Antes que você possa associar o título deste post com o atolamento do SBT em dívidas e a possível venda para qualquer pessoa com uma conta no Panamericano, te explico que não tem nada a ver com isso, e sim com o cancelamento de Rubicon na quinta retrasada e o jogo de cadeiras envolvendo Community.

Rubi-o-quê? É série nova do Chuck Lorre? Community? A do cara de The Soup? Verdade é que mesmo não tendo alcançado a dualidade povão médio/crítica especializada que Mad Men e 30 Rock conseguiram fazer quase que bem, o cancelamento inoportuno de Rubicon e a ponte do rio que cai que acompanha da comédia da NBC são carregados de um significado tão metafórico que merecem uma análise maior.

Mesmo que você acompanhe o mundo das séries há poucos anos já deve ter se deparado com algum comentário sobre o quanto o ano de 2004 foi um divisor de águas para a indústria. Eu, então com 14 anos tive a sorte de presenciar o nascimento e a histeria coletiva em torno de Lost e Desperate Housewives, duas das mais influentes séries da década. Não quero soar como aquela nossa tia trabalhada na degeneração gradativa que acha que nós ainda somos pequenos bebês e ficam presas a uma época, mas vivíamos em um tempo de ouro, onde não era preciso nem ter TV a cabo (nos EUA) para se acompanhar ótimas estréias. Nunca se criou tantas séries com fórmulas inventivas para um público cada vez mais exigente, e se prestar atenção reparará que até hoje séries como The Event e Cougar Town tentam (da maneira menos acertada possível) repetir o sucesso que marcou suas predecessoras, fator determinante em todo o desenrolar da história.

Com um olho grande maior do que Roman Polanski assistindo o clipe da Willow Smith, logo surgiu a busca pelo novo Lost e Desperate, em produtos cada vez mais megalomaníacos que não correspondiam em qualidade. J.J. Abrams viu seus shows posteriores afundarem mais rápido que a carreira pós-Buffy da Sarah Michelle Gellar, e nem precisamos nos lembrar do trem descarrilhado que foi Heroes. Não demoramos muito para ter uma análise dos supostos americanos entendidos de televisão, que considerando o gênero fantástico como saturado, deram um sinal de alerta para que os pilotos vindouros rumassem no caminho inverso. Nas palavras do nosso fantástico Paulo Antunes, esse fato se explicaria como “uma volta ao conservadorismo televisivo.”

Não é nem necessário reiterar que o motivo da falência de tais shows era, primariamente, não se basearem em bons roteiros, já que se você passasse um roteiro de Os Mutantes pro inglês e transformasse num episódio de Heroes eu aposto o meu dízimo evangélico que ninguém notaria a diferença. A decisão apressada da maioria dos executivos, porém, tinha em mente que o público iria rejeitar tudo aquilo que não retornasse ferrenhamente à base da televisão americana: procedurals e comédias. E é aí que temos o surgimento de programas como The Mentalist, The Good Wife, comédias sobre nerds hiperativos e casais acima do peso. Já a TV a cabo americana, nadando contra a maré, investiu sua produção em séries que pareciam na maioria das vezes desenvolvidas a partir de conceitos polêmicos (mãe traficante, serial killer, professor de química traficante E moribundo, vampiros hiper-sexualizados), mas que acabavam rendendo programas tão bem realizados que justificavam a saída de grandes atores de cinema para a televisão. Temos aí o joio se separando do trigo.

Na TV aberta, pilotos de drama cada vez menos inspiradores e séries que um dia já arrastaram multidões se tornando cada vez mais irrelevantes. Claro que há um outro lado da moeda, com um bloco de boas séries de comédias (que inclui o bloco das quintas da NBC, aliados a Modern Family e Glee) como não se via há muito tempo. Na TV a cabo, a AMC despontando como o maior canal de séries dramáticas da atualidade, enquanto a pretensão pela vontade de chocar do Showtime encontrava uma enfim merecida falta de atenção.

O que isso tudo tem a ver com Rubicon e Community? Eu te explico. Durante meus muito produtivos passeios pela minha timeline do twitter eu reparo em pessoas que dizem assistir 20, 25 episódios de diferentes séries por semana, torcendo pras novas estréias serem ruins para que não se viciem, e uma grande pulga fica atrás da minha orelha: que demônios de 25 séries diferentes uma pessoa pode assistir nos dias de hoje? Sério, conte comigo as opções aceitáveis:

  • Mad Men, Breaking Bad, Community, Modern Family, Glee (e olhe lá), 30 Rock, Sons of Anarchy, True Blood, Boardwalk Empire, The Walking Dead. E sendo paciente você ainda pode jogar algumas como Parks and Recreation, Fringe ou Chuck, sei lá, isso levando em conta que dificilmente a mesma pessoa gostaria de todas essas.

“Victor Regis está tão arrogante que quer me dizer o que assistir?”. Não, se eu tivesse o poder da persuasão não gastaria com um ato inútil assim, mas a dúvida que fica é: quando nos acostumamos a insistir tanto em programações meia boca? Porque consideramos normal e até cutezinho quando uma pessoa posta que no décimo-sexto episódio, Drop Dead Diva mostra melhoras em suas histórias?

Community, que é boa, mas é mais superestimada que jantar no Outback enfrenta agora o possível prego no caixão da série: uma disputa direta com American Idol, em um golpe que se estende até o Brasil, já que o @canalsony provavelmente realocará as quintas de humor para se adaptar à exibição ao vivo do reality musical.

E então temos a finada Rubicon, outra série boa, mas inexpressiva para os próprios padrões da AMC. Para mim estamos de frente para o nosso resultado final: a morte dos shows regulares. Você pode se perguntar por que eu me importo com Community e Rubicon, se não sou realmente fã de nenhuma das duas. O que mais pesa, em minha opinião, é o significado de suas quedas. 30 Rock e Mad Men tiveram o reconhecimento da crítica especializada e um número significativo de temporadas para satisfazer seus fãs, o que insere uma espécie de avaliação do oito ou oitenta. A série quer ser cult? Então precisa se bancar com prêmios. Os shows ruins, mas estritamente comerciais sempre resistirão, pela lei do lucro. Isso é fato, assim como os shows excepcionais. Meu medo é pelos apenas bons shows.

A quinta feira que trouxe o cancelamento de Rubicon também trouxe o término da dinâmica das séries iniciada lá em 2004. Foi despercebidamente o fim de um ciclo marcado por um início revolucionário, e nada mais irônico do que uma boa série inexpressiva ter culminado com um papel de tamanha importância. Prever o futuro televisivo seria dispor do mesmo embasamento teórico que um integrante de Jersey Shore em uma feira de ciências.  Constatar a atual situação da programação como uma sala vazia com uma televisão ligada é simplesmente um alarme válido.

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