Não é a Bullock, nem Roberts, Blanchett, Kidman nem Winslet. É Aniston em seu lado oculto: o drama.
Faz apenas algumas horas que assisti Cake: Uma Razão de Viver (2014), filme estrelado pela versátil atriz Jennifer Aniston. Sim, versátil é um adjetivo que necessita ser empregado após o lançamento da película, o que fez abrir o leque da atriz ao deixar a sua zona de conforto nas comédias. Não é fácil sair de uma área em que você é consagrada como uma das melhores, com Globo de Ouro, Emmy Awards e SAG Awards em seu currículo, entretanto, a atriz conseguiu mostrar o seu lado, que por muitas vezes, ficou oculto. “Cake” não é o primeiro filme de drama de Aniston, pelo contrário, ela já provou em filmes anteriores o seu talento para esse campo. Os mais conhecidos e moderadamente apreciados pela crítica e pelo público são “A Razão do meu Afeto” (1998), com Paul Rudd e “Por um Sentido na Vida” (2002), estrelado também por Jake Gyllenhaal, entretanto em “Cake”, a atriz vai além, extrapola as suas fronteiras e deixa o telespectador cético do início do filme com uma empatia enorme por Claire, personagem de Aniston, ao final.
O buzz em relação a uma possível indicação ao Oscar de 2015 iniciou-se quando o filme foi exibido no Festival Internacional de Toronto, no ano anterior, com uma audiência aclamando a atuação da atriz em pé e muitas notas acentuando o seu modo de dar vida a Claire Benett. De nada Aniston lembra os seus papéis nas comédias românticas e em produções mais leves em que já atuou. Na verdade, a sensação de estar assistindo um filme alternativo, classificado como indie, já se inicia nas primeiras cenas e a fotografia chega muito a lembrar a série Transparent, da Amazon.
Claire é o centro das atenções em “Cake”. Tudo se dissolve a partir dela, de suas dores crônicas e como elas regem a sua vida pós-acidente. O filme não dá todas as respostas de cara, na verdade, ele apenas lança uma isca no começo e depois somos mergulhados pelo mundo da protagonista. Não é um mundo glamoroso e feliz, mas sim um lugar escuro e preto e branco, entretanto, somos atraídos por ele. Não o classificaria como uma obra pesada e depressiva, mas reflexiva e cativante. Os momentos cômicos não são omissos e são muito bem pontuados ao decorrer do filme, em que há espaço para o riso mesmo em um mundo em que a própria protagonista não sabe mais sorrir.
Os demais atores possuem também os seus pesos no decorrer da trama, todavia, todos eles são ofuscados por Aniston. Talvez o seu papel de ser um pilar para todas as storylines e outros personagens atraiam a atenção totalmente a ela, porém, é o interesse que Claire desperta no público é que permite o filme fazer o seu papel: entreter o telespectador e não funcionar como um sonífero, o que é um risco enorme em filmes com a mesma temática e características. O conhecido lado deslumbrante, belo fisicamente e glamoroso de Jennifer Aniston não existe no filme e para os fãs mais assíduos, que acompanham a sua vida e os seus filmes, os fazem carecer dessa parte. Torci para que houvesse uma cena de flashback com ela mostrando todo o seu carisma e beleza, todavia, isso quebraria a Claire que foi construída ao longo da obra. Na verdade ao final da película, esquecemos que a atriz é totalmente o oposto da personagem na vida real.
As indicações ao Globo de Ouro e Screen Guild Awards de 2015 apenas confirmaram o sucesso da atuação de Aniston. Apesar de não ter recebido uma indicação ao Oscar, a atriz foi considerada como a maior injustiça da premiação esse ano, como a própria disse estar honrada com o título em uma aparição no Ellen Degeneres Show no início do ano. Enquanto muitos aplaudiram de pé a atuação de Aniston, outras debocharam dela, variando desde atuação demasiadamente forçada até comparações com demais atrizes dramáticas consagradas, como Reese Witherspoon e Marion Cotillard, classificando-a apenas como uma atriz regular.
Em outras entrevistas, Aniston classificou a sua empreitada em “Cake” como uma fuga da sua zona de conforto e uma procura em se estabelecer como uma atriz flexível, que consegue interpretar todo tipo de papel e trabalhar com qualquer diretor, sem barreiras ou preconceitos em relação ao seu nome no mercado cinematográfico além da comédia. Alguns críticos disseram que “Cake” representou o mesmo que “Monster – Desejo Assassino” e “Clube de Compras Dallas” foram para Charlize Theron e Matthew McConaughey: uma transformação na carreira, um divisor de águas. Em minha opinião, Jennifer Aniston conseguiu mostrar e consolidar esse seu lado tão guardado e talentoso, todavia, espero que a atriz tenha a consciência de que ela ainda tem que provar a si mesma que não é atriz de um sucesso só.



















