Péssima segunda fase de Amor de Mãe reflete os problemas pós-pandemia. Porém, ela foi muito mais do que o que vimos em 23 capítulos.
Quando Amor de Mãe começou, ela foi eleita como uma “novela conceitual”. Essa eleição foi indireta, não partiu de quem a desenvolveu, mas do público da internet, que identificou logo de cara que aquela não era uma estética comum e nem uma abordagem dramatúrgica ordinária. Foi um choque, também, porque a novela anterior havia sido A Dona do Pedaço, em que o pastelão e a obviedade constituíam o DNA de seu autor. Manuela Dias, autora de Amor de Mãe, vinha de títulos como Justiça. Ela não estava no horário das 21 impunemente.
A abertura fria, escura, que pegou o mar do Rio de Janeiro e pintou de cinza, dava o tom. A maior parte da história se passava num bairro inspirado na São Cristóvão do centro do estado, com um viaduto seguindo as avenidas e deixando tudo ainda mais descolorido, cru, obscuro. A história também era desafiadora, cheia de conexões escondidas e com um texto inspirado, cheio de nuances. A novela tinha um planejamento, tinha um norte definido e apesar de um ou outro exagero narrativo que servia aos caprichos da autora, Amor de Mãe era esperta, inteligente e era novela. Tinha todos os elementos de uma novela, só que colocados na cena com mais apuro.
O fator carisma era muito importante e Manuela Dias fez escolhas acertadas. Adriana Esteves numa interpretação complexa de Thelma, desde o começo oscilando levemente entre o afeto e o controle; um grande acerto. Thais Araújo, contudo, foi novamente injustiçada no papel de uma protagonista do horário nobre e após resolvida sua questão com Sandro, não conseguiu mais retornar ao fio estrutural que a mantinha próxima das outras duas. Já Regina Casé, que desbunde. Lurdes talvez seja uma das mulheres mais incríveis e apaixonantes que a teledramaturgia já criou. Ela funcionava em qualquer lugar, em qualquer núcleo, dizendo qualquer coisa.
A busca por Domênico, enfim, era o que mantinha a novela no eixo. Isso também ajudava Lurdes a correr pelos capítulos com absoluta fluidez. Não importava o tropeço, desde que Maria Bethânia rasgasse as sequências em que aquela mãe maravilhosa sonhava em reencontrar o filho perdido. Era tão forte emocionalmente que Manuela chegou a causar um problema para si mesma, quando a química entre Sandro e Lurdes ficou maior do que o necessário para a história andar. O público nunca aceitou que Vitória fosse mãe dele, o que levou Thaís para mais um lugar de rejeição. Felizmente, a dramaturgia trabalha com sensações e contra isso não há “decisão” que seja soberana. Um autor pode morrer dizendo que a história precisa fluir para aquela direção. Se o público não quiser, ele não vai.
Por sorte, Manuela também tinha nas mãos esse gigante chamado Chay Suede. Ele sabia que cabia a ele (sobretudo na segunda fase, depois da descoberta de quem era Domênico) reverter esse jogo. Nas poucas cenas com Lurdes antes da paralisação, Chay investiu tudo em emoção; e acertou. A sombra do Sandro ainda era uma realidade (a própria Manuela, rendida, escrevendo uma cena em que a reação dele ao descobrir que Lurdes estava viva soava mais realista que a dos outros), mas Danilo alcançava a liderança a cada novo choro comovido, a cada novo minuto em que aquela mãe que ele amava se mostrava um ser humano do qual ele não se orgulharia. E então, prestes a chegar na parte mais importante do jogo, as luzes se apagaram.
Amor de Mãe?
As gravações da novela precisaram ser paralisadas pouco depois da grande virada que revelava Thelma como uma assassina disposta a tudo para não perder o filho. Ainda restavam mais de 50 capítulos pela frente. Os meses foram se passando e a realidade de que a pandemia não iria diminuir esbofeteou a equipe. Com a novela na reta final, não se poderia ficar esperando indefinidamente. A solução foi diminuir pela metade os capítulos restantes e mudar uma grande parte do desenvolvimento de alguns enredos. Indagada sobre isso numa entrevista, Manuela Dias me garantiu: “não precisei mudar nada que já não estivesse planejado”. O resultado na tela, contudo, contou uma outra história.
Vamos deixar claro, antes de tudo, que os problemas não estão nos destinos que os personagens receberam. Olhando panoramicamente, é possível entender cada uma das decisões da autora dentro de um contexto pandêmico. A novela foi terminada sem saber quando iria ao ar e por isso, a excessiva necessidade de retratar a violência acabou transmitindo uma ideia de mau gosto. O Jornal Nacional terminava e lá estava mais morte, mais Covid, tiros, sangue e uma negligência infeliz com personagens pretos e periféricos. Já Davi, o heroi branco do verde, levava um tiro na cabeça e sobrevivia.
A ideia central – o amor de mãe – revelava um escopo controverso a cada passo largo que Thelma dava na direção do crime. Sem tempo – e sem escolha – Manuela ligou o piloto automático e levou sua “vilã” do 8 para o 80 em escala recorde. Quem assistiu Justiça sabe que nem sempre a autora consegue acompanhar as batalhas que inicia. Na série, a mãe vivida por Debora Bloch tinha um caso tórrido com o assassino da própria filha (uma filha amadíssima, presente), numa virada estapafúrdia que privilegiava o choque e não a coerência. Isso sem falar em Jessica Ellen, que deveria ser a protagonista de uma história de racismo e acabou virando coadjuvante de mais uma branca privilegiada.
Onde estará o meu amor?
A pressa, aliás, foi a inimiga número 1. Contudo, apesar de sabermos que Manuela não tinha controle de tudo, ela tinha controle sobre uma coisa: o texto. As “resoluções de última hora” foram pipocando pelos capítulos com um vocabulário que a novela não tinha: o da obviedade e do didatismo. Para não abandonar enredos e cobrir o máximo de território, o texto foi indo do simplificado para o simplório, como se tudo que a cena precisasse dizer estivesse resumido numa única frase feita. Alguns atores davam conta de naturalizar esse problema, mas a maior parte das sequências ficou abaixo da média.
E se já não bastasse o texto estar tomado de previsibilidade, as “licenças narrativas” trouxeram de volta os hábitos esvoaçantes de Glória Perez na época de Salve Jorge. Algumas coerências foram mandadas para as cucuias, como quando Vitória deixou um homem que a ameaçava entrar em seu carro no meio de um engarrafamento lotado de testemunhas; ou quando Lurdes esperou dois meses para quebrar as telhas do próprio cativeiro. A pressa pode – ou não – ter turvado as vistas da autora para alguns desses detalhes, que, em cena, acabam sendo maiores do que pareciam no papel. É extremamente injusto com o público que você cativou, exigir dele que nivele por baixo a forma como recebe seu trabalho.
É muito complicado, por exemplo, entender por que o enredo envolvendo Vitória e a mãe biológica do menino Thiago não foi apresentado antes mesmo da pandemia ou assim que a novela retornou. Nada do que aconteceu com Vitória foi relevante até aquele penúltimo capítulo, quando a personagem foi confrontada com uma situação cheia de complexidades. Ela já tinha abandonado um filho e também já tinha tentado resgatá-lo. Ela entendia aquela mulher por todos os ângulos e poderia, com isso, se aproximar ainda mais de Thelma e Lurdes, que também viviam uma dinâmica entre sangue e história. Do jeito que foi feito, faltando DOIS dias para o fim, a sensação que ficou foi a de que o menino estava só sofrendo um segundo abandono, já que, na pressa – ela de novo – decisões mudavam para o estado da desistência com especial rapidez.
Mesmo assim, com tudo isso, teremos no coração e na memória o encontro de Danilo com Lurdes (na estrada que eles percorreram até ali) representando o que foi Amor de Mãe desde o seu começo: uma história sobre a busca de uma mulher pelo direito que lhe foi arrancado: o direito à maternidade. E esse “uma mulher” se refere às três: Lurdes, Thelma e Vitória (que poderiam ter vivido a grande cena da novela naquele encontro no hospital, e não viveram). Todavia, esses pouco mais de 20 capítulos de turbulência não apagam o tamanho da nossa catarse diante da sequência na estrada, com mãe e filho fechando o ciclo do destino, fechando uma trama que estava toda planejada para chegar ali; e que chegou, oferecendo o espetáculo e a emoção que precisava oferecer.
Ainda tivemos que aturar o rocambolesco sequestro do bebê, a morte óbvia e desinteressante de Álvaro, a falta de reação de outros personagens ao retorno de Lurdes e até uma desconexa Mulher Unicórnio… Porém, é curioso notar que quando se trata do que ficou de bom, tudo converge em Lurdes. E agora mesmo, quando me lembro da visita que fiz ao cenário de sua casa, sinto de novo aquela emoção do reconhecimento, o reconhecimento do que é puro e verdadeiro, ideias tão presentes no que constituía essa personagem. Quando olho para trás percebo que é em Lurdes que esteve, está e estará o meu amor.
Domêniquices
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Um aplauso imenso para a Malu Galli. Lídia foi um prazer de assistir do começo ao fim.
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Leilinha Pé na Cova teve um bom arco de redenção, mas a trajetória de Penha é cheia de problemas.
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Ísis Valverde foi uma das grandes prejudicadas com o retorno, já que seu arco foi todo alterado a partir da inevitabilidade de que ela era uma enfermeira.
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Érica: mais empregos e namorados que ela ninguém teve.
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O plot do cancelamento de Marina foi a completa vergonha alheia.
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Raul também fez uma presença de luxo nessa segunda fase.
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Camila: Joseph Klimber.
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Aqui abaixo está o vídeo que editei com as entrevistas antes da estreia e também com uma visita MARAVILHOSA à cidade cenográfica da novela. Tá bem bonito. VEJAM!!






















