Mulher-Maravilha 1984 é uma ode oitentista otimista em sua essência, o que não incomoda nem um pouco no quesito entretenimento. Para mim, o maior problema do filme é como ele desenvolve os antagonistas da princesa amazona para depois tudo ser resolvido com a redenção completa e total dos personagens interpretados por Pedro Pascal (cada vez mais relevante em Hollywood) e da sempre ótima Kristen Wiig.
Isso acabou me provocando a sensação de anular completamente a narrativa desenvolvida até ali. Não houve consequências reais para tudo o que Maxwell Lord (Pascal) e Barbara Minerva (Wiig) fizeram, com o roteiro aplicando um gigantesco CTRL+Z ao final do longa-metragem.
Não me entendam mal: não estava esperando uma lição de moral, punição aos ditos vilões no estilo “o crime não compensa”. Isso seria muito maniqueísta e clichê, mas acredito que o roteiro poderia ter resolvido melhor essa conclusão. Mas talvez nesse mundo caótico semeado pelo ódio e por uma pandemia global, um filme otimista e inocente em suas intenções quase inócuas é tudo que a audiência precisa nesse momento.

Assim como no original Mulher-Maravilha, de 2017, o roteiro desanda justamente no terceiro ato, com a espalhafatosa batalha final com Ares, Deus da Guerra e principal antagonista oculto de Diana Prince. Revendo recentemente o filme para me preparar para a sequência, vi que esse terceiro ato me incomoda cada vez menos e o saldo final do filme continua sendo positivo.
Mas vamos às coisas positivas, pois também no caso de MM84 elas são felizmente a maior parte do filme. A sequência de abertura é de tirar o fôlego, com muita ação e nos presenteia com a rápida participação de uma das melhores personagens a habitar o universo de Diana, sua tia e mentora Antiope, interpretada por Robin Wright.
Na trama, Diana continua sua jornada heroica solitária, ainda lidando com a perda de seu grande amor, Steve Trevor. Não é segredo nenhum que ele retornaria desde os trailers, mas me preocupava como isso seria justificado de maneira plausível pelo roteiro.
E o resultado é satisfatório, pois não anula a grande perda que Diana sofreu e que serviu para o desenvolvimento e amadurecimento da personagem, ao mesmo tempo que a faz evoluir novamente como heroína, tendo que abdicar mais uma vez da companhia de Trevor (nessa versão fake) pelo chamado e clamado bem maior. Clássica jornada do herói.
Os momentos de alívio cômico com o personagem de Steve permanecem, repetindo a receita que deu certo no primeiro filme. Lá no original, era Diana quem adentrava um mundo estranho e novo culturalmente. Em Mulher-Maravilha 1984, cabe a Steve lidar com um mundo diferente do que conhecia, principalmente pelas novas tecnologias. Bem parecido com que outro Steve, o Rogers (Capitão América), passa em sua jornada após anos congelado no tempo.
Até mesmo o levemente caricato personagem interpretado por Pedro Pascal foge da mono ou bidimensionalidade típica de antagonistas rasos. Suas ações e motivações são bem justificadas na trama, com alguns flashbacks. A jornada dele é a que todo imigrante que passa por xenofobia nos Estados Unidos, mas que ainda assim incorpora o American way of life de eternamente buscar ser um vencedor a qualquer custo, jamais ser um perdedor.
A âncora de Maxwell Lord é seu filho, fofíssimo por sinal, que permite que o personagem se redima de todo mal causado em seu arco narrativo, e aparentemente sem sofrer nenhuma consequência qualquer.
A trama de MM84 aposta no fetichismo hype que tem estado em voga em torno da maravilhosa década de 1980. Várias obras audiovisuais tem explorado essa era atualmente (Stranger Things, It, American Horror Story: 1984, por exemplo). E os boatos de que a sequência, que assim como o original, não se passaria no presente e poderia alterar ou resetar o incipiente universo DC nos cinemas não se confirmou.
Outra antagonista de Diana Prince na trama é interpretada pela sempre excelente Kristen Wiig. Barbara também inicia sua jornada como a mais típica loser, invisibilizada e negligenciada no trabalho e na vida pessoal, que ao desejar ser Diana, bonita e popular por fora, acaba se transformando na Mulher Leopardo.
Considero decente as motivações da personagem, que guiam suas ações de forma crível. A sequência final de luta entre Barbara e Diana é muito bem executada, porém, mais uma vez aqui acontece o gigante CTRL+Z e a personagem é redimida, talvez se arrependa (não fica claro), e nenhuma consequência mais séria é aplicada na trama.
Há também outros ótimos momentos com Diana, como quando por exemplo nos deparamos com o famoso “jato invisível”, clássico das animações de Hanna e Barbara, que é justificado numa abordagem “Nolan”, fazendo sentido prático e objetivo, em uma sequência linda visualmente, porém que não faz a trama andar absolutamente em nada.

Outra boa surpresa é Diana finalmente aprendendo a voar, sem depender do laço para ficar se pendurando igual ao Homem-Aranha. É um momento catártico para a personagem (que passa por uma grande perda) e também para o público.
Mulher-Maravilha 1984 mantém a princesa amazona no seleto panteão de heróis da DC com bons filmes. Embora excessivamente otimista, inocente e inconsequente, é um filme necessário para o momento que o mundo atravessa.
Se talvez fosse mais ousado na trama, como em Homem de Aço (Superman mata Zod e destrói metade de Metropolis no processo) ou The Dark Knight (Batman se torna voluntariamente pária social em Gotham City para proteger a imagem de Harvey Dent), seria perfeito.
Agora nos resta aguardar Diana Prince alçar voos maiores e mais terrenos, perder essa aura muito idealizada e perfeitinha que, até mesmo para o maior herói clássico da DC, o estúdio já abriu mão.
De maneira inocente e quase pueril, Mulher-Maravilha 1984 é o filme que o mundo precisava, porém não o melhor que poderia ser em seu desenvolvimento narrativo.






















