Há quem suspeite que Okja é uma ação panfletária pró veganismo, mas ele é bem mais do que isso. Pra ser mais preciso, a nova aposta da Netflix é uma reflexão provocativa sobre a voracidade do capitalismo e sobre todos os absurdos que somos capazes de tolerar por um BigMac.

Logo de início, somos apresentados a uma premissa instigante que lembra muito um episódio de Black Mirror. Uma nova raça de suínos foi encontrada e 26 desses porcos serão distribuídos a agricultores espalhados pelo mundo, para serem criados em condições sustentáveis ​​e aparentemente saudáveis. Após 10 anos, eles participarão de uma espécie de concurso, supervisionado por um popular apresentador-veterinário interpretado por Jake Gyllenhaal (Johnny Wilcox).

E essa maquiagem hipócrita já gera estranheza. Tilda Swinton (Lucy Mirando) é plasticamente moderna e artificialmente falsa na apresentação e toda essa máscara incomoda por expor o lado podre da publicidade. A crítica anticorporativista corre o risco de ficar pesada e enfadonha, mas o humor se mantém afiado. A comédia fica sempre no limite da ironia, afinal de contas, algumas corporações são ridículas e merecem ser retratadas assim. Jake Gyllenhaal me faz questionar esse limite com uma atuação muito exagerada e quase sem propósito, mas Tilda Swinton está ali para estabelecer o limite com clareza.

Tilda Swinton em Okja
Tilda Swinton em Okja

Dez anos se passam e somos apresentados a Mija (Seo-Hyun Ahn em uma performance terna e engajadora) e a sua melhor amiga, Okja. Estamos falando aqui sobre um porco enorme do tamanho de um hipopótamo, com a cara e o jeito de cachorro. E se essa descrição parece assustadora, o resultado não poderia ser mais encantador.

O porco gigante, feito em um convincente CGI, é uma criatura gentil, simpática e a verdadeira alma do filme. O relacionamento entre Mija e Okja, estabelecido com carinho e paciência durante o primeiro ato, é o elo que mantém o filme forte até o fim. Sem esse desenvolvimento, o filme não teria sua relevância e o objetivo alcançado.

E nesse universo criado com inspiração, tudo é poesia e metáfora. Quando uma árvore, que está logo na entrada da empresa Mirando, é cortada, dá pra ver expostos os fios e a fragilidade da artificialidade daquele produto. A imagem das gêmeas Lucy e Nancy Mirando também estão ali pra nos lembrar que por mais que o discurso seja diferente, no fundo, as faces são todas iguais.

Jake Gyllenhaal em Okja
Jake Gyllenhaal em Okja

Okja é uma fábula que conhece seu tom, mesmo que não se encaixe em apenas um gênero. Bong Joon Ho mistura fantasia, comédia, ação, aventura, ficção científica, drama e em muitos momentos acaba até flertando com o horror. Tudo que acontece no matadouro é suficiente pra deixar uma criança sem dormir e sem comer carne por muito tempo. Há um momento terrível, quando Mija exige saber porque os porcos devem ser mortos e recebe como resposta o grito de que “só podemos vender os mortos.”

Junto com The Meyerowitz Stories, o filme foi polêmico no Festival de Cannes desse ano. A Netflix se recusou a exibir seus filmes nos cinemas e isso fez com que as regras do festival fossem mudadas. A partir de 2018, qualquer filme que desejar participar da competição, terá que se comprometer a ser distribuído nos cinemas.

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Por mais que eu ame o streaming e ame assistir filmes na minha casa, Okja é um grande exemplo de uma mega experiência que eu perdi na tela do cinema. A Netflix está cada vez maior e como uma grande empresa corporativista, também vai ter que decidir o que fazer com seus porcos gigantes.

REVISÃO GERAL
Nota:
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okja-reflexao-provocativa-voracidade-capitalismoOkja é uma fábula que conhece seu tom, mesmo que não se encaixe em apenas um gênero. Bong Joon Ho mistura fantasia, comédia, ação, aventura, ficção científica, drama e em muitos momentos acaba até flertando com o horror.