Caros leitores do Série Maníacos, estamos encerrando mais uma cobertura por aqui. Quero agradecer minha grande amiga e parceira de projetos Vera Tocantins por me fazer companhia neste projeto. Fazer esta cobertura foi algo muito marcante para mim. Analisando os últimos 15 anos, período que me tornei uma viciada em séries, nada mexeu tanto comigo como esse último episódio. A Parte 04 de Olhos que condenam foi tão emocional que tive que pausar o episódio, várias vezes, para chorar copiosamente. Saber que se trata de uma história baseada em fatos reais torna a experiência ainda mais imersiva. Perceber que a vida daqueles jovens foi destruída, dilacerada por erros baseados no que os “olhos veem” foi muito complicado. Apesar de todo o exercício de empatia é impossível saber, em profundidade, o que aquelas pessoas sofreram. Cabe a nós torcer que a série não seja vista apenas como uma obra vitimista (tenho certeza que muitos tentaram taxa-la assim), ela é muito mais que isso. Ela dá vez e voz para aqueles que foram injustiçados. Provoca o grande público, instiga a reflexão e marca a memória televisiva com uma obra bem construída, transcendendo sua função inicial de mero entretenimento.

A Parte 04 faz um recorte e decide focar sua trama em Korey Wise. Esse foi um grande acerto do roteiro. A situação dele era diferente dos demais jovens, ele tinha 16 anos na época do crime e foi julgado como adulto. Foi tão cruel acompanhar a fagulha de esperança no seu olhar, ao ouvir a leitura da sua sentença, para logo em seguida ver seu mundo desabar diante da triste realidade que se abria diante de si. A partir daí, toda sua trajetória pelo sistema prisional foi uma sucessão de sofrimento que não parecia ter fim. Sua primeira parada foi Riker´s Island. Seu olhar inocente e feliz, a quem fomos apresentados no primeiro episódio, simplesmente desaparece e abre espaço para um olhar triste e perdido de alguém que não tinha nenhuma expectativa de melhora. As cenas dos abusos sofridos por Wise foram extremamente difíceis de assistir. Ao pensar que essa realidade se repete continuamente por presídios ao redor do mundo todo, deixa tudo muito pior.  Ava Duvernay merece todo o reconhecimento por sua obra. A forma como a série foi filmada permite que a experiência de assisti-la seja intima. Os enquadramentos escolhidos, as tonalidades escuras nas cenas dentro do presídio e os detalhes pessoais inseridos na trama provocam os sentidos do telespectador a todo momento. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de conhecimento sobre a realidade prisional, vai sentir um soco no estômago ao assistir a construção feita por esse episódio.

A cena mais marcante, sem dúvida nenhuma, é aquela que mostra um pouco da vida de Korey fora da prisão. Somos apresentados a Marci (Isis King), sua irmã trans. Toda a construção dessa cena foi simplesmente magnífica. Ver o olhar sonhador daquele garoto, ouvindo os conselhos de sua irmã mais velha, para logo em seguida, vivenciar uma de suas primeiras desilusões: ver a mãe expulsar a irmã de casa. Todo o dilema familiar apresentado trouxe mais profundidade ao dilema vivido por aquele garoto. Depois desse flashback, Wise recebe uma notícia dolorosa: a irmã foi assassinada. Vê-lo recebendo um abraço de consolo do policial, mostra como ele estava sozinho e desamparado diante de uma situação sem perspectiva.

Tenho que abrir um parêntese aqui para elogiar o trabalho estupendo de Jharrel Jerome. Essa foi a escolha mais acertada desse elenco. Ele é o único que permanece interpretando o personagem ao longo dos anos. Nada do que foi apresentado nesse episódio seria possível sem o trabalho desse magnifico ator. Ele conseguiu transmitir, com toda profundidade, uma gama tão complexa de sentimentos que é impossível não sentir o que estava sendo apresentado em cena. As cenas de flashback e de alucinações foram tão vívidas que por vezes nos esquecíamos do local tenebroso onde ele se encontrava. Jharrel Jerome merece indicações a todos os prêmios possíveis por sua performance emblemática.

Outro ponto positivo do roteiro foi da relação construída entre Korey e o guarda Roberts (Logan Marshall-Green). Essa sequência de falas resume bem essa relação:

Korey: Por que é tão legal comigo?

Roberts: Tenho um filho em casa. Se acontecesse com ele o que houve com você, gostaria de saber que alguém o trata como ser humano.

Pela primeira vez, alguém o enxergava como o que ele realmente era: um ser humano. Mostrar que no sistema prisional existem pessoas que fazem o seu trabalho, independentemente das suas crenças era essencial. Passa imparcialidade e não joga toda a culpa nos policiais, como se todos fossem vilões. Mais um ponto para série.

Depois de ser transferido várias vezes, a seu pedido, na tentativa de ficar perto de sua mãe, Korey Wise se encontra com Matias Reyes (Reece Noi). Descobrimos, posteriormente, que Reyes confessou o crime ocorrido em 1989. Preso desde agosto de 1989, por ter cometido um estupro seguido de morte, seu DNA comprovou que ele atacou Patrícia Meili. Na época do crime, ninguém tentou comparar o seu modus operandi ou fazer exames de DNA, em um criminoso confesso, para pelo menos dar o benefício da dúvida aos rapazes, não foi feito. Como disse no texto da Parte 02, eles já estavam sentenciados antes de qualquer julgamento. As autoridades envolvidas no caso continuaram sustentando sua versão dos fatos. Nada mais natural, diante da repercussão deste caso. Reconhecer publicamente esse erro abriria um precedente perigoso e colocaria em dúvida todo o sistema judiciário de Nova York. Korey Wise ficou preso por quase 12 anos por um crime que não cometeu. Como ele mesmo disse em entrevista para o documentário “Central Park Five”:

“Você pode perdoar, mas não vai esquecer. Você não vai esquecer o que perdeu. Nenhum dinheiro poderia trazer esse tempo de volta. Nenhum dinheiro poderia trazer a vida que estava faltando ou o tempo que foi tirado.”

Nada paga o tempo perdido e o sofrimento vivido, o que Ava DuVernay fez foi visibilizar e garantir o lugar de fala desses homens. Até a próxima cobertura, pessoal.

Palavras Finais sobre Olhos que condenam

Por Vera Tocantins

No livro O Caçador de Pipas, seu autor, Khaled Hosseini, diz em um de seus capítulos que:

“Existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente a variação do roubo. Quando você mata um homem, está roubando uma vida. Está roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos o direito de ter um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça. Entende? Não há ato mais infame que roubar.”

Bem, minhas amigas e meus amigos, Hosseini estava coberto de razão ao classificar o roubo como um dos piores crimes (pecados) da natureza humana e do mundo de relações. A corredora do Central Park, ao ser estuprada, teve a sua dignidade roubada, teve a inteireza do seu corpo físico roubado, teve a sua intimidade roubada de forma covarde e vil. Não podemos minimizar a agressão hedionda perpetrada contra essa moça e hiperbolizar a sucessão de erros e má fé que levaram esses cinco garotos para o cárcere. Mas por outro lado, considerando a tese de Hosseini, os garotos Korey, Kevin, Yusef, Tron e Ray foram roubados sim, como também as suas famílias foram roubadas. Dos filhos foram roubados o direito de permanecerem no seio de suas famílias, eles tiveram a sua inocência roubada; tiveram a sua liberdade roubada e foram roubados no que deveria ser um direito primário para todas as pessoas, o direito de se sentir um ser humano. Suas famílias foram roubadas do direito de conviver com eles, de vê-los crescer, conquistar lugares e espaços na sociedade, se tornarem homens adultos com uma história e com uma narrativa que não se resumisse a vida carcerária.

Mais adiante no citado livro, Hosseini expande o seu pensamento nos dizendo:

“É melhor uma verdade que dói do que uma mentira que conforta.”

A mentira contada confortou a sede de justiça com as próprias mãos iniciada pela polícia, acolhida pela mídia, propagada por Trump e instigada pela sociedade. Antes a dolorosa verdade de que eles (a polícia/a justiça) não faziam ideia de quem havia atacado a corredora, do que a mentira que dilacerou as vidas de cinco garotos e de suas famílias. Como prosseguir depois que uma mentira corporificada destruiu as suas vidas? Como prosseguir depois que os anos mais importantes de suas vidas lhes foram roubados?

Hosseini ainda diz em seu livro:

“Descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar.”

Como esquecer esse passado depois de finalmente conseguir a tão sonhada liberdade? Não tem como esquecer certas coisas. Um passado como esse molda uma pessoa, passa a fazer parte do que a pessoa é. Não tem como seguir em frente e fingir que nada aconteceu. É preciso seguir em frente sim, transformando uma experiência tão bizarra como essa em motivação para ajudar, defender e proteger outros que por ventura se encontrem na iminência de sofrerem esse mesmo tipo de injustiça.

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Foi uma experiencia imersiva profunda ter assistido e escrito sobre esses quatro episódios de Olhos que condenam. Tive momentos de revolta, desespero, compaixão, temor, indignação e mais revolta… Enfim, foram muitos momentos e muitas emoções contraditórias. Momentos de lágrimas, de poucos sorrisos, mas de profunda empatia por esses garotos e por todos os garotos do mundo que, infelizmente, ainda são julgados pela cor da sua pela ou por sua condição socioeconômica. Que a verdade que dói seja o caminho do meio para esses garotos. Que a mentira que conforta não seja a régua que irá julgar os atos desses garotos. Que nenhuma família seja roubada do seu direito básico, o de conviver com os seus garotos. 

Quando eles nos veem:

– Abaixo, segue uma foto da diretora Ava DuVernay e o verdadeiro Korey Wise.

– Em 2014, o Estado de Nova York pagou uma indenização de 41 milhões de dólares aos cinco homens.

– Atualmente, Korey Wise é um ativista da justiça criminal, trabalhando no The Innocence Project.

REVISÃO GERAL
Nota:
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