Um episódio que tinha tudo para ser épico, mas não foi.

Legends of Tomorrow tem um grande problema em suas mãos, um que a série ainda não percebeu, mas que se torna mais evidente a cada episódio: ela se leva muito a sério. Como entretenimento leve a produção acerta em vários aspectos, sempre convergindo sua trama para momentos bons e no geral sem muito peso. O grande problema é sua falta de habilidade em rir de si mesma e fazer de seu tempo em tela algo descompromissado, sem peso. Infelizmente o padrão adotado é outro. Com muitas explicações teóricas a respeito da viagem no tempo, filosofia quanto as reverberações da linha temporal e o que pode ser feito e o que é proibido, arrastam a temática para um nível que nenhum roteirista tem a capacidade, ou a dedicação de explorar. Com seu décimo primeiro episódio e uma viagem para o velho oeste, além da visita de Jonah Hex, o que era para ter sido quarenta minutos de pura diversão se tornou mais um momento para trabalhar conceitos que simplesmente não funcionam.

A começar por Kendra e seu encontro com uma de suas vidas passadas. Estava para acontecer e mais cedo ou mais tarde encontraríamos alguma versão perdida da Mulher Gavião, ou sua “alma gêmea”, Carter. O grande erro aqui é trabalhar uma temática que simplesmente não agrega em nada a diversão e só procura continuar a conectar a história da personagem com Vandal Savage. Só que ao invés de centralizar a oportunidade em aprofundar Kendra como uma guerreira, tudo termina com uma grande exposição de amor verdadeiro, destino e sentimentalismo que decola, mas não pousa. Existem dois elos fracos em Legends of Tomorrow e um deles é Kendra, o outro é o vilão da série. Ter dois personagens sem muita função, sendo que um deles representa o antagonista e motivo para união dos heróis e criação da série, é um erro gravíssimo. Enquanto a conversa sobre amor minava qualquer diversão da trama, uma pulseira representou um pouco de luz para o futuro do embate final. Só que nós já havíamos encontrado um item com poder de derrotar Vandal, a adaga, um objeto que os personagens até chegaram a possuir por um tempo, mas que perderam. Então no final é tudo preparação de terreno desnecessário, facilmente evitável e que desviou o foco para o que realmente estava interessante.

Toda o problema em se mexer com a linha do tempo sempre veio carregado de várias explicações complicadas, mas temperadas para a audiência comum. Conectar Rip Hunter ao passado e entrelaçar sua história a queda de uma cidade que ele se propôs a ajudar é válido, mas antes de começar a validade da proposta termina e dá lugar ao confuso, ao forçado. Ao optar por esconder o personagem e barrar qualquer justificativa para suas ações por mais da metade do episódio, a série se perdeu em uma bagunça gigantesca. De uma lado temos Ray se divertindo como xerife, do outro Rip isolado e com um segredo, e na terceira vertente Sara e Kendra sentadas ao redor de uma fogueira aprendendo sobre amores impossíveis e regras sem sentido. Fragmentar o roteiro dessa forma e pender o assunto para algo pesado e sério me desviou daquele que deveria ser o foco da produção sempre, a diversão.

Outro erro foi a participação de Jonah Hex, personagem saído da linha do velho oeste da DC Comics e que já teve uma adaptação para o cinema, no medíocre filme homônimo e estrelado por Josh Brolin e Megan Fox. Tirando o nome e a cicatriz, nada apresentado realmente conversa com o material de origem. Não é um problema quando estamos falando sobre uma adaptação, afinal, série é série, filme é filme e quadrinho é quadrinho. Porém não faz nada pela trama e também não cria nenhum momento memorável. Hex é um caçador de recompensas, desfigurado e com uma habilidade invejável com armas, além de ser notória sua capacidade de intimidação. Nada do que transformou sua história em algo memorável foi incluído na série e mesmo que a atuação de Johnathon Schaech tenha sido boa, ainda faltou algo a mais para realmente encantar. Novamente, não existe problema algum em não fazer um personagem idêntico ao dos quadrinhos, mas é uma oportunidade perdida e que teria rendido momentos melhores. Para que ter um nome grande, se você não vai usá-lo apropriadamente?

Toda a trama girou ao redor do grupo, mais uma vez agindo como irresponsáveis e tomando atitudes questionáveis. Stein decidiu brincar de médico com a mãe do H.G. Wells, interferiu na linha do tempo, mas não existiram problemas, porque ele sempre esteve fadado a salvar a vida do jovem escritor. Então quer dizer que na verdade as regras impostas pelos viajantes do tempo só se aplicam quando a trama precisa ser refreada, certo? É isso que o roteiro de The Magnificen Eight passou. E é exatamente neste ponto que o lado mais “sério” de Legends of Tomorrow atrapalha consideravelmente. Você tem várias atitudes que expõe um “preço” a ser cobrado, caso exista interferência direta, mas também tem eventos que fazem parte e que precisam dessa ajuda para funcionar. Explica-se muito, mas no final não sabemos de nada. Todo o tempo que poderia ter sido aproveitado com diversão, tiros e brigas em bar, se tornam opacos quando a coesão foge pelos dedos dos roteiristas.

Vou confessar que me diverti sim assistindo o episódio. Gostei bastante de ver a turma usando armas comuns, vestimentas do velho oeste e aquela boa e velha briga no bar em que o pianista não para de tocar até alguém cair em cima do seu instrumento musical. E é aí que caímos de novo na minha constante reclamação com a série. Existe muito espaço para criar pequenos momentos semanais cheios de qualidade e diversão, mas que sempre são desprezados pelo roteiro em prol de uma história complexa e sem muito respaldo criativo dos produtores. Poderíamos ter aproveitado tanto da proposta, mas até agora foram poucos os momentos em que a série conseguiu convergir história principal, paralela e a viagem no tempo. Será que ninguém consegue perceber a galinha de ovos de ouro que a DC CW tem nas mãos? Com essa temática, os efeitos apresentados e a ambientação construída, a série poderia se destacar como uma homenagem as mais diversas interpretações históricas do passado, futuro e presente da DC Comics. Infelizmente tudo o que estamos recendo com mais força são as consequências do amor proibido de Kendra, as regras sem sentido do Rip, o fantasma de Vandal Savage e a interferência do conselho de Mestres do Tempo. Vamos lá Legends, deixe de se levar a sério e coloque o absurdo para trabalhar. Ainda dá tempo.

Easter eggs e outras informações

– O título do episódio é uma referência ao filme de faroeste The Magnificent Seven, que é um clássico do gênero.

– Salvation é o nome da cidade texana que era controlada por freiras nas revistas do Jonah Hex. Teria sido melhor do que um grupo de bandidos, just saying.

– Joe Kubert recebeu uma pequena homenagem no episódio. É possível ler um letreiro com o nome ‘Barbearia do Kubert’. O autor foi responsável por vários números de Jonah Hex e Gavião Negro.

– Jonah Hex foi criado em 1972, por John Albano e Tony DeZuniga. Sua primeira aparição foi em All-Star Western Vol 2 #10. O personagem é considerado um anti-herói, especialmente por suas atitudes questionáveis e a sensação de que ele não se preocupa com ninguém, além de si mesmo.

– H.G. Wells é o nome do menino que Stein salvou, mas a referência vai muito acima. Este é o nome do autor do romance ‘A Máquina do Tempo’, ‘Ilha do Dr. Moreau’, ‘A Guerra dos Mundos’ e tornou-se memorável por seus trabalhos com ficção cientifica. Ou seja, foi graças ao seu momento testemunhando a briga entre viajantes do tempo que ele se transformou em um mestre da temática de ficção cientifica. Bacana.

– Existem outros personagens conhecidos da DC e que fazem parte de sua linha Faroeste. Nighthawk e Cinnamon são dois deles, mas que não ganharam menção durante o episódio. Existiu, porém, uma pequena conexão com Nighthawk e o Gavião Negro. Hannibal Hawkes é o nome civil de Nighthawk e descobrimos através da Kendra daquela linha temporal que este também foi o nome de uma das encarnações de Carter.

– John Wayne não foi uma brincadeira com o sobrenome do Batman, mas sim com o mais famoso cowboy do mundo.

– Quentin Turnbull é o nome de um vilão de Jonah Hex nos quadrinhos. Também foi o antagonista escolhido para o filme de 2010 e interpretado por John Malkovich.

– “Klemmer and Sons” é uma referência ao showrunner da série, Phil Klemmer.

– Gostei de ver a nova versão do Mick, bem menos irritante e vilanesco. Ainda bem que conseguiram varrer qualquer plot ao redor de sua transformação para debaixo do tapete, graças aos anos em que ele serviu como Chronos. Se isso é bom ou ruim, você será o juiz.

– Amizade da Sara e da Kendra é linda de se ver, mas ainda preciso de mais do que apenas uma festa na fogueira do coração partido.

– Não mexa com a linha do tempo, perigosa. O vilão chegou? Esquece a linha do tempo, ninguém vai acreditar nesse povo mesmo. Ué? ¯\_(ツ)_/¯

– Próximo episódio terá a trama chupada de Exterminador do Futuro, com uma assassina enviada pelos Mestres do Tempo para apagar versões mais novas dos nossos heróis. Já temos uma Sara, só falta ela adotar o sobrenome Connor.

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