Há mais ou menos cinco anos, muito antes de Mulher-Maravilha, a DC se via presa num labirinto aparentemente sem saída. Espremida entre o universo cheio de cores e desdobramentos da Marvel – que ganhou o público – e o tom dark e ultra cinematográfico (no melhor sentido da palavra) do seu próprio Cavaleiro das Trevas – que conquistou a crítica – o estúdio parecia não fazer a menor ideia de que caminho seguir em sua nova fase.

Como um chef de cozinha atrapalhado, ora eles entregavam uma salada temperada em excesso, lavada às pressas e difícil de engolir, ora um risoto queimado, sem gosto e igualmente intragável. Qual a melhor solução para um cozinheiro inexperiente? Pare de prestar atenção no prato do restaurante da esquina e faça o melhor feijão com arroz que você puder! É exatamente isso que Mulher-Maravilha faz: aquele feijão com arroz que você come lambendo os beiços depois de voltar de um jantar gourmet que você só engoliu pra não fazer desfeita.

Dirigido por Patty Jenkins – a primeira mulher a comandar um filme com orçamento superior a US$ 100 milhões – e roteirizado por Alan Heinberg – criador da série em quadrinhos Young Avengers, notória por apresentar um casal de super-heróis homossexuais – o longa nos apresenta a origem de Diana (Gal Gadot), a princesa das Amazonas, criada na escondida ilha de Temysciria, que parte para Londres na intenção de ajudar o piloto americano Steve Trevor (Chris Paine) a derrotar os alemães na Primeira Guerra Mundial. Conflito que ela acredita estar sendo causado por influência de Ares, o deus da guerra.

Mulher-Maravilha, o melhor filme da história da DC Comics

O único tempero novo – e saborosíssimo, diga-se de passagem – que Jenkins e Heinberg fizeram questão de usar em abundância foi o protagonismo feminino. Não apenas Diana, mas todas as mulheres são retratadas como autossuficientes. Fortes e talentosas naquilo que fazem, tendo homens que dependem diretamente delas (tanto o personagem que quer acabar com a guerra, quanto o que pretende elevá-la a um novo nível de destruição, precisam de mulheres para isso). E mais: O longa passa boa parte de seu primeiro ato sem apresentar um único personagem masculino, sendo que a forma como o primeiro deles é introduzido deixa claro que o tempo em que o público vibrava ao ver o Super-Homem voando sob Metrópolis com Louis Lane nos braços ficou para trás.

Outro benefício de termos uma mulher comandando a produção é que, se em Esquadrão Suicida, o fato de David Ayer insistir em manter as nádegas da Arlequina em quadro aproximava o filme da franquia American Pie, em Mulher-Maravilha, sinto-me incapaz de descrever a parte traseira do uniforme de Gal Gadot, pois essa só é mostrada quando se faz útil a narrativa (por exemplo, o momento em que Diana está prestes a sacar a espada escondida em suas costas para matar um inimigo importante). Por outro lado, posso afirmar com plena segurança que Chris Paine não tem marquinha de sunga, graças a uma cena entre ele e Gadot na ilha de Temysciria (cena esta que eu prefiro acreditar ter sido incluída como resposta bem-humorada a constante exploração da figura feminina em filmes do gênero).

Nos outros aspectos, o livro de receitas é seguido à risca. A partir do segundo ato, por exemplo, começam as piadinhas com intenção de descontrair a plateia. Elas poderiam facilmente quebrar o excelente clima que vinha sendo construído até ali, o que não acontece por dois motivos: 1) Mais da metade das piadas surgem do desconforto de Steve diante da superioridade – em todos os sentidos – de Diana. Uma situação tão nova no gênero, que não enjoa, apesar do filme se esforçar bastante para isso. 2) A maioria delas é dita por Gal Gadot, que provavelmente é a maior revelação feminina do cinema blockbuster desta década, e sem dúvidas é a melhor protagonista de um filme de super-herói nos últimos anos, sem que para isso precise se esforçar para ser engraçada ou badass o tempo todo.

O roteiro é beneficiado pelo fato de poder se concentrar em uma única protagonista, proporcionando uma narrativa fluída e que não perde tempo com cenas desnecessárias. Mas não podemos deixar todo o mérito por conta do material base, o trabalho de Heinberg é eficiente não apenas na construção do suspense e ao cumprir as expectativas criadas, mas também ao introduzir algumas rimas temáticas interessantes, como por exemplo, duas cenas envolvendo acidentes de avião, uma no início e outra ao final do filme. É claro que também temos o gritinho de ‘‘Nãããããão’’ e frases como ‘‘Só o amor pode nos salvar’’, mas como ambas saem da boca de Gal Gadot, nós fingimos que não ouvimos.

A trilha sonora é quase intermitente, chegando ao ponto de deixar o público anestesiado, e perder a função. Já o excesso de efeitos digitais nas cenas de ação prejudica o longa tanto pela poluição visual, quanto pelo fato de que daqui há poucos anos, a tecnologia estará datada e a próximas gerações certamente terão sua experiência diminuída ao assisti-lo  – algo que já ocorreu com os filmes da trilogia prequel de Star Wars e que demora mais para acontecer quando são usados efeitos práticos.

A fotografia é bastante eficiente, resolvendo de uma vez por todas um dos maiores problemas de identidade visual da DC ao equilibrar bem cor e sombra. Já o 3D, como era previsível, é dispensável.

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No fim das contas, apesar de um tempero a menos aqui e uma pimentinha a mais ali, o prato é aprovado e Mulher-Maravilha te deixa com um gostinho de quero mais. Todas essas analogias com comida não são à toa, afinal de contas já passou da hora de Hollywood se libertar de seus conceitos ultrapassados perceber que lugar de mulher é em todos os lugares: seja coordenando um set de filmagem ou empunhando uma armadura enquanto corre para enfrentar um inimigo (seja esse inimigo um ser mitológico ou um estúdio rival que – até agora – estava ganhando a briga).

REVISÃO GERAL
Nota:
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mulher-maravilha-melhor-filme-dcApostando no tradicional, a DC entrega seu melhor filme, parece encontrar seu rumo e ainda dá um importante passo para a representatividade feminina na indústria.