Para todo Dr. Jack existe um Mr. Hyde.

Spoilers Abaixo:


“I’m glad the army makes you feel like a man, because I’m sick of trying to do it.” – Joan Holloway

No dia 13 de Março de 1966, Richard Speck invadiu um recinto onde dormiam enfermeiras em Chicago, estuprando e matando oito delas, crime que gerou um choque em toda a população americana. Afinal, em plena Guerra Fria, onde tanto se propagandeava um inimigo externo poderoso, foi jogada na cara de toda a sociedade que talvez o grande inimigo pudesse estar não apenas dentro dos Estados Unidos, como ainda no âmago de qualquer ser-humano. Em um mundo governado pela dicotomia, essa sensação de que não existem fronteiras para a maldade humana surgiu como um grande soco no estômago de toda uma sociedade.

“Mystery Date” toma como fato principal os eventos narrados no primeiro parágrafo para fazer um estudo sobre suas conturbações sobre cada personagem a partir das semelhanças entre determinado quesito do ocorrido e a situação atual da vida dos personagens em destaque. Uma fórmula bastante utilizada pela série, mas que ainda assim consegue surgir de uma forma inusitada ao fato em questão não estar ligado diretamente à política, como de hábito, e sim a um terror puramente psicológico.

No caso de Don essa semelhança vem ao contrapor a mudança do homem que ele era durante as quatro primeiras temporadas à tentativa de redefinição do seu ser que é a grande narrativa do atual arco do personagem. Em outras palavras, Don Draper precisa finalmente assassinar Dick Whitman em um embate mental que é externalizado a partir das alucinações geradas pela sua doença. Diferente de antes, ele quer finalmente fazer um casamento funcionar por ter uma identificação com Megan que nunca foi mostrada em seu relacionamento com Betty, em um misto da personalidade problemática da ex-esposa e o fato da série se iniciar com o casamento já falido, e para isto ele precisa abandonar velhos hábitos. Pela primeira vez em muitos anos, ele quer ver um relacionamento pessoal funcionando e a fidelidade é apenas o primeiro passo, o que nem sempre surge de forma tão simples e traz à tona a própria psicopatia escondida dentro do subconsciente do personagem.

O grande problema desta trama é de natureza estética. Matt Shakman, habituado na direção de comédias, acerta ao nunca tentar tornar as sequências verossímeis, optando por filmá-las sob ângulos que sempre captem os personagens nas laterais e um pouco inclinados, uma característica básica de um pesadelo onírico, mas falha na contraposição do clima realista da série com o visual  exacerbado exigido neste tipo de narrativa, surgindo como um híbrido que em nenhum momento ganha vida própria. Mais acertada é a direção de arte, que modifica alguns pequenos detalhes do apartamento aplicando uma lógica do sonhar a elas, como pode ser visto na cozinha de Don ordenada de forma a ser metade vermelha e metade azul, em um confronto de cores opostas que transmite o próprio dilema em questão.

As consequências do ocorrido não afetam apenas o patriarca da família Draper, sendo passadas também para Sally. Inicialmente vendo as tentativas de Pauline como mais uma de suas  demonstrações de rigidez, torna-se tocante ver o momento de confraternização das duas ocasionada pela desobediência da garota e começando a flertar com o próximo arco da personagem. A Srta. Draper está entrando na adolescência, período em que as liberdades aumentam na mesma proporção que as obrigações, sendo enfatizado pelo momento em que pergunta o motivo das enfermeiras terem aberto a porta e obter como resposta uma indagação sobre ela saber o porquê. Dentro de pouco tempo, nada poderá impedi-la de abrir a porta para novas aventuras, mas ao mesmo tempo as consequências de suas atitudes serão arcadas unicamente por si mesma e nem sempre serão positivas. Saber definir que tipo de adulto Sally será e o que isso dirá sobre a primeira geração surgida após o período de transição retratado na série é o próximo passo para a equipe criativa de Mad Men e desperta calafrio em qualquer espectador que viu a criança inocente da primeira temporada e os tipos de atitude que ela tomou com o passar do tempo.

A relação com Peggy surge indiretamente, sendo apenas um meio para dar um pontapé em mais um dos momentos que retratam a aceitação desta às mudanças sociais, gerando uma série de ótimos diálogos com Dawn que retratam o que está passando no mundo naquele momento, a época em que os negros estão ao mesmo tempo em todos os noticiários e ainda são tratados como escória humana. Durante a maior parte do tempo, os ótimos diálogos tentam esconder o fato de estarem apenas afirmando um lado que todos conhecem da publicitária, servindo apenas para a introdução da nova secretária e afirmação de sua personalidade. É nos momentos finais que, mesmo com pouca discrição, o grande novo elemento é introduzido com Peggy pensando um pouco antes de deixar a sua bolsa ao lado da companheira de trabalho negra, algo que ela sequer cogitaria caso quem estivesse na sala fosse, por exemplo, Joan. Mesmo sendo quem melhor aceita o que ocorre no mundo e a mais apta a incorporar essas mudanças positivas, Peggy ainda é uma americana e com preconceitos trazidos desde a infância.

Falando em Joan, aquela que funciona sem dúvida como a protagonista ao possuir o alicerce dramático do episódio finalizando tardiamente o seu relacionamento com Greg. Apesar de uma analogia óbvia entre Richard Speck e o marido, o que é piorado se imaginar que este estaria protegendo a democracia no Vietnã quando o verdadeiro monstro o tempo todo foi ele, foi positivo ver pela primeira vez em quatro anos Joan tomando alguma atitude em sua vida amorosa com possivelmente o personagem mais odiável de toda a série, conseguindo desbancar até mesmo Betty no quesito ao não possuir sequer uma característica que o redima perante o espectador. Ao mesmo tempo, diminui a barreira existente entre a personagem e sua mãe, que se devia claramente a esta transferir todas as inseguranças de um casamento frustrante para a filha. Sem casamento ser destruído, é natural que ambas se aproximem para criar o bebê, como é ressaltado na belíssima cena final em que os três dormem na mesma cama, ainda que sem estarem viradas uma para a outra.

Sendo, ainda por cima, um grande momento para Christina Hendricks retirar o melhor do seu personagem. A incerteza e nervosismo diante da grande responsabilidade que cai diante dos seus ombros, abordado desde o primeiro episódio da temporada, ganhando contornos ainda maiores devido à presença de Greg, o estuprador ausente que sequer é pai do filho, como é notado no semblante de apreensão da atriz. Em última análise, a decisão de se tornar uma mãe solteira caracteriza uma evolução inimaginável ao ser confrontada com a personagem cuja única função era rebolar na sede da Sterling & Cooper como um símbolo sexual e servir como uma antagonista para Peggy, tornando-se com o tempo uma mulher segura de si, cujos defeitos foram sendo explicados e qualidades trazidas à tona.

Assim como a sociedade não estava pronta para o ocorrido, cada ser-humano retratado em Mad Men não está completamente pronto para as consequências que a passagem do tempo está trazendo desde o início da série e parecem culminar de uma forma devastadora ao final deste fatídico arco. Colocando muito bem as primeiras peças do tabuleiro neste ato introdutório, a série abre espaço para uma temporada que tem muito espaço para uma ótima execução.

Outras considerações:

-Mesmo não sendo nada discreto, é bem interessante reparar no nome da nova secretária: Dawn, indicando o alvorecer de uma nova era que ela simboliza ao entrar na agência.

-Na ausência de Harry, Stan consegue cumprir muito bem a cota de babaquice do episódio. Um dia ainda verei um arco com os dois juntos!

-A pele angelical de Jessica Paré ao final do pesadelo de Draper é um toque que, apesar de nada original, é eficiente ao aumentar a atmosfera que está sendo criada em torno dela.

-É notável que Pete, apesar do amadurecimento, continua com as características que o marcaram desde a primeira temporada. Em vez de brigar por algo que não teria capacidade de conseguir, o posto de Don, resolve fazer o mesmo com Roger usando a sua personalidade irritante e ainda com bons argumentos sobre o porquê de ser um nome mais indicado para o controle do setor. O pior de tudo é que eu me identifico com isso.

-Queria comentar algo sobre o Ken Cosgrove, mas cheguei à conclusão que em três episódios não tem nada de relevante a se comentar sobre o personagem. Aquele cara simpático, não faz mal a ninguém…

-Ginsberg é muito talentoso, mas é interessante como, mesmo tendo que aprender muito para chegar ao nível de Peggy, as portas são muito mais facilmente abertas para ele por uma simples questão de preconceito.

-A cena em que Peggy e Roger negociam diz muito sobre a evolução desta. Segura de sua própria capacidade, a ponto de dizer para o seu suposto chefe que pode demiti-la e procurar uma substituta, e negociar habilmente pelo quanto merece ganhar por seu trabalho extra. Uma típica cena que não acrescenta tanto ao episódio, mas é eficiente ao relatar certas características de determinados personagens.

-O tópico mais comentado na review anterior foi sobre a personagem de Betty. A leitora Selma propôs uma comparação entre as duas esposas de Draper que eu juguei factível de ser debatido rapidamente: Em uma representação sociológica, que eu me amparo ao analisar boa parte dos personagens de Mad Men, Betty representa a juventude dos anos 50, a última geração de donas de casa e completamente desfigurada pelo tempo, sua função era basicamente a de ser a acompanhante do marido em eventos sociais, como ainda é para Henry, e cuidar dos filhos, tarefa que se torna mais difícil pelo próprio espírito de rebeldia da época estar invadindo Sally, o simbolismo da juventude. Enquanto isto, Megan é de uma geração mais jovem e que já passou por uma série de mudanças, mulher que apoia o marido sem com isso esquecer sua individualidade, trabalhando e menos submissa.

E… Por hoje é só, pessoal! Não se esqueçam de deixar perguntas ou comentários pertinentes sobre o episódio para serem comentados pelo Hélio Flores durante a próxima semana. Ou se quiserem saber a minha resposta para as indagações, é só clicar aqui.

@guilhermeifc

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