A culpa é uma energia estagnada. Não muda o passado e não molda o futuro.
Assisti há muito tempo o filme The Shawshank Redemption (Um Sonho de Liberdade), lançado em 1994, escrito e dirigido por Frank Darabont, baseado na novela Rita Hayworth and Shawshank Redemption, de Stephen King. O filme fala sobre o sistema prisional americano, sua corrupção através da lavagem de dinheiro e o sonho de liberdade cultivado por muitos detentos. Naquela ocasião a sequência que mais me chamou a atenção é quando o presidiário Ellis Boyd “Red” Redding, interpretado por Morgan Freeman recebe, após décadas de encarceramento, o seu alvará de liberdade. Red não sabe como ser um homem livre, após ter permanecido preso por quarenta anos. Red mantem um pé dentro do presido e outro do lado de fora. Ao conseguir um emprego em um supermercado, Red, se vê compelido a pedir permissão o tempo todo, até mesmo para ir ao banheiro, repetindo o hábito construído na prisão. Em algum momento, Red pensa seriamente em cometer um novo crime para ser preso mais uma vez e voltar para o único lugar que ele convencionou chamar de lar, mais tarde em um momento de vulnerabilidade, o ex detento pensa, como os que o antecederam, em tirar a sua própria vida e acabar de uma vez com esse sentimento de inadequação que o domina por inteiro.
Bem, a terceira parte da minissérie ‘Olhos que Condenam’ utilizou o sentimento de inadequação como fio condutor da sua narrativa. Através das perspectivas de Tron, Ray, Kevin e Yusef, passamos a compreender que eles perderam bem mais que a inocência quando foram presos. Os garotos perderam o seu lugar de pertencimento no mundo. Agora, já adultos, classificados como agressores sexuais, com uma enorme lista restritiva para seguir, eles não reconhecem mais o mundo como um local de pertencimento. Eles não sabem como lidar com a liberdade. Tal qual Red, eles caminham pelo mundo com um pé nele e outro na vida carcerária. Quem nunca se sentiu inadequado que atire a primeira pedra! As vezes esse sentimento se implanta em nós e sequer nos damos conta. O gatilho pode ser disparado de formas diferentes para diferentes pessoas; uma escola nova com pessoas diferentes do que estávamos acostumados a conviver; uma universidade com um grupo social distinto do nosso; um emprego com pessoas que gozam de privilégios nunca antes mensurados por nós; um país novo, onde os hábitos diferem dos nossos… tudo pode disparar em nós esse sentimento de não pertencimento e inadequação. Eu mesma, passei por várias das etapas citadas acima (escola, universidade, emprego, país novo…), mas nem de longe eu posso mensurar o sentimento de alguém que passou pelo cárcere, foi quebrado em mil pedaços, para depois ser devolvido para a sociedade.
Iniciamos o episódio com um belo discurso da abuelita de Ray em seu cumpleaños. A matriarca deixa claro para todos os presentes que cultiva um único desejo naquele momento, o retorno do seu neto Reymond ao seio da família. Através da tristeza esboçada pela matrona, passamos a entender como a condenação de Ray desestruturou a dinâmica da sua família. A espera pelos telefonemas de Ray ou as visitas de seu pai e da abuelita ao Centro Correcional Juvenil deixaram marcas severas nos familiares.
Mais adiante, fomos surpreendidos pela quebra narrativa através da passagem de tempo. Confesso que não esperava que o salto temporal nos privasse repentinamente da vida prisional desses garotos. Considero o elenco juvenil bastante competente e cativante, já estava acostumada com eles, mas admito que o elenco adulto entregou um trabalho muito consistente nesse episódio, principalmente Freddy Miyares, intérprete de Ray. Sei que esse recurso tem a ver com os verdadeiros rapazes envolvidos no caso, eles, de alguma forma, não se sentiram confortáveis em detalhar esse momento de suas vidas, segundo relatos de Sarah Burns, autora do livro que relata o caso envolvendo Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana, Antron McCray e Korey Wise. Sarah Burns, relatou também que os cinco rapazes apresentavam sintomas de estresse pós-traumático, o que motivou Tron mais tarde a mudar de nome, buscar na nova identidade a oportunidade de um recomeço.

Na sequência tivemos o retorno de Ray a sua casa, o reencontro com seu pai foi muito emocional, Leguizamo, de forma convincente, recepcionou o filho que julgava perdido para o sistema. O problema é que durante o tempo em que ficou preso, Ray não participou efetivamente dos acontecimentos da sua família e, nesse meio tempo, seu pai casou-se novamente e constituiu uma nova família através dos parentes da sua esposa. Essa nova família se ramificou por toda a casa, que anteriormente era reservada somente para ele e seu pai. A angústia nas lágrimas de Ray demonstrou o seu pesar por ter perdido a melhor época da sua vida atrás das grades. O sentimento de inadequação de Ray era patente. Ele agora não era somente Reymond Santana Jr., ela agora era um ex presidiário e a sociedade fazia questão de lembrá-lo disso o tempo todo. Quer seja na recusa durante as entrevistas de emprego ou na fala acusatória de Elena, sua madrasta. Diante dessa falta de perspectivas e pressionado por Tanya, a sua namorada, Ray se tornou um alvo fácil de uma gangue local. Sem muitas perspectivas, Ray abraçou a vida criminosa, disposto a reencontrar o seu único local de pertencimento, o sistema penitenciário. Não é como se Ray tivesse muitas opções, por mais que ele quisesse seguir um caminho reto e digno, tudo parecia conspirar contra ele.
Vimos também as consequências do encarceramento na vida de Tron e da sua mãe. O garoto, em meio a uma narrativa desconexa, deu mostras de algum tipo de perturbação emocional ocasionado pela vida coletiva na prisão, mas foi no discurso da sua mãe que passamos a compreender como o amor de uma mãe é algo poderoso, sobretudo quando não há esperanças, quando não resta nenhuma tábua para se salvar em meio ao oceano. Da mesma forma, fica claro para nós o quanto Tron está sofrendo na sua vida fora do sistema. O rapaz, agora já adulto, se mostra incapaz de perdoar o próprio pai, que de certa forma o incentivou a mentir sobre ocorrido no parque. Tron está de volta a sua casa, mas se mostra pouco habilidoso para lidar com as pessoas e com a realidade objetiva fora da prisão.

Mudando um pouco a perspectiva, vemos Yusef, agora convertido, muçulmano, um bom estudioso do alcorão. Talvez ao se converter muçulmano o rapaz tenha encontrado o conforto necessário para lidar com o aprisionamento e as suas consequências. Yusef se mostrou preocupado com Korey, por compreender que o amigo se envolveu nessa situação na tentativa de ajudá-lo, nos remetendo ao momento em que Korey, no primeiro episódio se dispôs a acompanhá-lo até a delegacia para que a sua mãe não ficasse preocupada. Não vemos nesse episódio a perspectiva de Korey, único ainda preso. Mas creio que o próximo episódio vai apresentar o ponto de vista de Korey sobre todos esses acontecimentos.

A família de Kevin se mostrou inabalável e unida. Sua mãe e sua irmã foram presenças marcantes na sua vida, apesar do encarceramento. A sua irmã, Angie, sobretudo, a moça julga-se culpada por ter assinado a confissão do irmão em um momento de tensão e inexperiência. Asante Black nos entregou um jovem Kevin emocional e convincente, no entanto, apesar do tempo de tela reduzido, o ator Justin Cunningham não decepcionou na sua versão adulta de Kevin. Acho interessante que apesar de todo o sofrimento passado, Kevin ainda irradiava um ar de esperança e leveza. O diálogo dele com Yusef foi muito interessante, ambos estavam buscando a mesma coisa, autodescobrimento.

A segunda temporada da premiada série Atlanta ficou conhecida como Robin’Season – Temporada da Roubalheira -, onde não se fala somente do roubo dos bens materiais, mas, primordialmente, fala-se sobre o roubo da inocência, o roubo da pureza e dos sonhos, a série deixa claro que mesmo quando você ganha, você ainda sai perdendo. Esse foi o meu sentimento em relação a esse episódio, mesmo ‘ganhando’ a liberdade, esses rapazes perderam tudo, suas famílias perderam tudo. Eles perderam a credibilidade, o nome, o local de pertencimento, a chance de serem crianças, de serem jovens e depois adultos. Bobby, o pai de Tron, alquebrado pela doença é a prova inconteste de como os anos foram amargos para aquela família. Raymond, vivendo indiferente a bagunça do seu lar superpovoado, apenas esperando um telefonema do filho é o retrato da melancolia e da apatia diante da vida. Angie, irmã de Kevin, com um sentimento de culpa a atormentando, em algum momento chegou a creditar que não merecia ser feliz por se sentir responsável pela tragédia que se abateu sobre o seu irmão. Enfim, todas as famílias foram dizimadas, apesar de terem que prosseguir coma as suas vidas.
Enquanto jovens adultos esses rapazes ficaram quebrados. O sistema se encarregou de tratá-los como uma matilha de lobos, portanto, predadores. Esse mesmo sistema os classificou com o neologismo wilding, derivado do adjetivo wild (selvagem), usado para designar atos de violência grupal. E esse mesmo sistema, sem nenhum pudor, se encarregou de divulgar para a sociedade e a grande mídia os seus nomes e rostos (apesar de eles serem menores de idade) antes mesmo da existência de um processo formal, marcando-os e marcando os seus parentes junto aos seus pares sociais. O que esperar de um sistema que quebra os seus jovens, mastiga-os e depois os rumina de volta ao mundo e espera que eles caminhem com as suas próprias pernas? Esse foi sim o crime do século, como noticiou a imprensa da época. Mataram cinco jovens ainda em vida!
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Quando eles nos veem:
Apesar de a perícia ter descartado a possibilidade de o DNA encontrado na cena do crime pertencer a um dos cinco garotos, a polícia em momento algum tentou associar o caso da corredora a uma série de estupros que aterrorizava o norte de Manhattan na época. O curioso é que os casos ocorridos em Manhattan eram investigados pelos mesmos detetives encarregados do caso da corredora.
A identidade de Trisha Meili permaneceu anônima até 2003, ano em que ela foi a público anunciar que era a corredora o Central Park, apesar de ela ter prestado depoimento duas vezes, a mídia manteve seu nome em sigilo durante quatorze anos. Nessa ocasião, Melli lançou o livro intitulado, ‘I Am the Central Park Jogger’, onde narra a sua versão da história sobre o caso do Central Park.
Os atores escolhidos para representarem as contrapartes adultas dos garotos estão muito bem em cena e cada um deles apresenta uma ou outra característica do seu análogo juvenil. Parabéns para a direção dessa minissérie por ser tão cuidadosa com o quesito atuação.
Ava DuVernay com os rapazes reais do Central Park Five.

















