Após os acontecimentos frenéticos da eletrizante première de Lovecraft Country, muitas questões povoaram o imaginário da audiência, principalmente depois do surgimento dos monstros no último ato. Ok, tudo bem, teve quem se surpreendesse com essa reviravolta inusitada, eu não fui uma dessas pessoas, na verdade eu estava contando os minutos para ver um shoggoth ou um ghasts. Mesmo assim cabe aqui um esclarecimento, apesar de óbvio, creio que seja necessário. Qualquer obra inspirada, mesmo que levemente, no universo lovecraftiano, sempre vai flertar com o fantástico e o sobrenatural; com fantasmas e monstros; seitas e viagens interplanetárias e com muito ocultismo…muitíssimo ocultismo mesmo! Ou seja, era apenas uma questão de tempo até que um desses elementos – ou todos eles – surgissem em cena no episódio.  Isso não é algo que deva nos surpreender, já que a obra lovecraftiana, que serviu de inspiração para o livro que deu origem a essa série,  possui uma espécie de filosofia literária que mescla desde os conceitos de fantasia até os de ficção, tornando todos esses elementos fundamentais para a manutenção da essência dessa mitologia, não podíamos esperar outra maneira de contar essa história que não fosse pelo viés da metáfora comparativa entre os monstros reais e os aparentemente imaginários.  Dito isso, vamos ao que interessa, os acontecimentos do novo episódio!

O Roteiro do segundo episódio de Lovecraft Country ficou por conta do talento incomum de Misha Green.  Já a direção ficou com Daniel Sackheim, que tem no seu extenso currículo, séries como Arquivos X e Game of Thrones.  O episódio continua imediatamente após os eventos da première e, não por acaso, chama-se Whitey’s on the Moon, em uma clara alusão ao poema de Gil Scott-Heron (tocado ao fundo na cena do ritual) e à corrida espacial desencadeada pela Guerra Fria e pelo lançamento da Sputnik da antiga URSS, ao espaço. Aqui a crítica é severa, mostrando onde estava a prioridade do governo naquele momento da história. Ou seja, enquanto a população negra estava sofrendo com a segregação, o desemprego, a falta de direitos básicos como saúde e educação e sem acesso aos programas sociais do governo, os brancos estavam gastando uma fortuna, preocupados em mandar um homem para a lua. A cena mostra um lado menos glamouroso da corrida espacial, comumente romantizada nos filmes hollywoodianos, porém, vista de forma muito diferente pelo povo preto estadunidense.

Se finalizamos o capítulo de estreia com o nosso trio sendo recepcionado na Mansão Braithwhite por uma espécie de mordomo estranho, nesse novo capítulo, ao som do animado tema de abertura da sitcom americana The Jeffersons, somos apresentados a suntuosidade que os nossos heróis encontram na casa anfitriã. A cena é divertida, vibrante e nos lembra algum tipo de comercial sobre novos ricos, muito semelhante ao tema principal da sitcom evocada. Claro que Letitia e George ficaram eufóricos, ambos encontraram o seu elemento favorito em cada quarto destinado: roupas e livros, respectivamente. Em contraste com toda essa efervescência, temos Atticus, inquieto, rememorando a sua terrível experiência noturna. Obviamente, depois dos acontecimentos da estranha noite na floresta em companhia do Xerife Hunt, dos seus subordinados e dos monstros, Atticus, procura respostas que possam explicar a luz da razão os fatos absurdos vivenciados por ele (Você não está sozinho Tic! Aliás, esse foi o episódio mais louco que já vi na minha vida).

Em seguida, ao soar de um alarme, o trio de viajantes se encontra no corredor da Mansão Braithwhite e são saudados pelo estranho William (Jordan Patrick Smith, Vikings) que, apesar de se apresentar como ‘amigo’ da filha do anfitrião, se comporta como um mordomo fiel. Eles são conduzidos para uma refeição na varanda, mas a conversa entre o trio lança a sombra da dúvida sobre Atticus, ao perceber que, tanto Letitia quanto o seu tio, não se lembram dos fatos ocorridos na noite passada. A conversa descamba para um caminho estranho, que põe a sanidade mental do jovem veterano de guerra em questão, afinal, ele parece ser o único que consegue lembrar do xerife racista e dos monstros e para piorar a sua versão da história, Woodie (o carro) está praticamente intacto. Esse elemento de descrença da narrativa fantástica é muito comum no universo criado por Lovecraft.

Mais tarde, durante um passeio do trio pela vila Amish de Ardham, somos apresentados a Dell (Mindy O’Dell, Veronica Mars e Little Fires Everywhere), ela é uma espécie de administradora do vilarejo, com seu discurso sobre os ursos negros e cães, mostrou-se apenas mais uma racista cruel. Usando-se do subterfugio de um trocadilho, ela ameaçou diretamente o grupo com a lei do pôr do sol, colocando em dúvida o fato de eles realmente serem convidados de Samuel e comprovando que, mesmo em lugar ermo dos Estados Unidos, o racismo ainda persiste. Foi bom ver Letitia mais tarde salvando o dia ao golpear Dell, enquanto ela ameaçava seus amigos com uma arma. De volta à floresta, ouvimos pela primeira vez sobre a história de Hannah (Joaquina Kalukango), ancestral de Atticus. Quando parecia que algo mais seria dito por George sobre esse assunto, o grupo é atacado por monstros novamente. Aqui nesse ponto do episódio, como mais adiante no parto da vaca, cabe uma observação sobre a escolha da paleta de cores para uma cena noturna e ao ar livre, onde quase não conseguimos distinguir os elementos de cena por conta da escuridão e da saturação do azul profundo. Apesar de a cena ter sido bem interessante, por causa dos monstros, por conta da chegada repentina de Christina Braithwhite (Abbey Lee, Mad Max: Estrada da Fúria) e por conta do novo apagão de memória de Letitia e George, nada nesse breu favoreceu a sequência em si.

Em seguida, Atticus se encontra com Samuel Braithwhite (Tony Goldwyn, Scandal), que lhe apresenta seus planos enigmáticos para a sua participação na cerimônia dos Filhos de Adão para abrir um portal para o Amanhecer dos Tempos – o Jardim do Éden. Enquanto Atticus e Samuel, mediados por Christina, debatem filosoficamente sobre ciência e religião, George encontra uma biblioteca secreta e toma posse de um exemplar do Livro da Ordem, mais tarde, esse conteúdo seria usado por ele para confrontar os membros da seita e lançar luz sobre a ancestralidade de seu sobrinho. Por falar em lançar luz, Atticus provoca Christina, que em um ato de boa-fé, retira de Letitia e de George o feitiço do esquecimento, causando uma reação bruta nos dois. Fiquei bem impressionada com a atuação de Jurnee na cena do banheiro e achei muito engraçada a forma fútil e trivial com que Christina usa os seus poderes.

O que vimos depois foram as manifestações do subconsciente de cada personagem aflorando para assombrá-los. Tomamos ciência do desejo secreto de Letitia em ser mais que uma boa amiga para Atticus. Se no primeiro episódio, ao vermos a foto de Dora (Erica Tazel, Justified), mãe de Atticus, na carteira de Tio George, ficamos desconfiados de que eles eram mais que amigos, aqui, definitivamente, foi confirmado que ele a amava, que tiveram um relacionamento romântico intimo e que há uma grande possibilidade de ele ser o pai biológico do jovem veterano de guerra. No momento de alucinação induzida, George se depara com Dora, que conversa enquanto dança com ele, esse diálogo é muito esclarecedor sobre o nível de sentimentos que ambos nutriam. Mais adiante, antevendo um desfecho inevitável, George confronta Montrose (que finalmente deu o ar da sua graça) sobre a paternidade do seu suposto sobrinho, dando a entender que, apesar de esse ser um tema tabu entre esses dois homens, não é uma história desconhecida para ambos. Enquanto isso, Atticus, em meio a uma luta produzida pela manipulação da sua mente, deixa transparecer que algo muito grave aconteceu com ele durante a guerra envolvendo Ji-Ah.

Para quem achou que as sequências entre o discurso de George no jantar até a cena do ritual foram muito rápidas e confusas farei alguns esclarecimentos no final desse texto. No entanto, o ponto principal a ser observado durante a cena do ritual, além da ancestralidade vindo em resgate de Atticus, é a justaposição entre a comunidade negra sendo sacrificada em nome de uma corrida para o homem branco conquistar a lua versus um homem negro (Atticus) sendo oferecido em sacrifício para que homens brancos possam alcançar o paraíso. Ou seja, para além dos efeitos especiais, da desintegração da Casa Braithwhite e dos membros da Ordem, o pano de fundo da situação é bastante poderoso e compensa a falta de uma explicação mais profunda, nós estamos aprendendo a história enquanto ela está sendo mostrada.

Alguém estava realmente pronto para aquele final? Tio George é um tipo de personagem muito cativante, quer seja pela sua esperteza e sagacidade, ou simplesmente pela sua tranquila erudição banhada de histórias e curiosidades. Ele, o Tio George, humaniza os sentimentos introvertidos de Atticus; acolhe a luz vibrante de Lettitia com carinho; reconhece a crueza de Montrose como algo que não o define; trata a família, os livros e a sua comunidade com compromisso quase religioso. De repente, ouvimos no fundo da cena final a música River, na versão de Leon Bridges, aí percebemos que algo muito ruim aconteceu. Jurnee Smollett-Bel faz o que ela sabe fazer de melhor e entregou uma cena intensa, profunda, comovente e triste. O mérito é todo dela que entregou a Jonathan Majors uma cena construída, mas ele segurou muito bem a responsabilidade em suas mãos, nos mostrando um Atticus vulnerável e se sentindo culpado pela morte do tio. Claro que estamos lidando com uma série que explora a fantasia, o fantástico e o sobrenatural, logo, Tio George poderia reaparecer vivo a qualquer momento em um outro episódio, no entanto, esse recurso banalizaria e invalidaria toda a construção emocional do último ato desse episódio. Diferentemente do momento em que Letitia morre nos braços de Atticus e logo em seguida é ressuscitada por Samuel em um curto intervalo de tempo, aqui temos toda uma construção emocional em cena até a revelação de que George está de fato morto nos braços de Montrose, ademais, Samuel foi desintegrado durante a conversão de Atticus, então não teria poderes para trazê-lo a vida. O que nos resta é agradecer o incrível trabalho do veterano ator Courtney B. Vance, que nos entregou um excepcional Tio George Freeman.

O segundo episódio de Lovecraft Country deixou claro que estamos diante de uma espiral de loucuras, recheada de situações inexplicáveis, mas isso não é uma coisa negativa quando estamos falando de um show que aborda a segregação racial através do fantástico e sobrenatural. O episódio foi bastante rico em história e no aprofundamento da sua mitologia e da sua ancestralidade. O texto de Misha Green não perdeu a crítica social em nenhum momento, nos favoreceu com uma trilha sonora impecável e boas pitadas de humor bizarro, desde a trivialidade do uso dos poderes mágicos, passando pela irreverência de Letitia usufruindo os prazeres da riqueza, até o nascimento de shoggothinho. Com esse episódio, tivemos o fechamento do primeiro arco, que era o resgate de Montrose. Espero que a partir do próximo capítulo, a história siga o caminho das antologias do material de origem e nos apresente as repercussões da morte de George, o estado emocional de Letitia depois dos últimos acontecimentos, a relação de Atticus com Montrose e os segredos da ancestralidade da família Freeman.

Até a próxima semana!

Por dentro do Território

A Ordem Adamita da Aurora Ancestral foi criada por Titus Braithwhite, fundador de Ardham. Ele morreu em 1795, em um misterioso incêndio em sua propriedade. Samuel Braithwhite, anfitrião de Atticus, é filho de um primo distante de Titus, já Christina, é a sua única filha. Curiosamente, no livro não existe uma Christina e sim um Caleb. Christina foi desenvolvida exclusivamente para a adaptação televisiva, porém, conservou algumas características emocionais do personagem original.

Na Ordem Adamita da Aurora Ancestral os iniciados são divididos em três classes: Peregrinos da Aurora; Filhos de Adão e Antenautas. Os Antenautas são considerados os Visitantes do Tempo de Antes, ou seja, aqueles de antes da queda no paraíso. Os Filhos Entre Filhos formam uma classe única e não precisam ser iniciados, já que todos eles são descendentes diretos de Titus Braithwhite, por isso, considerados Filhos de Adão originais, hierarquicamente superiores aos demais membros da Ordem.

Hannah, parente distante de Atticus, era escrava da Titus Braithwhite. Ela fugiu aterrorizada na noite do grande incêndio que vitimou o Filho Entre Filhos Prime e começou uma nova vida em uma outra cidade. Contudo, Hannah estava grávida de um descendente direto de Titus, o que tornou Atticus um dos últimos descendentes do sangue de Adão. Daí a importância dele para os membros da Ordem, que o consideram uma espécie de avatar do próprio Titus. Isso explica a ansiedade dos membros da Ordem para rápida conversão de Atticus, sob o pretexto de que poderes ocultos deveriam emanar do rapaz durante o ritual, provocando a abertura do portal para o Jardim do Éden. Toda a estratégia para sequestrar Montrose foi para forçar Atticus a ir de livre vontade para a Casa Braithwhite e aceitar o ritual espontaneamente (mesmo que coagido, não é?), segundo os preceitos do livro da Ordem a pessoa tem que se voluntariar para o procedimento. Vale lembrar que Hannah fugiu com um livro nas mãos. Seria o livro de feitiços da Ordem?

O Feminismo foi muito bem abordado na conversa entre Christina e Atticus. Ela se mostra muito contrariada por não ter um lugar na Ordem, pelos simples motivo de ser uma mulher. Ela constata que Atticus, apesar de negro, é um homem, e por isso naturalmente conseguiu o seu lugar na Ordem, enquanto ela, apesar de branca e conhecedora profunda dos meandros da seita, não conseguiu um lugar que deveria ser seu por direito hereditário. Seria esse o início do chamado Feminismo Branco? A sequência da escolha da roupa de Letitia também expressa muito bem esse pensamento mais progressista e menos tradicional, quando ela experimenta vários vestidos, mas acaba escolhendo um traje composto por casaco e calcas. Os anseios de ambas as mulheres se cruzam, quando, em algum ponto da história, fica claro que, independentemente da cor da pele, elas não são bem-vindas ao Clube do Bolinha por serem mulheres, por isso, consideradas inferiores aos homens. Esse é um tipo de construção narrativa muito bem estruturado, mostrando o cuidado dessa série ao abordar questões socialmente relevantes.

O Colorismo é um outro ponto também abordado no episódio. A primeira coisa que Samuel diz quando vê Atticus é que ele é “mais escuro do que ele esperava”. Ele sabia que se tratava de um homem negro, mas esperava que Atticus tivesse a pele mais clara, por isso, fica desapontado com essa constatação.

REVISÃO GERAL
Nota:
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