
O que fazer com uma criança de oito anos que ainda não aprendeu a produzir, editar e exibir um programa de qualidade?
Spoilers Abaixo:
Estava à toa na vida
Então a Maytê me chamou
Pra ver O Aprendiz passar
Mas o programa atrasou
Terça-feira, 23:00 do dia 1º de novembro. Vidas em Jogo. Depois de quinze minutinhos de cenas emocionantes (pô, o Guilherme Berenguer encontrou os irmãos, cara), começou a oitava temporada de O Aprendiz.
Quem assistiu à estréia percebeu a tentativa heróica da Record de mostrar que o programa mudara. A gravidade forçada das primeiras cenas, o estoque infindável de energéticos e as observações dos conselheiros e do João Dória Jr. procuraram apagar a última temporada da memória do telespectador. Infelizmente, os problemas que afligiam a sétima edição permaneceram conosco na première de ontem. Vejamos:
1. Abertura no fim. “Lucas, você não percebeu que eles são assim e não vão mudar? A abertura vai ficar no final e pronto!”. Mas gente, vamos largar essa mentalidade de Gabriela Cravo e Canela… Eu sei que a Record tem medo de perder a audiência de Vidas em Jogo (por isso nem dá intervalo comercial entre a novela e O Aprendiz), mas uma introdução adequada faria a diferença. Quem conhece o programa se incomodou, mas foi adiante. E quem não conhece? Será que a pressa em mostrar as provas se justifica perante esse contingente noveleiro?
2. Edição alucinada. Insatisfeita com a audiência do Pan-Americano, a Record precisava compensar o investimento que fez para adquirir os direitos de exibição. Começou chamando a equipe de tênis de mesa para editar O Aprendiz. A gente percebe aquele ritmo frenético de bola-vai-bola-vem nos cortes das cenas, no tempo reservado para mostrar a tarefa e até mesmo nos comentários dos candidatos de frente para a câmera. A seguir, um balanço deste primeiro episódio:
3. Lições de moral. Patronizing é a palavra que me vem à mente quando penso nas “lições de empreendedorismo” destiladas no primeiro episódio. Essa preocupação do programa brasileiro em ensinar os telespectadores não encontra paralelo em qualquer outra edição do mundo – minto, encontra um sutil paralelo no Young Apprentice (antigo Junior Apprentice) da BBC, com candidatos de 15 e 16 anos. Até mesmo a dica do Sebrae – aquele minuto que estará presente em todos os episódios – me pareceu desnecessária e aleatória. Não acrescentou coisa alguma a mim e tirou o foco do andamento do programa, a parte que realmente me interessava.
Poderia ainda criticar o João Dória Jr. e a Carla Pernambuco, que a meu ver ainda não encontraram o tom apropriado para lidar com os candidatos… E poderia também criticar a falta do segundo T no nome do criador do programa, Mark Burnett (foi o mesmo crime cometido pelos primeiros episódios da sétima temporada), no começo da “abertura”.
No campo dos pontos positivos, ressalto o desempenho do Claudio Forner e a nova organização da sala de reuniões (embora o vento no ambiente tenha me incomodado). Gostei também da abertura em si, ainda que não tenha compreendido o porquê do tabuleiro e dos dados – toda vez que alguém diz que O Aprendiz é um jogo, os conselheiros e o João Dória Jr. atacam dizendo que não é jogo, que é a mais pura realidade. Logo… Talvez a ilustração tenha sido inapropriada.
Sem mais delongas, vamos ao desempenho das equipes. Os 16 candidatos foram divididos em times com nomes previamente escolhidos pela produção (o que é um erro, já que parte da graça de O Aprendiz é a eleição do nome da equipe por parte dos próprios concorrentes). A tarefa foi realizada em Belém e se dividiu em cinco partes, cada uma com pontuações específicas. A equipe Vanguarda venceu a prova da sobrevivência na floresta e garantiu a vitória na contagem final. No mais, seus membros foram só um pouco menos desorganizados que os da equipe Vetor. Todos terminaram as provas fazendo polichinelos, correndo maratonas e bebendo litros e mais litros de Amazon Power, mas deixaram a concentração e a estratégia para lá.
Na sala de reuniões, João Dória Jr. procurou se mostrar mais austero e incisivo. Carla Pernambuco e Claudio Forner criticaram o desempenho da equipe Vetor. Rodrigo foi acusado de arrogância e egoísmo, Suelen foi tachada como uma líder fraca e Tanyo teve que defender suas origens. No final das contas, com cinquenta e tantos minutos de programa, quem foi demitido?
Ninguém. Ninguém foi demitido. Se essa não foi a primeira vez em toda a história do programa (em qualquer lugar do mundo) em que ninguém foi eliminado na estréia, deve ter sido a segunda ou a terceira no máximo. Concordo que a prova foi infeliz e que a divisão das tarefas, talvez pensada como estratégia para avaliar de forma mais individual o desempenho dos participantes, acabou por dificultar a demissão de qualquer deles. Mas venhamos e convenhamos: para um programa que quer passar a imagem de “agora é pra valer”, a decisão de não demitir não vem como um certo quebra-clima? E que explicação foi aquela do João Dória Jr. depois do salvo conduto?
Enfim. Começamos a temporada com o pé esquerdo. Com uma audiência de seis pontos na Grande São Paulo, foi a pior estréia de todos os tempos. Resta saber se os fãs do programa agüentarão assistir a todos os episódios.
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P.S.: Eu uso trema. E eu escrevo palavras como “idéia”, “platéia” e “estréia”. Posso fazer isso até o final de 2012 (artigo 2º, parágrafo único do Decreto nº 6.583/2008). Portanto, caso você tenha lido sobre a reforma ortográfica no jornal da esquina e queira criticar, meu forte abraço.














