Legends of Tomorrow escorrega, mas continua divertida.

Falar que Legends of Tomorrow é uma série perfeita é fechar os olhos para os defeitos de uma produção que estava sendo vendida como o épico de super-heróis da DC CW. Desde o início da divulgação através de pôsteres, chamadas e vídeos de apresentação, além da inclusão de seus novos personagens e desenvolvimento de tramas em Flash e Arrow, a mensagem parecia bem clara: Estes são os Guardiões da Galáxia do mundo das séries adaptadas. Apesar do desejo, por enquanto o que estamos assistindo é uma grande sucessão de episódios medianos, mas divertidos. Pode não ser o que os produtores e roteiristas visualizaram quando decidiram começar com essa empreitada, porém, é o suficiente por enquanto.

Melhor do que um episódio que aproveita a presença do Snart para uma cena rápida é um episódio que o utiliza como força motriz de todo um capitulo. Ray é enfadonho, bobalhão e extremamente otimista. Não tem como levar a sério o Átomo, não quando ele não está falando a respeito de ciência, ou lembrando a audiência que ele é uma águia escoteira e não um mirim. Ter toda a dinâmica de espiões e colocar Snart como o mais próximo de um 007 é ser inteligente e utilizar bem o ator e os recursos apresentados pelo elenco. Também só salienta o quão bem o Capitão Frio funciona com qualquer outro membro do time. Tudo bem que podiam ter deixado os russos sem sotaque, afinal, todo mundo ali estava falando russo, mas um mero detalhe como esse não pode estragar o desempenho final de um episódio bom.

A dinâmica dos membros também foi bem bacana em White Knights. Eles se provocam, se ajudam e se prejudicam de uma maneira tão orgânica que fica crível o status de desajustados destes heróis e vilões. Ninguém ali é perfeito e ver o roteiro reafirmando este detalhe através de boas interações é um dos aspectos mais divertidos e o que faz dela um bom investimento. Sara critica Kendra sem o mínimo toque ou cuidado que qualquer outra série investiria, é cômico e ao mesmo tempo trágico já que estamos falando de uma mulher que perdeu recentemente o amor de suas vidas passadas. Qualquer outra iria propor uma conversa enviesada, através de chamadas de canto, mas aqui não, o deboche é jogado durante o resumo da missão e ninguém, além da própria Kendra, se sente ofendido. O teor de Legends é esse, ser uma caricatura do que os super-heróis de hoje em dia são. Ela não é um emaranhado de maníacos como será Esquadrão Suicida, mas também não é uma Liga da Justiça. Todo mundo ali é defeituoso e de algum modo honrado, e eu aprovo bastante esse viés.

Veja como a abordagem de Legends of Tomorrow está defasada no quesito mais “importante” para a série e sua trama principal: Na teoria Kendra é parte fundamental da equipe, mas na prática ela parece a menos conectada do grupo. Ela e Sara dividindo o mesmo tipo de trama enfraquece o roteiro da série, de uma maneira que talvez os roteiristas ainda não tenham percebido. Por qual motivo você vai colocar duas personagens iguais, sendo que a primeira já tem um apelo maior com o público e é interpretada por uma atriz mais competente? Tudo trabalha contra a Mulher-Gavião e após a saída de Carter a trama da moça pulou do penhasco. A oportunidade perfeita para que Kendra mostrasse quem ela realmente é escorre pelos dedos dos roteiristas conforme a trama da personagem soa como uma repetição da história da Sara. Nunca me senti tão mal na minha vida até ter ouvido: “Sem o Carter perdi o controle”. Que morte lenta.

O problema fica maior quando a série decide colocar a loucura momentânea da Kendra como motivação para a trama da Sara. A união do episódio passado entre a assassina e o Rip havia sido um dos pontos mais altos de Blood Ties. Essa falta de unidade faz com que a característica principal da série seja praticamente anulada. Do que adianta formar um time, se ele nunca age como time? Tudo bem, imagino que o desafio para criar uma cena com todo mundo ao mesmo tempo seja enorme, mas esse problema deveria ter sido antecipado pelos roteiristas lá no planejamento da série. Ou seja, problema deles. Quero aquilo que foi prometido e espero que em algum momento isso ocorra e não estou me referindo a apenas cenas de ação, mas elas também contam.

Minha teoria de que as “Lendas do Amanhã” são as responsáveis por criar e motivar o Vandal Savage apenas se reforçou neste episódio. O Rip já informou ao inimigo o nome do filho, além da foto da esposa e a informação de que a morte dos dois motiva o viajante a voltar no tempo. E agora, graças ao Firestorm, o vilão está tentando recriar a mesma tecnologia para a criação de um exército. Como eu disse, aos poucos o time está abastecendo o inimigo com a motivação necessária para a destruição do futuro. É ousado e bastante interessante, especialmente pensando no que será necessário para, de fato, impedir Savage. Perceber que no final você é parte do problema será bem cruel para esse time que quer fazer a diferença, mas é a vida. C’est la vie!

Apesar de pequenos tropeços durante sua execução, com mais um episódio leve e divertido, LoT cimenta sua participação no universo da DC CW como uma produção para ser aproveitada sem maiores ambições. De fato, o mote para esta que preza mais por momentos engraçados, do que pela construção de algo mais complicado. O mercado é amplo e eu gosto de saber que entre séries sombrias como Demolidor e com discurso forte como o de Jessica Jones, existe uma com um grupo de mocinhos e vilões querendo salvar o futuro, mas fazendo uma verdadeira bagunça no processo.

Easter eggs e outras informações

– Ray foi chamado de escoteiro pelo Snart. Interessante a utilização do apelido, já que Brandon Routh interpretou no cinema o maior escoteiro do mundo, Superman.

– “Dois meses atrás eu era uma barISTA”. Mas ainda não vi oferecendo um cappuccino para ninguém ali, então, qual a necessidade? E outra, será que os roteiristas acham a palavra engraçada e por isso a personagem repete a cada cena? Já deu.

– “Agora você é irritante em múltiplas línguas” – Snart, meu herói.

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