Como somos fracos! Como é forte o império das circunstâncias!

– Carta 23, de Visconde Valmont para a Marquesa de Mertuil, As Ligações Perigosas, de Chordelos de Laclos

O terceiro episódio de Ligações Perigosas pôs em destaque a correspondência através das cartas, delineando as relações estabelecidas entre as personagens principais dentro dos jogos de poder e de mentiras. Mariana, que no início do episódio falou do seu “respiro de sentimentos honestos”, começou a desacreditar em Augusto, fato que o colocou em uma outra posição na narrativa. Mas, por agora, vamos falar um pouco de Cecília.

Recém-saída de um internato de freiras, Cecília estava eufórica por estar mais livre, até que a sua mãe, Iolanda, comenta sobre o casamento com Heitor. A jovem garota se percebe, novamente, trancafiada numa vida ditada pela mãe, fato que compromete a relação entre as duas e dá espaço para que Isabel se aproxime. Ela se enxerga um pouco em Cecília, já que também se casou jovem, contra a sua vontade, e com um homem mais velho. Porém, os conselhos de Isabel são para levar Cecília para outro caminho: o corruptível.

Sendo assim, Isabel empurrou Cecília para os braços de Felipe, na intenção de que ela perdesse a virgindade com o músico. Para mim, soou um tanto estranho que Isabel, uma mulher tão inteligente e calculista, não tenha sondado primeiro Felipe para ter a certeza de que ele fosse capaz de fazer sexo com Cecília e não ficar somente em um beijo. Se o plano era corromper a jovem, o ideal era buscar um homem que tivesse os recursos para tal feito, como, por exemplo, Augusto. Logo, a aproximação do casal surtiu o efeito contrário, pois eles se apaixonaram dentro do universo do amor romântico.

As cartas, nesse episódio, adquiriram um valor de documentação de poucas horas de uma paixão, e não apenas de veículo de construção de intrigas. Gostei muito da cena em que Felipe enfrenta Iolanda e afirma que não irá entregar as cartas de Cecília, visto que, se entregasse, estaria traindo a confiança da amada. Espero que essas cartas possam ser usadas futuramente para algo, tal como a personagem de Felipe. Aparentemente, o professor de música perdeu a sua função na narrativa. Entretanto, como boa articulista, é possível que Isabel o guarde na manga para usar em um outro momento, talvez quando Cecília estiver casada.

A relação de Augusto e Mariana foi minada pelas cartas de Iolanda, que escreveu bastante sobre as desventuras e libertinagens do parceiro de Isabel. Mariana demonstrou ser mais manipulável do que achávamos, sendo uma mulher que troca fácil de opinião. Com um pouco de persuasão, é possível controlar a moça. Todavia, ela se manteve firme em não revelar para Augusto a autoria das cartas. Mas, nesse império de circunstâncias, Augusto encontrou a situação perfeita para descobrir isso: flagrou a empregada de Mariana na cama com o seu empregado. A moça, temerosa com o que lhe poderia acontecer, pensou que Augusto lhe desejaria sexualmente. Porém, ele sabia que a chantagem seria o método mais eficaz para manter o seu poder sobre a empregada de Mariana. E assim o fez.

A descoberta que Iolanda tinha lhe difamado para Mariana foi empurrão que ele precisava para atender o pedido da devota e ir embora. Nessa partida, vingar-se de Iolanda é o seu objetivo principal. É claro que Isabel não poderia deixar de aproveitar esse momento. Sabendo que Augusto poderia voltar para o seu plano de corromper Cecília, Isabel tratou de tirar Felipe do caminho. Então, Iolanda, através de suas cartas, selou essa nova página da história da filha, que terá agora Augusto como seu mentor na vida promíscua.

O terceiro episódio apresentou bem “como somos fracos”, quer seja na busca por uma verdade que não existe (Mariana), quer seja na luta de um amor que é apagado pelas regras sociais. O “império de circunstâncias” favoreceu bastante Augusto e Isabel no plano contra o casamento de Cecília e Heitor. A teia de acontecimentos desse episódio enfraqueceu quem já estava fraco e fortaleceu aqueles que estavam buscando mais forças para essa guerra de vaidades.

Primeira Ligação: Conversa de Isabel com Cecília: “Você deve sempre sorrir. Sorrindo, ninguém nunca vai desconfiar de nada”. Numa sociedade dominada pela falsidade e infelicidade, o sorriso, algo tão belo e sincero, transforma-se em uma máscara de sobrevivência.

Segunda Ligação: Conversa de Isabel e Cecília: “Não é o que fazem com você, mas sim o que você irá fazer com o que te fazem”. Em outras palavras, “se me atacar, eu vou atacar”, rsrsrs. Nessa fala, vemos a sutileza das ações de Isabel, que aconselha que devemos estar de olhos abertos para todas as situações, a fim de tirar algum proveito delas.

Terceira Ligação: Não sei vocês, mas quando a Isabel quebrou o pescoço do passarinho, dando-lhe “misericórdia”, lembrei na mesma hora de Carminha, em Avenida Brasil, cortando com frieza o pescoço da galinha, enquanto Zezé, a empregada, recusava-se a fazer o serviço.

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Diogo Souza
Graduado em Letras-Português, Mestre em Literatura e Ensino, Doutorando em Estudos Literários, pesquisador das relações interartes entre a literatura e o cinema, cinéfilo, leitor de poesia, e às vezes cronista.