Vida longa ao Rei!

Spoilers Abaixo:

Quando você abrir o arquivo e ver um quarentão com um microfone falando sobre transplante de pênis e uma estranha relação entre visão e masturbação, pode ter certeza que você está diante daquela que, para mim, é a melhor “comédia”, caso usemos a definição boba das premiações,  no ar atualmente. Louie é a cereja sobre o bolo que é essa sensacional época para as comédias, e o início do seu terceiro ano aparece para reforçar esse tipo de pensamento. “Something Is Wrong” é um dos episódios mais bem sucedidos da série no que diz respeito a interligação entre a simplicidade e as discussões cotidianos, onde Louis C.K. é capaz de explorar um estado bastante comum do sexo masculino (a crise da meia-idade) e preenchê-lo com as idiossincrasias do próprio cidadão que comanda a série, desenvolvendo seu próprio universo que é praticamente uma metáfora a ser decodificada que possui como pilar a com histórias cotidianas e de fácil identificação.

Vemos todo um processo que se desenvolve ao longo do episódio que parte da complicada e explorada exaustivamente na temporada passada vida amorosa do protagonista, que se encontra em um novo relacionamento que não é exatamente o que Louie quer, mas é aquilo que o deixa minimamente contente, o que não preocupa o comediante, que foca suas poucas energias em pensar no seu cansaço enquanto seu par desenvolve um longo monólogo que o deixa em uma posição que não preocupa nem ajuda a vida de Louie, deixando apenas em seu olhar a dúvida se ele deveria jogar a vera (tomar a decisão de acabar o namoro) ou deixar a vida o levar, duas opções que embora caminhem para o mesmo destino acabam possuindo diferenças gigantes, sendo a segunda opção escolhida justamente por ele se apegar a posição de ficar em cima do muro. No início do episódio, o quarentão pode não ser feliz, mas também não é triste com o seu status quo.

Entretanto, tudo começa a se modificar gradualmente. Mudanças são necessárias para crescermos como seres humanos, aquela saída da rotina que todos almejam ocasionalmente e é isso que Louie encontra com a sua escapada com a nova motocicleta, que aparentemente custa metade do necessário para se produzir um episódio da série, uma tentativa fracassada que se torna hilária em sua mediocridade. Quem nunca torceu para que um cidadão que estivesse empinando uma moto acabasse caindo não pode falar que é humano.

É um episódio sobre como as escolhas podem afetar os seres humanos e o impacto de determinadas ações que cada indivíduo deve arcar, muitas vezes sendo necessário um recomeço. Temática que pode ser tida como a central da série, como pode ser ressaltada pelo protagonista ser um pai divorciado tentando retirar a vida do piloto automático que se encontra com o passar dos anos. Não é à toa que é dado ao personagem uma segunda chance de conciliação com sua namorada após o acidente de moto, é como se fosse um aviso do universo para que Louie repense melhor sobre seus atos. Entretanto, se em uma série convencional era provável uma metamorfose que já serie pontuada pelo diálogo final, Louie faz questão de ressaltar a dificuldade de modificar um próprio padrão, como a passividade perante a vida e os outros do protagonista.

Ironicamente, trata-se de uma série que possui uma linha muito tênue, a ponto de ser quase imperceptível, entre o episódico e o contínuo, com tramas independentes e cuja influência é minúscula no cotidiano de Louie, mas possuem sua relevância como fragmentos importantes de sua vida. A suposta falta de modificação na sua estrutura mais básica representa justamente o quão estático é ser o personagem-título e a necessidade deste se reconstruir. Por mais que pareça difícil no curto prazo uma ocorrência perceptível em sua natureza, talvez a tragédia seja importante para algumas mudanças singelas em sua personalidade. De certa forma, o vimos em um raro momento assumindo as rédeas e tomando uma atitude, apenas para logo depois a passividade voltar a assumi-lo e a conversa caminhar pela mesma estrada de outrora. Infelizmente, não foi desta vez.

O mais notável é que, embora o semblante do episódio pareça o tornar um daqueles mais focados na melancolia do que em dar ao espectador um turbilhão de risadas, existem momentos de humor bem efetivo, desde a já citada piada do pênis, a própria conversa entre Louie e April, o misto de diversão e preocupação ao vermos o acidente de moto, as expressões faciais de cada personagem ao descobrir sobre a lesão de Louie, nunca sendo um uso exagerado da comédia a ponto de fazer com que o drama se perca ou um dramalhão com o intuito de tirar o foco das risadas. O drama e a comédia conseguem conviver e se completar, tornando “Something is Wrong” um ótimo material para ilustrar a transcendência entre ambos os gêneros alcançada pela série sem a transformar necessariamente em uma dramédia, mas um produto audiovisual único.

No meio de tudo isto, o humanismo da série ainda consegue vir à tona e realizar um ataque,  não exagerado, ao sistema norte-americano de saúde, o qual basta o paciente não estar sofrendo risco de vida que é deixado à própria sorte, não importando se ele sequer tem condições de se locomover. Ou até mesmo à antipatia dos nova iorquinos, sendo representado pela figura do motorista de táxi. É evidente que são caricaturas, mas aproximações adequadas da realidade dentro da diegese da série a ponto da crítica fazer sentido e não parecer deslocada dentro do contexto. A humanidade de Louie sempre foi tão importante quanto as risadas, sendo fundamental o estabelecimento de um universo impessoal e caótico para ressalta a tristeza do protagonista perante o mundo.

“Something is Wrong” não é apenas um retorno digno, ou uma mostra de que a série continua em boa forma após a espetacular temporada anterior, mas um dos episódios mais bem-sucedidos da série ao conseguir explorar todas as suas principais características e as colocar em uma única narrativa. Mesmo não tendo o vanguardismo temática de outros exemplares, consegue ser soberbo em sua simplicidade e mostrar o porquê de todas as premiações que a série recebeu em seu curtíssimo tempo de vida. Espero que seja uma ótima Summer Season! 

Observação: Por um motivo de ordem secreta, eu e o André Fellipe da Silva decidimos desenvolver esse texto em conjunto para falarmos sobre a Season Premiere de Louie. Será um prazer estarmos com vocês durante essa temporada!

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