Elio (Timothée Chalamet) é um adolescente abastado que passa os verões na paisagem bucólica do interior da Itália junto com seus pais, dois professores universitários. Quando um dos assistentes do pai, Oliver (Armie Hammer), chega para trabalhar numa pesquisa, o mundo do garoto se transforma, com sua identidade e sua sexualidade se desenvolvendo na medida em que os laços de amizade entre os dois se estreitam. Assim como Jacinto e Apolo, cujo trágico mito reflete de certo modo em Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017), que se utiliza dessa influência helênica (reparem nos créditos de abertura) para criar beleza em meio ao sofrimento e a perda amorosa.

Beleza clássica essa que acaba norteando o filme de Luca Guadagnino. Utilizando as paisagens italianas, uma fotografia que emoldura tudo em luz ensolarada ou escuridão comedida e cenários idílicos, Guadagnino demonstra uma estética apurada que acaba servindo de moldura para a narrativa do roteiro de James Ivory, que aqui a adapta a obra de André Aciman.
O diretor italiano inteligentemente foca em pequenos momentos para dar escopo e alicerce ao objetivo maior do longa. Seja em olhares correspondidos numa passagem pelo corredor ou toques íntimos roubados em um momento conjunto na relva, o relacionamento entre Elio e Oliver é o grande foco narrativo, que acaba servindo para o desenvolvimento do coming of age propriamente dito, mesmo que isso quebre o ritmo do filme em alguns momentos.

A química entre Chalamet e Hammer é palpável e transpira pela tela. Os dois atores conseguem transmitir o desejo e a urgência da relação em pequenos atos e pequenas trocas, seduzindo um ao outro e o espectador. Na intensidade, no entanto, Chalamet leva a melhor. O jovem doa corpo e alma ao personagem e é impossível chegar ao final do filme sem se identificar em algum momento com a sua interpretação, com sua entrega. Hammer corresponde, mesmo que em alguns momentos não consiga acompanhar o magnetismo interpretativo do seu companheiro de cena com seu Oliver.
O elenco coadjuvante também brilha. Michael Stuhlbarg, Amira Casar e Esther Garrel complementam o duo principal, cada qual em seu respectivo momento de necessidade na trama. Mas dentre eles é Stuhlbarg que rouba a cena. Com uma interpretação franca, o ator demonstra uma entrega em igual ou maior intensidade que Chalamet. E de quebra tem um dos diálogos mais emocionalmente tocantes do cinema recente.

Se desprendendo de clichês e julgamentos pré-concebidos, o filme vai construindo lentamente o panorama de descobertas de Elio e assim explorando diversos temas inerentes ao cotidiano em que a história se passa sem recorrer ao drama excessivo, nem ao choque para ganhar a empatia do espectador. A qualidade disso é que a sexualidade não é uma incógnita. É tratada de modo natural (como deveria ser) e não de modo pirotécnico e espalhafatoso.
Me Chame Pelo Seu Nome é um belo e singelo retrato da (às vezes deliciosa, outras vezes cruel) descoberta do primeiro amor, não importando o que você seja e sim o que você sente. É uma obra que lida de modo magistral com as emoções e com a sensação agridoce de descobrir que crescer dói. Uma dor necessária, mas não menos sentida.
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