Quando Don Draper precisa pagar por seus pecados.

Não é segredo para ninguém que Mad Men é um estudo de personagem sobre Don Draper, um típico anti-herói. Por isso, é natural que a série, se encaminhando para seu final, seja praticamente toda focada no destino do personagem e nas consequências de seus atos. Assim como Vince Gilligan e sua genial Breaking Bad, Matthew Weiner não se preocupa em desenhar um cenário feliz para seu protagonista, procurando desenhar um caminho para ele que se revela como curso natural pela forma com a qual o mesmo trata a vida e as pessoas ao seu redor. Exatamente por isso, estes Field Trip e The Monolith se comunicam com perfeição para passar ao espectador uma claríssima mensagem.

Tudo isso passa pela empatia que o espectador tem por Don Draper. A identificação com o personagem, estabelecida ainda na longínqua primeira temporada, provoca um inevitável sentimento de pena e “torcida” para que o protagonista consiga se livrar da situação na qual se encontra. É curioso que, ainda que o vejamos traindo, mentindo, e cometendo uma infinidade de atrocidades, a maneira frágil utilizada por Weiner para ilustrar o momento de Don é suficiente para que o coloquemos na posição de vítima, enquanto outras pessoas, como Bert, Jim e até Megan se transformam em empecilhos para que o herói encontre sua felicidade.

Field Trip mostra precisamente essa faceta do personagem, colocando-o sempre em seu apartamento repleto de sombras, ao mesmo tempo que a SC&P é mostrada como de costume, carregada de luzes e alegrias. Da mesma forma, Don logo se vê seduzido por mulheres e bebidas, como se tudo isso fizesse parte do universo de sua grande droga, que é trabalhar no universo da publicidade, do qual ele não consegue se ausentar. Aliás, note como as atitudes do personagem, sempre evasivas, levam a situações em que suas mentiras levam a conclusões precipitadas. Não é à toa, por exemplo, que Megan acredita estar sendo traída, e que se sinta ainda pior ao descobrir a verdade.

Ao mesmo tempo em que mostra Don em uma situação de evidente necessidade, Mad Men procura mostrar seu poder corruptivo ao sempre interpolar seus momentos de angústia e desespero causados pelo tédio com a situação de Betty. Note como Field Trip logo estabelece suas intenções ao exibir uma conversa entre sua ex-mulher e sua amiga Francine, em que esta última equivocadamente utiliza o sobrenome “Draper” para definir Betty. O que serve como gatilho para que ela tente se envolver melhor na vida de Bobby, mas evidenciando mais uma vez que a figura dos filhos inevitavelmente a faz lembrar de Don, e do mal que este fizera a ela em seus anos de casados. Aliás, esta é exatamente a função da personagem nesta sétima temporada, já que tudo em seus diálogos remete sutilmente a isso, como podemos ver em seu comentário julgando a blusa da professora de Bobby.

Diante de tudo isso, é perfeitamente compreensível a atitude de Don, que procura Roger procurando ao menos reatar a amizade entre os dois, para que possa voltar a trabalhar na SC&P. Aliás, a sequência em que ele adentra o local é interessantíssima, a começar pelo choque da mudança ao ver que Dawn agora ocupa a posição de Joan. Mas principalmente pela frieza com a qual pessoas como Peggy, sua cria, o tratam, mesmo quando é com ela que Don consegue se abrir com maior facilidade. Ao mesmo tempo, pessoas que sofreram menos com as péssimas decisões tomadas pelo protagonista, como Stan ou Ginsberg, se revelam evidentemente como indivíduos que sentem falta do trabalho criativo de Don. Ele próprio não consegue se segurar e logo pede atualizações sobre contas e trabalhos. Esse diálogo é a prova cabal de que ele é incapaz de viver sem isso, o que o leva a aceitar as insanas condições impostas pelos parceiros para que seja aceito de volta.

Isso nos leva a The Monolith. Se os minutos finais de Field Trip dão a entender que os problemas de Don começam a se resolver, aqui vemos que a situação é o oposto disso. O episódio busca a todo momento posicionar o protagonista em uma via crucis, isolando-o a todo momento do restante da SC&P, como podemos ver quando ele sequer é avisado da instalação do computador, algo que, ao contrário do que é dito por Roger, não precedeu seu retorno. A remoção do lounge da equipe criativa representa mais uma derrota de sua pessoa, já que toda a concepção do time é do próprio Don, quando a empresa fora criada.

Em outras palavras, toda a guerra silenciosa travada dentro da agência é simbólica, procurando envolver Don Draper em uma sequência de fatos que o façam pagar pelos seus erros. O momento mais emblemático é exatamente o fato de ter de trabalhar para Peggy, que ainda que não morra de amores por Lou, prefere se aliar a este a voltar a ficar do lado de seu ex-chefe, o que podemos observar quando ela, inconscientemente, pratica o mesmo ato de virar-se para a janela executado por Lou minutos antes, em uma inteligente decisão do diretor Scott Hornbacher de aproximar os dois.

Enquanto isso, The Monolith trabalha em Roger de forma semelhante ao que acontece com Betty no episódio anterior. No entanto, aqui Weiner procura mostrar seu personagem como uma figura de mente aberta, justificando sua fé em Don, ao invés de aproximá-lo do protagonista para evidenciar seus erros. Mas Roger funciona também como uma figura individual, o que cria uma interessante trama em que ele evidentemente se revela receoso de que Meredith se torne igual ao pai, traindo seu marido como se aquilo fosse normal. Aliás, é interessantíssimo que Mad Men invista em Roger como uma pessoa arrependida de seus atos e motivada a exorcizar seus demônios, já que isso cria no espectador a ilusão de essa mesma motivação se dará em Don.

Ainda que todos esses cenários sejam importantes para o desenho da temporada, é o simbolismo de The Monolith que estabelece a verdadeira transição de Don para uma nova fase, tanto na vida como na SC&P. A flâmula do New York Mets, encontrada logo no início do personagem, e símbolo de seu relacionamento com Lane Pryce, traz Don de volta ao passado, seus tempos áureos como diretor criativo, e quando seus problemas não interferiam no resultado de seu trabalho. Por isso, é razoável que ele não hesite em pendurá-la na parede, no exato mesmo local que Pryce o havia feito, anos antes. Por outro lado, o computador instalado representa o futuro, e com ele a incerteza dos meses que virão. Note que, mesmo que Don procure conviver com a mudança por algum tempo, ele logo esbarra nos mesmos erros do passado ao qual ele tanto se prende, como podemos ver quando ele tenta, inutilmente, levar um novo negócio a Cooper.

Vendo-se encurralado, é natural que Don procure voltar ao passado. O que cria um diálogo memorável em que ele, dirigindo-se a um jogo dos Mets, profere frases sem sentido algum ao pobre especialista em computadores, como se desafiasse o futuro enquanto se atém em definitivo ao passado. Seu erro, no entanto, é se esquecer que o passado é exatamente o que faz seu futuro ser uma incógnita. Por isso, não é por acaso que Don jamais chegara ao jogo, tendo apagado dominado por seus próprios demônios. Assim como não é coincidência que o mesmo Freddy que é ridicularizado por todos seja o único capaz de cuidar de Don e fazer com que ele encare o futuro como uma nova aventura.

Afinal, quem melhor para começar uma nova vida do que novos amigos?

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