O complexo de Lucifer.
Existe na religião cristã um ensinamento enraizado quando se trata de Lucifer: a síndrome de superioridade. Quando Deus nos incumbe um certo grau de administração, seja como líder de um grupo pastoral ou, no caso mais extremo, a substituição total de seus afazeres (Lucifer por exemplo foi o primeiro anjo governante com grandes poderes) é preciso tomar um cuidado para o orgulho não tomar posse da nossa identidade, corrompendo e nos transformando em pessoas “extremamente hostis”. Jesus disse em Lucas 14:11 “… todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado”. A origem (e queda de Lucifer) dentro da narrativa do cristianismo é basicamente essa: ensinar que se rebelar contra Deus pode se um tanto quanto… desconfortável.
Se analisada cautelosamente a primeira temporada de Lucifer foi dentro desse argumento; de que aquele anjo caído – punido severamente pelo seu orgulho – cansou das trevas e resolveu ir pra Los Angeles ter uma vida “humana” tranquila. Aconteceu que essa brincadeira o contaminou com as emoções da principal criação de seu Pai. O interessante é que a 2º temporada expandiu esse universo (mesmo que de forma discreta) para o âmbito familiar: com a presença misteriosa da mãe de Lucifer (e talvez dos outros anjos). Quem não tremeu junto quando nosso protagonista revelou no final da 1º temporada sua origem materna? E seguindo esse mistério que retornamos para mais uma etapa dessa ótima adaptação dos quadrinhos do Vertigo, cheio de erros sim, mas com uma leve esperança de que finalmente a série está ganhando um ritmo diferente e mais coeso.
Apesar disso, o estilo Scooby Doo dos episódios ainda é algo que me incomoda. Essa dinâmica crime+suspeito+revelação não funciona direito por correr demais com a narrativa (recheada de plots), desvalorizando os diálogos e enfraquecendo o estilo caricato do protagonista. Dessa vez souberam dosar o crime de forma suave – conseguindo resgatar aquele espírito da primeira temporada – mas com um Lucifer mais sincero consigo mesmo (e quem sabe mais maduro). Agora não vemos mais um jovem rebelde com daddy issues, mas um filho preso na luta dos pais, o que faz de “Everything’s Coming Up Lucifer” uma bela reintrodução pra série, principalmente com aquele final musical; o cover do Jimi Hendrix foi incrível e preencheu o episódio com um drama visual pouco visto até então. E que voz maravilhosa senhor Morningstar?!
Outro ponto importante que o episódio presenteou foi a perda da crença entre o que é real versus divino. Isso me permitiu observar a história de Lucifer de forma mais humana do que o habitual, levando a me identificar cada vez mais com os problemas dele e com isso valorizar o roteiro simples somado ao humor superficial. Honestamente? Eu gostaria que todos os personagens já aceitassem de uma vez por todas que Lucifer é o Diabo em pessoa e a história caminhasse para um contexto mais sobrenatural e denso. Seria mais atrativo visualmente e iria criar ótimas cenas… Por outro lado confesso que está sendo gratificante ver Chloe começando a querer “os ovos” de Lucifer, sem se preocupar com o real problema dele. O legal foi – através disso – apresentar a personagem de Ella Lopez, uma cientista forense do LAPD que acredita na dúvida entre ciência e religião para mover a sua fé no mundo.
A Dra. Linda é outra que só enriquece o show e provoca a narrativa para um campo analítico extremamente válido. Esse distanciamento da relação sexual com Lucifer é algo que – ao meu ver – só pode trazer ganhos e melhorar a visão jovem/imatura que tenho dele, vendo-o agora (FINALMENTE!) como um simples paciente lidando com seus medos. Sem falar que com ela dando as boas vindas ao retorno de Maze (revelando uma amizade aí) pode fortalecer sua participação na série fora do consultório e de sua função inicial.
Agora, vamos ser sinceros: foi um ótimo retorno! Tom Ellis continua impecável na sua caracterização e transforma o complexo de Lucifer em algo mais próximo do que os quadrinhos tanto martelavam. É preciso observar esse anjo caído como filho frustado, que se esconde no orgulho de se sentir omisso na luta dos pais e preso nessa vingança invisível que talvez nem tenha mais propósito. Seu pai o baniu de casa, sua mãe não mexeu um dedo para impedir, ele devolveu na mesma moeda com ela presa no Inferno e assim – DIRETAMENTE DO NADA – a co-criadora do Universo aparece sangrando no seu apartamento clamando por ajuda. Que ironia maravilhosa ver uma família disfuncional como precursora de uma religião que prega (cada vez mais) por união familiar-tradicional, né meus irmãos? Mais um ponto positivo para um belo recomeço, o que faz de Lucifer uma série em progresso, de humor levemente ácido e transforma sua experiência em algo que realmente vale a pena acompanhar.

Versículo 1: Alexandre Bonfá me passou o bastão para acompanhar a 2º temporada! Espero honrar essa responsabilidade e oferecer a vocês análises tão boas quanto as dele.
Versículo 2: Somente dois dias se passaram desde os acontecimentos do 1º ano. O que justifica poucas mudanças nos plots (o que deu a impressão da série ter entrado somente em hiato).
Versículo 3: A reintrodução de Maze ficou um pouco forçada, mais forçada ainda foi sua justificativa sobre que lugar se encaixar nesse mundo. Não deu pra engolir e acho que vão revelar isso aos poucos.
Versículo 4: Amenadiel meu filho, seus poderes estão enfraquecendo… E a culpa disso é seu tempo na Terra.
Versículo 5: Por mais cenas com Lucifer cantando ao piano, por favor, obrigado.
















