Bromance em seu melhor!

Spoilers Abaixo:

Uma mudança temporária na localidade de determinada série é uma boa forma de exercer uma narrativa que conserve os principais pontos positivos e, ao mesmo tempo, trazer um quê de novidade exercido pela mudança de ambiente. É uma tentativa arriscada, quase como uma faca-de-dois-gumes, já que existe uma grande possibilidade de essa transposição não surgir da forma mais adequada, mas, caso se concretize dessa maneira, será um exercício recompensador por parte do realizador. Felizmente, “Miami” se encaixa nesta última categoria.

Em seus momentos iniciais, Louie acerta ao vender a idealização da cidade, quase como um sonho no ambiente sombrio da série que está prestes a ser destruído. O calor, condição climática que pode dar uma falsa ideia de aconchego, é utilizado justamente para ser o impeditivo do comediante se socializar na praia, já que o seu tipo físico seria facilmente visto como chacota pelas outras pessoas. Um pequeno pulo temporal é utilizado e a praia se torna vazia ao fim do dia, retornando ao clima típico do universo e mostrando que, por mais que o individualismo extremado do nova iorquino pode ajudar, os problemas do mundo tão criticados são quase que universais. É fácil comprar um sonho caso você seja uma pessoa atlética e bem-sucedida, mas isto pode se transformar em um pesadelo se esses atributos não forem preenchidos, como é evidenciado no plano em que o personagem-título percebe que está sendo acompanhado por outro turista com problemas de obesidade.

O diretor de fotografia Paul Koestner é mais do que satisfatório ao alternada paleta quente inicial para o frio habitual conforme a história progride. Não por acaso regressando à lógica inicialmente adotada após o Louie conhecer Ramon, enfatizando que o personagem trouxe uma rara luz a um mundo tão sofrido, para retornar ao sombrio quando os dois possuem a derradeira conversa final. É um jogo de antíteses que faz jus à natureza do episódio.

A narrativa do episódio é bem flexível, mesmo para os padrões de Louie, preferindo usar a premissa simples de duas pessoas que se conhecem e separam apenas para amarrar as pontas, sendo a interação entre ambos o mais importante do que a história contada. É uma forma de a série navegar um pouco o território do bromance, sabendo utilizar dos espectadores sobre o gênero a seu favor, tornando inevitável a contestação de que a amizade está  ganhando aspectos românticos e trabalhando bem essa ironia dramática para dizer um pouco sobre os preconceitos da sociedade.

Não é à toa que o roteiro de C.K. adota a lógica do silêncio em seus minutos iniciais. Sozinho em uma cidade que não a habitual, a solidão do comediante é colocada em seu extremo. Até mesmo o stand-up, normalmente funcionando como um momento do protagonista poder falar mais, é uma rápida frase seguida de risadas. Sendo não apenas uma quebra de expectativa como se adequando perfeitamente à trama. É com Ramon que Louie atinge uma zona de conforto, sentindo-se mais confortável e podendo dialogar mais, sendo a cordialidade hispânica um contraponto à frieza do americano médio, tornando a revelação dos antecedentes cubanos de C.K. não apenas fundamental ao episódio, mas revelando muito sobre o universo da série.

O excesso de detalhes humanos não torna o episódio menos engraçado. Apostando por um humor mais sutil durante boa parte do tempo, dando ao espectador a chance de ter um sorriso no rosto pelas próprias reflexões ou interação entre os amigos, mas também premia com uma amostra do exagero habitual na ótima cena em que Louie revela, tomando-se como base a máxima sobre o que valer ser a intenção, a Ramon que não é homossexual, retornando à ausente passividade do protagonista e o colocando em uma cena repleta de vergonha alheia, premiada pelo stand-up que, mesmo que expositivo, confere humor por servi como complemento sobre o que acabou de ser encenado.

Concomitantemente divertido, emocionante e humano, “Miami” é mais uma amostra da eficácia de uma série nada menos do que excepcional, servindo como a cereja no bolo de seu melhor início de temporada. Caso continue assim, o céu será o limite para a qualidade desse ano.

Plot twist: Interrompemos a programação normal para dizer, aos que me consideram um farsante, que a review da próxima semana será escrita pelo Gabriel Oliveira. Mas podem se preocupar, porque eu retorno logo em seguida para o restante da temporada.

Artigo anteriorBurn Notice – 6×04: Under the Gun
Próximo artigoDallas – 1×06: The Enemy of My Enemy