Estão prontos?

Mad Men é uma série cruel. Importando-se em ser extremamente orgânica com seus personagens, não se furta em colocá-los em situações trágicas e desafiadoras. Ao se aproximar de seu final essa situação não poderia ser diferente. A coerência narrativa mostrada por Matthew Weiner ao longo de sete anos teria de culminar em destinos compatíveis para suas criações, independente de isso configurar um final infeliz ou não. Assim, quando olhamos para The Milk and Honey Route, é impossível não nos vermos compelidos a temer pelo futuro destes quando o vemos extremamente distantes de um mundo perfeito.

O episódio, escrito por Carly Wray e Weiner e dirigido pelo próprio showrunner, mostra um Don Draper preso em Oklahoma após seu carro passar a apresentar problemas. Lá, se reencontra com elementos de seu passado ao ir a uma festa de veteranos do exército. Enquanto isso, Betty luta com a notícia de que tem poucos meses de vida, recusando um tratamento que poderia estender sua vida. Finalmente, Pete recebe de Duck Phillips a chance de abandonar o mercado de publicidade para aceitar um emprego na área de marketing de uma empresa aérea dedicada a clientes ricos.

É curioso que Weiner tenha decidido por criar um episódio que antecede ao series finale focando-se apenas em três personagens. Isso deixa um número limitado de minutos para que Mad Men encerre as histórias de pessoas como Roger e Peggy. Essa estratégia, embora fuja do lugar-comum, é a mais acertada, já que evita que os momentos finais da série sejam desperdiçados com uma bagunça narrativa. Isso seria uma afronta à beleza narrativa da criação de Weiner, sempre cuidadoso com os rumos de cada um de seus personagens (exceto, talvez, Bob Benson). Dessa forma, se em Lost Horizon vimos Joan encerrar sua trama ao sair da McCann Ericsson, aqui é a vez de Pete e Betty passarem seus bastões.

Dentre os dois, é Betty quem recebe o destino mais cruel. De certa forma, não há nenhuma surpresa nisso. Mad Men tem como mote destruir qualquer pessoa que tenha tido qualquer contato íntimo com Don Draper. Se na quinta temporada isso significava apenas se sentir gorda diante da bela nova esposa do ex-marido, aqui isso ganha um contorno completamente diferente. Embora a série sempre tenha sido focada em mostrar seus personagens fumando cigarros, o câncer de Betty é mais do que apenas uma lição de moral criada por Weiner. É um presente que seu protagonista deu a ela, um efeito crônico de seu relacionamento tóxico, mesmo que depois tenha atingido uma vida feliz com Henry.

Aliás, a cena em que somos apresentados à tragédia é belíssima. Enquanto vemos Betty subindo vagarosamente as escadas enquanto os outros alunos as vencem com extrema facilidade, a série nos dá a entender que ela vive apenas uma crise de idade, se sentindo velha e incapaz diante de pessoas tão mais novas. Após o acidente, o fato de ter sido apresentada como Mrs. Robinson confirma a essa tese. No entanto, ao compreendermos que a situação é muito mais séria, somos invadidos por um sentimento de culpa e tristeza.

Nesse aspecto, a reação de Sally à notícia é curiosa. Sempre tratada pela série como uma versão infantil de Don, é curioso a vermos apenas atônita enquanto Henry se derrama em prantos. Depois, no entanto, ao finalmente se dar conta de que perderá a mãe, o choro é inevitável. Nesse momento, novamente, Mad Men é brilhante ao matar Betty Francis sem de fato fazê-lo. Enquanto Sally lê a carta dela, praticamente assistimos a seu velório, mesmo que Betty esteja com vitalidade suficiente para continuar frequentando suas aulas. Dessa forma, de novo sentimos enorme remorso por vê-la destruída logo quando está finalmente aproveitando sua vida.

Já para Pete, Mad Men cria um final aparentemente feliz. É curioso vê-lo deixando New York após anos tentando construir sua vida no mercado publicitário na cidade. Desde o primeiro momento, o grande sonho dele era se ver como um membro importante desse grupo. Quando finalmente consegue, como sócio de uma importante agência, surge Duck. A maneira gradativa como ele é convencido a ir para Wichita é interessante, iniciando-se por uma recusa inicial, passando pela tentação em reviver velhos tempos com Trudy até o momento em que decide largar tudo somente para recomeçar sua vida com sua ex-esposa. Note que Pete, sempre ganancioso, não o faz pelo dinheiro ou pelo luxo do novo emprego, mas pela simples oportunidade de ter sua família de volta.

Coisa que Don jamais terá. Não apenas porque seu modelo de família está mais do que falido, mas porque está distante das terras que o consagraram. Em Lost Horizon tínhamos dúvidas do que sua libertação significaria, mas The Milk and Honey Route deixa isso muitíssimo claro. Preso em Oklahoma, é excepcional como Weiner prende seu protagonista a seu passado, primeiramente através de pesadelos, mas depois disso por meio de situações extremamente reais. Ao atirá-lo em um encontro de veteranos, é interessante vê-lo temeroso de revelar até mesmo sua face a alguém que esteve na Coreia.

Além disso, era inevitável que Don em algum momento levasse uma surra de seu passado. Nesse caso, literalmente. Ao ser acusado de ladrão por conta de uma armação de um garoto, ele chega a uma simples conclusão: para se livrar do passado, é necessário muito mais do que apenas abandonar seu emprego e sua cidade. É preciso livrar-se também dos frutos dessa antiga vida. Assim, quando o vemos abrindo mão dos US$500 supostamente roubados por ele e até mesmo de seu luxuoso carro por um menino que, embora imaturo, não deixa de ser uma versão mais moderna do que o próprio Don/Dick fora, o vemos concluindo uma lenta transição que culmina em sua total liberdade.

O que esse rumo significará para Don Draper, ninguém sabe. Apenas uma coisa é certa: Mad Men certamente terminará de maneira muito próxima a que começou. Como uma narrativa extremamente bem construída e rica.

Artigo anteriorGrace and Frankie 1×07: The Spelling Bee
Próximo artigoThe Mindy Project | Série é “descancelada” pelo Hulu