Transformando homens em feras.

Durante a antiguidade clássica, após acabarem os atos principais de uma peça de teatro, um dos atores proferia um discurso com a função de despedir-se do público e pedir perdão por eventuais falhas. É dos gregos, portanto, que surgiu o conceito de epilogo, o qual, atualmente, é um recurso muito utilizado em todas as formas de ficção. O nono episódio de Narcos, após o aparente fechamento da maioria dos arcos narrativos no episódio anterior, surge com essa função. No entanto, longe de representar uma conclusão ou falar de falhas inexistentes, La Catedral é um episódio que mostra que a força de Narcos não se limita apenas a trajetória real (e, portanto, finita) de Escobar. Sem a pressão de ter que se desenvolver tanto narrativamente, o episódio concentrou-se em explorar o íntimo de seus personagens, presenteando-nos com um espetáculo de atuações.

O episódio inicia-se mostrando-nos as comodidades que Escobar tem em sua prisão. É nesse ponto que confirmamos a primeira frase de Narcos: só o conceito de fantástico dentro da realidade poderia nos explicar o que vemos em cena, uma vez que os fatos parecem ser absurdos demais para acreditar. Porém, como a narração de Murphy confirma, embora Escobar esteja preso em um palácio, uma jaula é sempre uma jaula. E se estamos falando de jaulas, não é de se estranhar que dentro dela homens virem feras. Com uma paranoia crescente, Wagner Moura nos deleita com uma atuação excelente, representando o crescimento do egocentrismo de Escobar. Após a morte de Gustavo, o qual representava a âncora do traficante, Escobar cresce suas exigências tanto em relação aos seus próprios sócios quanto em relação aos acordos de paz com o cartel de Cali. Fica claro, repetindo o ciclo do terceiro episódio, que Escobar engrandeceu-se de maneira a esquecer dos negócios e focar exclusivamente na satisfação de seus desejos. E como ciclos conduzem a repetições de fatos, mais claro ainda que esse será o começo da verdadeira ruína do traficante.

Em paralelo, vemos os efeitos que “a grande mentira” produziu nos agentes do DEA e do Grupo de Busca. Carrillo, talvez o personagem mais consistente e empático da série, é enviado para a Espanha, enquanto Murphy e Peña seguem o objetivo de punir Escobar de forma justa. Cada vez fica mais nítido o entrosamento entre os dois, produzindo momentos divertidos, como a cena do pássaro, mesmo que a atmosfera esteja carregada de decepção. Porém, é Murphy quem protagoniza as melhores cenas, em uma atuação a la Um Dia de Fúria, mostrando que as diversas mortes desde Lara até os inocentes do bar pesam na consciência do policial e a Colômbia realmente o transformou. Como já citei em uma resenha anterior, o fato da série não caracterizar seus personagens em bons e maus eleva o seu nível e a torna tão palpável quanto poderia ser.

Se o descontrole é crescente em Murphy, é a paranoia já esperada de Escobar que determina o clímax do episódio, produzindo uma das melhores cenas que Narcos poderia oferecer. Sendo Pacho um alvo difícil para Escobar alcançar agora que está preso, o traficante dirige seu descontentamento aos sócios Moncada e Galeano. Um simples comentário da esposa de um e a desconfiança sobre a origem do dinheiro enterrado na terra de outro são o suficiente para produzir em Escobar o descontrole absoluto. Em uma cena chocante e inesperada, Pablo mata seu sócio a pauladas. E é a violência desnuda seguida pelo humor irônico de se queimar os corpos enquanto se faz um churrasco que dá uma inspiração tarantinesca a todo esse plot. Gostei também do fato da série não estabelecer culpados e inocentes, não esclarecendo qual seria a verdadeira origem desse dinheiro.

Com esse chocante acontecimento, fica nítido que Escobar precisa ser detido em sua ânsia descontrolada. Insinua-se então um acordo entre Cali e o DEA, uma vez que os recursos separados de ambos parecem insuficientes diante da grandiosidade de Escobar, principalmente quanto Gaviria tornou-se um fantoche nas mãos do narcotraficante. Porém, como o final do episódio mostra, talvez seja a própria opinião do público a verdadeira arma contra Escobar. Se a realidade é mesmo fantástica, podemos nos dar ao luxo de acreditar que a voz do povo pode ter algum valor. Resta apenas isso, afinal.

P.S Como essa é minha última crítica da temporada, já digo que foi um prazer cobrir essa temporada de Narcos 😉 Obrigada a todos e fique por perto porque em breve tem o texto do season finale pelo Guilherme.

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