Mentiras, mentiras e mais mentiras.

A cena que abre Time Zones é um cenário perfeito do que Mad Men representa. Posicionando um personagem sem grande significância proferindo um discurso vendedor típico do protagonista, impressionando até mesmo a ex-colega de trabalho, esse momento cria precisamente o que a série procura retratar. O ser humano comum transformado em algo desejável através da propaganda e da visão criativa de um publicitário. Assim, Mad Men inicia sua temporada de despedida trazendo a série em sua essência, em um excelente season premiere que procura direcionar seus personagens em direção a novos rumos.

Escrito pelo showrunner Matthew Weiner, o episódio se divide em algumas tramas principais. Na mais importante delas, Don visita Megan em Los Angeles, supostamente para trabalhar, enquanto encontra Pete em um restaurante. Já Peggy tenta convencer seu novo chefe, Lou, de que a ideia de Freddy – modificada por ela própria – é muito melhor que escolhida por ele, procurando sem sucesso provar que sua intuição é mais digna de ser prestigiada que a dele, enquanto sofre com a presença de Ted no escritório. Alheio aos negócios, Roger se encontra com sua filha, em um bizarro café da manhã. Finalmente, Joan busca recuperar um cliente enquanto Ken se mata com uma infinidade de clientes.

Por mais estranha que possa parecer a atmosfera de recomeço que Time Zones evoca, essa ideia se apoia no discurso de Don em In Care Of para seus filhos, em que ele próprio reconhece precisar compreender quem realmente é. Por esse motivo, Mad Men passa boa parte de seus 47 minutos revelando como seus personagens viveram os dois meses que se passaram desde a forçada saída de Draper da SC&P. Aliás, é algo que a série faz com frequência em inícios de temporada, já que usa os hiatos para provocar longas passagens de tempo, como uma forma de conseguir explorar todo o período que pretende exibir.

Esse premiere, como sugere a frase que encabeça este texto, é todo rodeado de mentiras. Podemos ver isso acontecendo em todas as tramas tratadas por ele, nas mais diferentes formas. Peggy, por exemplo, entrega a Lou uma ideia na qual não acredita, e se revolta ao ver seu chefe escolhê-la ao invés da que recebeu – e modificou – de Freddy, agora um freelancer. A situação da personagem dentro da empresa é evidente. Weiner procura explicitar a falta que Don faz na SC&P através do sofrimento de sua ex-protegida, que sente falta da forma criativa com a qual Draper lida com a parte criativa da propaganda. A única pessoa que poderia substituí-lo, Ted, a envergonha de forma acachapante, tornando-a uma desastrada que mal sabe o que faz. Ao mesmo tempo, sofre com problemas em sua casa, transformando até seus momentos mais relaxados em uma tortura implacável. O que explica o momento em que desaba em lágrimas, farta de ver sua paixão tornar-se algo cansativo e maçante.

O mesmo podemos ver com Joan. Se ela não compartilha com Peggy o fato de se ver sem nenhum padrinho que a admire, é evidente a frustração dela ao tentar se reunir com um cliente apenas para ouvir do mesmo que ele estaria deixando a SC&P. Como uma boa discípula da mentira provocada pela Madison Avenue, Joan não se conforma, e procura conhecimento básico para conseguir vender uma imagem de si mesma mais entendida de negócios. Note que a presença de Ken nesse arco tem função apenas de mostrar que, independente de quem seja, um discurso polido e aparentemente embasado é suficiente para assustar um cliente desejoso de sair.

Por sinal, Roger é o único personagem em Time Zones que se distancia completamente da Madison Avenue. Mas isso não significa que ele não a tenha em seu coração. Seu momento de vida libertino contrasta com sua filha, que aparentemente encontrou uma forma de perdoar o pai através do amor. Essa trama tem como principal função mostrar a reação de um “mad man” a um elemento espiritual tão forte. E o diálogo entre os dois, regado a bloody maries , é hilário exatamente por esse motivo, trazendo um incrédulo Roger, que não entende os motivos de sua filha, recusando-se a acreditar que ela está lá apenas para perdoá-lo, sem querer absolutamente nada em troca.

Mas quem possui a melhor face da Madison Avenue se não Don Draper? Time Zones trata o personagem de maneira interessantíssima. Note, por exemplo, como o episódio demora para mostrar o protagonista pela primeira vez, provocando um crescente sentimento de ansiedade no espectador. Provoca também choque, ao exibi-lo radiante diante de Megan, de carro novo, insinuando que, mesmo após a queda, Don segue exatamente o mesmo.

No entanto, tudo não passa de enganação. Logo percebemos que Megan não sabe sobre o afastamento de Don, achando que o marido está em Los Angeles a trabalho. Essa mentira revela o medo que o protagonista tem da esposa. Time Zones procura o tempo todo mostrar que, ainda que Don esteja quase sempre acompanhado, ele na verdade está muito sozinho. Vemos isso acontecer quando sua esposa é incapaz de fazer sexo com ele, ou quando tenta de forma frustrada dar em cima da corretora de imóveis de Pete. Mas o momento mais emblemático é quando retorna a New York, e sua bela companheira de poltrona revela que seu desejo de sempre se sentar com uma mulher como ela é culpa da mesma Madison Avenue que o expulsou sem dó nem piedade.

É nesse momento que temos a certeza de que o discurso penetrante de Freddy no começo do episódio é de autoria de Don. Prova de que Draper jamais conseguirá se livrar do lugar que o criou como pessoa e o livrou de Dick Whitman. Mais do que isso, revela uma dependência quase química de encantar clientes com sua criatividade infindável. Mas, independente dos talentos ressaltados por Freddy, é evidente que o sucesso de seu trabalho não faz diferença para Don. Por trás do fantástico publicitário, não há nada além de uma casca vazia, que se sente mais confortável no frio de sua varanda do que no conforto de seu belo apartamento.

Nesse momento, surge a pergunta: qual será a próxima mentira?

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