Um episódio resumido em três beijos.

A chegada ao Buell Green não representou um porto seguro para Bill e seu estudo: se, de fato, seus antigos sujeitos (brancos) se recusam a continuar participando, tampouco o diretor do hospital, Hendricks, vê a iniciativa com bons olhos – a ponto de proibir que seus funcionários se voluntariem.

Na verdade, não é difícil de compreender os motivos de tal recusa. Hendricks explica muito bem (méritos do texto) as questões envolvendo o racismo científico que levaram a diversas práticas envolvendo a utilização de negros e pobres como sujeitos em experiências que hoje seriam absolutamente reprováveis como antiéticas. Hendricks é um cara que alia a mentalidade de um empresário, bem como mantém um senso de proteção da comunidade negra, a ponto de perceber o perigo da repercussão pública e a possibilidade do reforçamento de estereótipos sexuais comumente atribuídos à população negra (tamanho do pênis, comportamento lascivo, irrefreável, etc.).

Não tá fácil para Masters. Sua autoconfiança e desejo por pioneirismo estão levando à difícil posição em que os “gênios” se defrontam: não saber lidar com as ordens e limitações ao seu gênio criativo. A entrevista com a jornalista seria uma boa oportunidade para ele, já que ela tentou (adequadamente) vender sua história como uma biografia de superação e de rejeição pelo establishment branco moralista, o que lhe poderia render a identificação da comunidade negra. Entretanto, Masters não soube lidar com tal ingerência sobre sua imagem. O narcisismo falou mais alto e o resultado? Mais um episódio em que Masters termina desempregado!

No que tange aos três beijos mencionados na epígrafe deste texto, refiro-me, em primeiro lugar, a Bill e Virginia. A intimidade entre os dois cresce a cada dia. Ainda que o romance de ambos seja praticamente platônico, esta intimidade esteve clara para nós tanto quando vimos Virginia chorar no ombro de Bill, desabafando sobre sua angústia acerca de Lillian, como no primeiro beijo do casal (antecedido de mais uma belíssima cena de sexo, na abertura do episódio!).

A situação de Virginia não está menos árdua que a de seu consorte. O desdobramento da doença de Lillian lhe causou muito sofrimento, especialmente pela constatação de que era ela sua única amiga. Aqui se insere o segundo beijo, aquele selinho ofertado como manifestação de afeto e de despedida. Lillian encerrou sua participação dignamente, com a recusa de enfrentar a deterioração causada pelo tratamento e com a resoluta disposição de entregar seu corpo para a ciência.

Por fim, tivemos o beijo entre Betty e Helen, nesta adequada abordagem da homossexualidade feminina em tempos de total machismo e silenciamento normativo das sexualidades desviantes.  A descoberta de Gene do amor de Betty por Helen é mais uma difícil cravada no bonachão de bom coração. Aqui temos uma situação que é bem parecida à de Barton e Margareth (a propósito, onde eles estão?? Por favor, voltem logo de Veneza!!!). É bem verdade que Betty foi interesseira ao se casar com Gene, além de enganá-lo quanto à sua orientação sexual. Mas as coisas não são assim pretas ou brancas: Betty também é vítima de uma estrutura social que lhe relega a arranjos para ocultar sua condição (agravada pela questão da prostituição) e para uma mulher, estes arranjos passam necessariamente por se casar.

Tal estrutura é a mesma que leva a Virginia ao namoro com Shelley, cliffhangerianamente descoberto por Bill quando ele esta desolado indo à sua casa desabafar. Virginia não pode ficar à mercê de Bill enquanto uma mulher descasada, às sombras como “a outra”. O platonismo do romance de ambos parece [como de fato ocorreu em suas biografias] que permanecerá por mais algum tempo.

Blackbird mantém o bom caminho que a série do casal Masters & Johnson vem fazendo nesta temporada. Construção de personagens e dinâmica narrativa estão muito bem entrosados.

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