
Os passos básicos para superar o cancelamento de sua série favorita.
Spoilers Abaixo:
Ter como protagonista de sua série uma daquelas pessoas que pode ser vista como a pura definição de um anti-herói é um enorme benefício por inúmeras razões. Os segredos, a flexibilidade que suas ações podem render tanto a curto como em longo prazo, o modo como seu caráter se altera com o passar do tempo e como aqueles que estão ao seu redor se comportam diante disso… Não é surpresa que as melhores séries dramáticas que passaram pela televisão tenham protagonistas e/ou uma enorme gama de personagens que sejam justamente classificados por essa alcunha. Entretanto, o ponto chave que faz com que figuras como Don Draper sejam um excelente acompanhamento semanal é o caminho que eles escolhem para enfrentar a decepção.
Abordei isso em outros textos, mas é notável como a sexta temporada carrega nas costas essa desistência arrogante que Don possui após passar o quinto ano procurando a felicidade no seu casamento com Megan. Nenhum episódio da temporada comete um erro de proporções gigantes justamente por apostar na figura bem estabelecida do protagonista para guiar tudo. Entretanto, por essa razão também não consigo classificar esses episódios anteriores como geniais ou qualquer adjetivo mais contundente. “The Crash” é uma aposta de altos riscos que a série faz com os próprios conceitos da temporada, passando do Don controlador de semana passada para um instante de fragilidade executado de uma forma tão bizarra quanto às cenas no hotel. Se ser anti-herói é ótimo, ser um anti-herói desesperado é ainda melhor.
A única alternativa que Don tem após o fim de seu relacionamento com Sylvia é colocar o rabo entre as pernas e seguir em frente. Pode ser um raciocínio óbvio, mas a própria prepotência do personagem não permite que ele veja isso, uma incredulidade que a conversa dos dois no telefone estabelece logo. Aliás, um dos meus momentos preferidos do episódio está na sutileza desse diálogo, que coloca Sylvia repreendo o comportamento obsessivo dele, invertendo a balança do poder que observamos semana passada. Essa repugnância em enxergar instaurada com as cenas iniciais pode ser superada apenas com… drogas? Talvez essa seja a razão que faz com que Roger participe de poucas cenas, uma maneira de Mad Men brincar com si mesma depois do que vimos na quinta temporada.
Essa é uma premissa que é construída perfeitamente até aquela epifania final. É até sensacional o trabalho de direção na última cena, oferecendo o máximo de tempo possível para que todo aquele momento de Don seja bem absorvido antes que os créditos subam. Antes disso, começamos sob os estágios iniciais dos efeitos de entorpecentes (esse comentário é baseado mais em achismo, sem experiências reais por minha parte para garantir a veracidade), Stan e Cutler apostam corridas e ideias estúpidas são lançadas por aqueles que deveriam ser os gênios da publicidade. A partir disso, somos literalmente atirados em uma jornada de reflexões que arquitetam toda a narrativa do episódio. Um dos melhores aspectos de “The Crash” é que ele é divertidíssimo de ser visto baseado no simples experimento que a premissa propõe. Conhecemos um lado daquelas pessoas e a proposta aqui é alterá-las enquanto elas estão trabalhando na campanha mais importante de suas vidas. Nesse contexto, tudo é oferecido com uma ingenuidade excepcional, sendo complementado perfeitamente por flashbacks de como Don Draper perdeu sua virgindade.
Stan é um deleite de ser acompanhado ao longo do episódio. O mais interessante é que ele segue quase que o mesmo caminho de Don. Lógico, com uma intensidade menos dramática e mais direcionada ao humor, mas isso não o impede de ser fantástico nos dois quesitos. Seu comportamento ao ser o alvo daqueles arremessos consegue ser tão engraçado quanto seu diálogo com Peggy é emocional. Olhando todos os segmentos, “The Crash” é um episódio que lida bastante com questões como dependência e como se recuperar depois de uma perda. Stan resume isso em suas ações, nos relembrando mais uma vez como essa série é ótima na hora de trazer seus personagens secundários ao holofote ao mesmo tempo em que o protagonista continua sendo o centro do universo. Na mente dele, sexo é a resposta para o fato de o seu irmão ter sido morto. Peggy não acredita nisso, provando como ela está em uma disputa séria com Ken e Bob na competição de ser a melhor pessoa do mundo, sendo apoiada também graças à sua decisão de confortar Ted após a morte de seu amigo. Além de introduzir essa bela cena entre os dois, a subversão final é uma puxada de tapete bem executada, levando-a a não aguentar mais estar ali enquanto Stan finalmente consegue aquilo que ele (acha) que quer.
Afinal de contas, nenhum personagem sabe exatamente o que quer em “The Crash”. Todos estão desorientados mesmo antes de estarem sob o efeito de drogas, com a campanha do Chevy mostrando-se como um desafio estressante para aquelas pessoas. Ken, lógico, é a segunda principal vítima da semana (Ted leva o título), sendo um dos meios pelo qual observamos logo como esse episódio se mostra diferenciado na primeira cena. Poderíamos comentar mais sobre o personagem, mas é injusto debater o quão sensacional é o seu sapateado quando a internet proporciona .gifs com a cena.
Os efeitos da dúvida de como reagir é o que guia Don Draper no episódio. Ele é enquadrado diante de todos os ângulos existentes, como visto na atordoante cena da escada, e todos eles refletem justamente essa desorientação. Ele anda pelos corredores, é o mais perdido do escritório, procura respostas para o problema errado, não reconhece a hora (muito menos o dia) e deixa seus filhos a mercê de ladras. Não saber para onde ir depois do seu rompimento com Sylvia é um pensamento levado em um sentido completamente literal, um experimento até mesmo peculiar para uma série completa de simbolismos. Sua função no escritório é vender, mas suas pernas estão completamente cortadas porque ele não faz a mínima ideia de como fazer isso nos casos em questão. Don também é prejudicado porque seus interlocutores estão inacessíveis, considerando que Sylvia não o quer perto e Ken não pode fazer uma reunião com o pessoal da Chevy. A resposta inicial dele para o problema é entrar de cabeça, mas, como evidenciado na cena entre ele, Ginsberg e Peggy, esse pensamento é tão abstrato que termina não ajudando em nada as suas tentativas de conseguir Sylvia e/ou Chevy.
Porém, ele é Don Draper e deve ter uma resposta para tudo. O protagonista coloca o rabo entre as pernas e continua, mas sua continuidade é abandonar Ted e o resto em um Titanic, voltar para uma posição mais calma na empresa e entrar no seu escritório do modo mais natural do mundo. É fantástico como essa decisão é o final perfeito para um episódio como “The Crash”, pois Don mantém aquela posição arrogante e controladora da temporada ao mesmo tempo em que fazer essa escolha significa admitir derrota por não cumprir a campanha ou reconquistar sua amante.
Se ser engraçado e trazer uma jornada quase que surreal não fossem méritos suficientes, o episódio também segue uma tendência que adiciona ainda mais a experiência: ser assustador quando necessário. Se alguém conseguir decifrar melhor a saga de Sally e Bobby com a Vó Ida nos comentários, faça esse favor, considerando que aquele conjunto de cenas para mim são apenas diálogos misteriosos e Kiernan Shipka sendo uma atriz incrível. São sequências sensacionais e progressões como Don olhando para o vazio com um fundo preto e seu desmaio são consequências fantásticas e bem filmadas, mas ainda sinto que não entendi completamente a mensagem dali. Uma alegoria que se conecta com as outras justamente por seu caráter inicial quase onírico/aleatório? Enfim, me contento em encerrar o texto apenas reafirmando que “The Crash” é uma das melhores e mais apaixonantes viagens do ano e Jon Hamm é um candidato ainda mais forte no Emmy de Melhor Ator.
Observação: Não poderei estar aqui comentando Mad Men com vocês na próxima semana. O Guilherme Inojosa será o responsável pelo texto sobre o próximo episódio. Enquanto isso, lembrem-se da moral do episódio: trancar todas as portas é primordial para um bom lar. Além disso: Betty deveria continuar com postura de megera toda vez que aparece. Não é uma posição perfeita, mas cumpre bem o seu papel em doses homeopáticas como aquelas adicionadas no episódio dessa semana.















