dizer isso, mas fiquei muito orgulhoso da maneira como a série tratou de todo esse assunto. Simplesmente maravilhoso!

Depois desse ótimo episódio, o que me resta de expectativa para o season finale está basicamente em torno de Sophia – e principalmente, de Gloria. A série vem nos preparando com algumas cenas que mostram que a latina sente empatia pela rival, e eu gostaria de vê-la tentando ajudá-la de alguma forma, ainda que eu saiba que a situação há muito já saiu das mãos dela. Eu acredito em Gloria, e a vejo como a única que se envolveu nessa história toda sem ter em si sequer uma gota de preconceito. Fica a torcida para que haja essa oportunidade de redenção e de restauração da relação das duas.

Observações:

– Depois de errar feio achando que Nicky e Bennett estariam de volta ainda nesta temporada, confesso que o suposto suicídio de Soso me assustou. Mas não, ela não morreu… né, gente?

– Finalmente a série decidiu tratar Taystee como ela merece. Depois do episódio 2×02, o desenvolvimento da personagem veio ladeira abaixo, e vê-la arrependida de flertar com a transfobia (que nunca deveria ter acontecido) era o mínimo que deveria ser feito. Além disso, a pequena trama em que ela percebe que é a “mãe” do grupo das negras é exatamente o que Taystee merece: algo leve, divertido e que pode render algo em médio e longo prazo.

– Mais de dois anos depois, eis que a magia de The Chickening foi explicada. Ok, o misticismo do episódio perdeu um pouco a graça, mas uma coisa é divertida de pensar: a confusão toda tem a ver com… Chang, cuja presença no chiquérrimo jantar de Red também me fez rir (mas o flerte com o insuportável do Healy quase me fez chorar! FUJA, RED, CORRA PARA AS MONTANHAS!!!).

– Eu-eu-eu… a Piper se… deu mal! Não consigo não achar muito bem feito ver Piper, depois de desprezar Alex, perdendo o novo affair antes mesmo de ele ter começado. Só espero que Stella vaze mesmo.

– Falando em Piper, o irmão e a cunhada começaram a ganhar importância na série, e eu não faço questão NENHUMA de vê-los. Não precisamos de novos Larry e Polly! Queremos ver as presas e ponto!

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.