
“Não quero sugar todo seu leite
Nem quero você enfeite do meu ser
Apenas te peço que respeite
O meu louco querer
Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceite
O meu estranho amor”
Eis que chegou ao fim a microssérie O Canto da Sereia, marcando o seu lugar na teledramaturgia nacional. E o final, ainda que cantado há muito tempo, foi épico. Mais uma vez aqui entra aquele meu dilema que perdurou pelos outros três capítulos: o duelo entre o texto claramente frágil da série com o apuro técnico de uma direção compentenstíssima e um elenco monstruoso. Mas agora, com o final da trama, posso garantir que o balanço final é tão bom que a técnica e o talento venceram as fragilidades do roteiro.
Aliás, até mesmo o roteiro sofreu uma considerável melhora nesse último capítulo. O encerramento da trama foi tocante, belo e perfeito.
Lembro-me de ter lido os comentários da minha primeira review sobre a microssérie e ficar chocado com alguns comentários criticando a série apenas por ser brasileira. Não respondi naquele momento pois esperei que a própria produção pudesse falar por si. E falou. O Canto da Sereia é uma obra prima, independente em qual país seja exibida. Concordo que temos muito porcaria na nossa TV aberta, mas os EUA tem ainda mais, dado a quantidade de canais “fortes” e da capacidade técnica de todas as suas produções. Aqui, infelizmente, ficamos á mercê da Globo que, quando quer, dá asas à algumas produções do naipe de Som & Fúria ou O Canto da Sereia.

Quanto ao capítulo em si, nenhuma surpresa. Muita gente já avia apostado na hipótese de Sereia ter arquitetado a própria morte e Só Love foi crescendo tanto no decorrer da trama, que já havia virado o principal suspeito de muitas pessoas. Mais uma vez, repetindo o que ocorreu em toda a curta trajetória de Sereia na TV, o que marcou a revelação do assassino da cantora foram as atuações e direção da cena e nem tanto o mistério em si que se revelava. Afinal, já havia imaginado que Só Love tinha matado sua musa Sereia, mas jamais, nem se quisesse, poderia imaginar que momentos emocionantes Isis Valverde e João Miguel me proporcionariam no último ato da microssérie.
Aliás, me deu uma certa tristeza de ver muito pouco de Marcos Caruso, Gabriel Braga Nunes e – principalmente – Camila Morgado nesse episódio, mas não tenho como dizer que isso foi um defeito. Defeito seria não dar essa chance para o excepcional João Miguel brilhar um pouco também. Isso sem falar em Isis. Se Sereia viveu eternamente na mente e no coração de seus fãs, Isis gravou definitivamente o seu nome no rol das mehores atrizes de sua geração. Não existiria tamanha comoção em torno desse mistério se Isis não tivesse feito com que nos apaixonássemos por Sereia…
E não fomos apenas nós. Além, é claro, de Paulinho de Jesus, Mara e Jorge de Ogum, vimos logo no começo do episódio que Sereia sempre usou da atração para buscar proteção. Após a morte dos pais no acidente de ônibus e ter ido morar com a tia, Sereia começou a mostrar, desde cedo, que não tinha medo de usar o corpo e a sedução como arma para conseguir o que queria. Começou com seu tio Geraldo, o que rendeu a loucura de tia Salete, que hoje vive acorrentada… E, como já sabemos, isso também se repetiu com Paulinho e Mara.
O próprio Paulinho disse em um dos capítulos que Sereia não amava ninguém a não ser a si mesma. Discordo. Sereia amava. E amava até demais. Sereia era a representação do amor… Do amor à vida! E Sereia amava tanto a vida que a perspectiva de morrer triste e dolorosamente era mais amarga que a própria morte em si. Por isso, tomada pelo desespero, Sereia começa a planejar sua própria morte, que inicialmente contaria com Maicon mas, após ver a negativa deste, percebeu que apenas alguém que amava sua vida tanto quanto ela própria amava era capaz de entender seu desejo de acabar com ela: Só Love.
Pena não termos conhecido o suficiente do personagem. Tenho certeza que nos apaixonaríamos por esta personalidade. Apenas uma alma intrigante como a de Beroaldo seria capaz de enxergar e compreender o brilho de Sereia. Sereia, assim como seu algoz, era única e incompreendida. Não para Beroaldo. Sereia, como já disse, era puro amor… E qual nome Beroaldo escolheu para si senão “Só Love”. No fim, ele e Sereia eram almas gêmeas.

E que cena linda e emocionante foi aquela em que Sereia pede para Só Love tirar sua própria vida. Enquanto ela cantava a música que abriu esta review, uma lágrima insistente cismava em querer rolar pelo meu rosto. E assim foi. Enquanto a lágrima seguia seu caminho, Só Love cumpria o seu e tirava a vida de sua musa para não vê-la sofrer.
Aliás, achei ótimo que repetiram a cena da morte de Sereia completamente. Já havia sido impecável da primeira vez que a vimos, no primeiro capítulo, mas dessa vez foi tocante. Tocante por ver Só Love cumprir sua promessa, mesmo com o coração partido. Mas sobretudo, foi marcante por, finalmente, depois de conhecer toda sua história, compreender porque Sereia abre os braços para receber a morte e fecha os olhos com uma serenidade única. Um serenidade de quem não sofre mais. A dor já não existe.

DIÁRIO DO THIAGO:
1. Assustadora a forma como Sereia inicia seu diário. Pena que lemos tão pouco dele. Passaria mais algumas horas escutando a história de vida de Sereia sem pestanejar.
2. Olha o roteiro de O Canto da Sereia me surpreendendo: antes mesmo de eu pensar em criticar o fato de Só Love saber usar um fuzil, eles revelam que, quando ainda era Beroaldo, ele passou dois anos no exército, onde aprendeu a atirar… Este foi só mais um motivo para eu querer conhecer ainda mais sobre esse fascinante personagem.
3. Acabou que a participação de Fabiula Nascimento na minissérie foi bem insignificante. A única função dela foi ter a posse do diário. Assim como a única função do caso dela com Paulinho de Jesus foi fazer este objeto ir parar nas mãos de Augustão.
4. Curtíssima, mas bem digna a despedida de Mara. Camila Morgado merecia a chance de brilhar uma última vez. Composição fantástica dessa atriz que, mesmo magnifica, acaba sendo muito subvalorizada.
5. Outra “despedida” legal também foi a de Paulinho. Mesmo sem nenhuma fala e durando apenas alguns segundos, sua cena chorando no túmulo de Tuta Tavares foi o momento final perfeito para o personagem.
6. Falando em Tuta, seu crime ficou em aberto, mesmo o roteiro tendo deixando meio na cara que o marqueteiro morreu a mando do Governador. Honestamente? Não macula em nada o épico final da microssérie não termos uma resolução clara da morte de Tuta.
7. Só Love é tão genial que, quando Augustão pergunta se foi ele que matou Tuta, ele parece indignado com tal acusação. Ele não é assassino. Ele matou Sereia por amor.
8. “Sereia, eu tô impressionante!”

“Só uma pessoa que amava Sereia mais do que a si mesmo seria capaz de fazer o que eu fiz. O único amor verdadeiro é aquele que é desprendido de tudo. Até mesmo da vida. Esse foi o meu presente de despedida. Um ato de compaixão e de coragem. Foi o melhor pra Sereia. Meu coração está tranquilo. Eu não matei Sereia, eu fiz Sereia viver para sempre”.
LOVE, Só. 2013.











