O blockbuster do ano.
Nostalgia é uma faca de dois gumes. Por um lado, ela evoca suas melhores lembranças da infância e juventude, proporcionando prazeres que só o tempo pode oferecer. Por outro, é uma máquina destruidora de experiências, criando patamares inalcançáveis de epicidade e emoções que transformam qualquer coisa atual em porcaria. O tempo melhora as coisas.
Esse problema aumenta exponencialmente quando falamos de uma só franquia. Em uma era cinematográfica e televisiva repleta de reboots, sequências e spin-offs de grandes marcas do entretenimento do passado, as comparações são sempre inevitáveis. Não se analisa mais um filme pelo que ele é, mas por suas mudanças em relação aos seus antecessores.
O pior é que isso sequer pode ser controlado. Não há um botão de liga e desliga. Sofri eternamente com esse problema assistindo Game of Thrones. Eu queria aproveitar uma série muito bem produzida e com ótimos atores, mas a memória da minha saga de livros favorita de todos os tempos não se esvanecia de jeito nenhum. Somos reféns da nostalgia, comparando ao invés de analisar, desprezando mudanças num cânone imaginário criado por nós mesmos (*) e anunciando o fim dos tempos na indústria do entretenimento.
(*) Nesse caso não há desculpa para Mad Max. O diretor é o mesmo e ele tem o direito de fazer o que quiser com sua obra, justamente por ser sua. Quem é o fã para definir o que é canônico?
Após abandonar Game of Thrones por não conseguir separar as duas mídias e agonizar eternamente com cada mudança que a série introduziu na história dos livros, uma mais radical do que a outra, resolvi jogar o balde e mergulhar em Mad Max sem conhecimento nenhum sobre o passado. É uma das trilogias mais cultuadas de todos os tempos? Sim!

Foda-se. Não assisti nenhum dos filmes originais. Vocês podem então questionar minha escolha para escrever esse texto, mas considerando o conteúdo do filme, tal argumento é inválido. Estrada da Fúria é um filme contido em si mesmo, e se você é o tipo de pessoa que torce o nariz para desvios da trama, mudança de personagens e qualquer outro tipo de “desvirtuamento” da obra original, recomendo que comece a fazer o que faço. Considerando a reação de minha amiga ao final desse reboot de Mad Max, aos prantos pela destruição completa de um de seus filmes favoritos, isso te salvará de muitos problemas.
O que temos então nesse novo Mad Max, e apenas esse novo Mad Max? Simplesmente o filme de ação mais estonteante que me recordo de ter assistido. Abraçando sem medo a tarja de blockbuster o reboot (vou chamar disso para fins práticos) de George Miller é um soco no estômago com duração ininterrupta de duas horas e meia, um espetáculo visual de beleza incomparável que merece ser assistido na maior tela de cinema da sua cidade. Minto, do seu estado.
É um tanto inútil descrever os aspectos visuais do filme, tanto que os trailers parecem conscientemente suprir essa falta de palavras. Sendo complexo e elaborado nessa área, Mad Max na verdade possui um enredo principal muito simples: Carros. Deserto. Gente doida. Ação.
Estamos então diante de um show visual que é somente isso, como a intragável franquia Transformers? Longe disso. Centrando sua história em elementos simples, Mad Max tem aquela rara capacidade de agradar tanto a espectadores casuais quanto cinéfilos inveterados. Para os primeiros, sequências de ação inacreditáveis e dirigidas com maestria. Para os segundos, a discreta e meticulosa criação de uma mitologia através de pequenas cenas e pouquíssimos diálogos.
Está tudo lá para quem se der ao trabalho de procurar e não estiver ocupado teclando no Whatsapp ou chafurdando no pote de pipoca. A luta pela água, a intrigante religião que domina o ambiente, os efeitos devastadores de um apocalipse passado, os rituais de glorificação… Entremeados entre sequências explosivas de ação ou até mesmo fazendo parte delas, as peças de um enorme quebra-cabeça se formam lentamente para construir um mundo fascinante que ao final do filme te deixa com a impressão de que foi criminalmente pouco explorado.
Quanto aos personagens em si? Mad Max é aquele tipo de filme mastodôntico que sempre ameaça engolir seres tão pequenos e irrelevantes como seres humanos. Tom Hardy, um dos principais motivos pelo qual me interessei à primeira vista nesse reboot, é um Max coadjuvante, ou mesmo um protagonista expectador. Não é um papel de destaque ou uma isca para o Oscar (para isso o ator conta com o próximo filme de Iñárritu), nem sequer uma figura memorável. George Miller está realmente interessado em Charlize Theron e sua Furiosa, uma personagem forte e fraca ao mesmo tempo, transbordando de energia e emoção. Há muito tempo não vejo uma atuação tão interessante dessa atriz. Os olhos de Furiosa são hipnotizantes: dotados de um senso de vontade incomum e levemente marejados, como se prestes a sucumbir em qualquer momento.

É nesse território que chegamos às famigeradas polêmicas sobre o teor feminista do filme. Baboseira. O que Mad Max efetivamente faz é nos apresentar a um protagonista marcante e multifacetado como qualquer outro no mundo do cinema. Esse protagonista por acaso é uma mulher. Outras figuras femininas também aparecem, protagonizando cenas de ação, matando e morrendo. Em nenhum momento do filme se identifica um discurso feminista. São seres humanos como quaisquer outros, lutando com as armas que possuem para sobreviver a um mundo hostil e inescrupuloso. Qual o problema de serem mulheres?
Do outro lado dessa moeda a atuação discreta de Tom Hardy, que para mim não foi um problema já que o filme claramente não é sobre ele, é ofuscada por um coadjuvante surpreendente. Nux (Nicholas Hoult, num personagem que deixa seu Fera de X-Men comendo poeira) é um dos membros da gangue de Immortan Joe, sendo parte de uma “raça” muito incomum. Ele sofre de uma doença cruel que limita seu tempo de vida, e como todos seus colegas sonha com uma morte rápida e gloriosa a caminho do Valhala. O fanatismo enlouquecido dos primeiros minutos do filme vai dando lugar a um personagem consumido por uma crença suicida que falha repetidamente em alcançar seu objetivo. Nux é viciado por significado em um mundo randômico e aleatório, e Hoult transmite com beleza única o fervor religioso do personagem.

Todas essas atuações se combinam para criar um universo rico, palpável, sanguinolento, arenoso e homicida. Vários personagens coadjuvantes que têm pouquíssimo tempo de tela deixam sua marca de alguma forma, fornecendo pequenas explicações sobre o mundo que os cerca e construindo tijolo a tijolo uma mitologia espetacular.
Mesmo assim, tal descrição não é suficiente. Há algo extremamente deturpado e anormal na mente de George Miller, com incríveis setenta anos de idade, e isso é perfeitamente visto em tela. Apesar de ser um blockbuster destruidor, Estrada da Fúria pode escapar do grande público simplesmente por ser atormentado, doente, esquizofrênico, perturbador e diferente demais. Não há calmaria nessa tempestade, e as tradicionais cenas lentas após extensos minutos de ação ininterrupta duram muito pouco tempo aqui. O novo Mad Max é uma experiência fatigante para seus personagens, algo que transborda para seus expectadores. Ele também é algo único no cinema atual, um filme que certamente ficará marcado nas mentes dessa geração. Vá assisti-lo agora na maior tela que puder e prepare-se para se divertir. Muito.

Nota de Agradecimento: montagem, edição, trilha sonora, coreografia, mixagem de som, esparsos e estupendos efeitos especiais, dublês, arte, roupas, design de carros e maquiagem. Provavelmente esqueci de alguma coisa. Esse é um filme tecnicamente perfeito, entupido de detalhes ricos e explicativos. Pode se tornar um arrrasa-quarteirão nas categorias técnicas do Oscar ano que vem, mas a data de lançamento certamente não ajuda.
Nota de Culpa: depois de assistir o primeiro trailer do filme, ficar embasbacado e decidir ficar longe de qualquer outro material relacionado ao mesmo até poder assisti-lo, o que acontece? A Cinemark (sim, você mesmo Cinemark) passa o trailer Mad Max na sessão de Mad Max. Não entendo.






















