De guerras, paz e petróleo.
Quem assiste a uma série de ficção dificilmente está procurando uma aula. Ninguém quer uma aula de química de Walter White ou aprender sobre o mercado publicitário com Don Draper. Ainda assim, é louvável a capacidade que Barbara Hall, criadora e produtora-executiva de Madam Secretary, e seus roteiristas têm demonstrado de destilar problemas intratáveis da geopolítica em simplificações ligeiras, mas bastante perspicazes para uma série de TV.
Em todos os textos que escrevi até aqui sobre a série, em algum momento conectei o “caso da semana” a um evento real saído do noticiário, e o quanto essa apropriação foi feita sem forçar a mão no didatismo. Nessa semana, o caso das relações entre EUA e Canadá e da construção de um oleoduto foi inspirado no Keystone Pipeline System, um projeto de oleoduto que ligaria Alberta, no norte do Canadá, a Nebraska, Illinois e Texas nos EUA. Sem querer correr o risco de matar o leitor de tédio, vamos resumir e dizer que o projeto está emperrado dentro do governo americano há anos, com interesses econômicos, ambientais e políticos misturados para todo lado. É de admirar que em um episódio tão cheio como esse, centrado em negociações diplomáticas sobre o Irã, e não no caso canadense, a série tenha conseguido oferecer o argumento básico sobre o assunto – o oleoduto pode ser bom pra economia, mas tem opositores ferozes no movimento ambiental.
A trama sobre o Irã também é bem atual; há atualmente um processo de negociação sobre o programa nuclear iraniano ocorrendo e chegando perto da conclusão em Viena. Há poucas chances de John Kerry tirar um coelho da cartola como Bess fez aqui, mas fica reforçado o elogio sobre a capacidade da série de tratar de temas quentes.
Mas se fosse só uma forma condensada do noticiário internacional Madam Secretary seria uma série bem pior do que vem se revelando. Na medida em que os personagens da série vão ganhando histórias e o que fazer, a série vai ganhando personalidade e um ritmo próprio. Eu ainda acho que o núcleo familiar ocupa demais o tempo dos episódios, mas nesse ao menos o “arm candy” (sério, que expressão incrível; a tradução, impossível, seria algo como “o doce que fica pendurado no braço de alguém importante”) Henry teve o que fazer ao discutir sobre seu trabalho como teólogo e sua carreira militar com o filho caçula. Eu tenho que dizer, contudo, que achei o raciocínio sobre como Lutero, Inácio de Loyola e Joana D’Arc tem muito que ver com inconformados políticos modernos como o moleque (que se diz “anarquista”) me pareceu mais instigante e original do que a conversa pro forma sobre voar jatos na primeira Guerra do Golfo e o fato de ele já ter matado.
(Digressão tirada de experiências pessoais: se em algum momento da sua vida você se encontrar diante de um veterano do exército americano, a pergunta “você já matou alguém?” é a ÚLTIMA que você quer fazer. Acredite. Primeiro, porque você não quer saber a resposta, não de verdade. Como essa pergunta pode ter uma resposta honesta que não seja horrível? E, principalmente, porque a pessoa com que você estiver conversando realmente não quer ter de te dar uma resposta).
As tramas principais correram fluídas. Ainda que ver Bess salvando o mundo toda semana esteja ficando cansativo, foram excelentes as cenas de Téa Leoni com os atores convidados – John Finn como o embaixador com uma agenda própria para as negociações com o Irã; Usman Ally como o embaixador iraniano; e o grande Robert Klein, um dos pais fundadores da comédia stand-up, claramente se divertindo uma barbaridade como o embaixador canadense “com raiva” – para os padrões do Canadá, pelo menos…
A comédia ficou por conta dos três pesos-leve do time da Secretaria de Estado: os desencontros amorosos de Daisy e Matt (quem dá a mínima? Eu não) e a divertida brincadeira sobre a orientação sexual de Blake, que está num “relacionamento” com “Chris”, e que me fez dar uma risada na cena no jantar.
Quanto mais a trama avança, menos simpatia eu tenho pelo finado Marshall e suas agendas escusas com o negociador pro Irã e o relatório picareta sobre o oleoduto. Bess terminou o episódio lembrando a audiência que ela era, sim, da CIA, ao pedir uma investigação sobre Nadine: ex-amante do predecessor dela, a Secretária tem toda razão do mundo para desconfiar da assessora.
Pontos também para a evolução na relação entre o presidente e Bess, que tiveram uma conversa interessante sobre guerra e paz e sobre o que é escolha e o que não é no círculo de poder de um país que tem a força que os Estados Unidos têm, e que serviu para ligar os pontos entre Irã, Canadá e a dependência energética da potência. Não foi sutil como The Good Wife sabe ser ao discutir temas políticos ou corajoso como a recente (e excepcional) minissérie britânica The Honourable Woman foi, e também não teve aquele texto barroco que uma conversa daquela teria num universo criado por um Aaron Sorkin, mas foi sólido e inteligente e honesto, sem subestimar a inteligência do público amplo que assiste a uma série na CBS.
Na medida em que os custos da guerra e da paz se misturaram com as ambições, medos, ideologias e agendas privadas de seus personagens, Madam Secretary seguiu em frente, colocando questões interessantes de forma talvez não propriamente original ou revolucionária, mas com mais propriedade do que 90% da concorrência.















