Ao introduzir mais uma nova criatura sobrenatural sem uma explicação adequada para tal, Legacies repete os erros dos episódios anteriores e permanece sem foco narrativo. Hope is Not the Goal confirma o que temíamos: o spin-off de fato pretende seguir no estilo de Supernatural, mas diferente da gigante da CW, sem o compromisso de costurar o roteiro e suas histórias apropriadamente. Continuaremos vendo casos semanais em Legacies, cada qual com sua nova espécie sobrenatural e sem a obrigação em se manterem interligados, quase como se estivéssemos (exagerando um pouco propositalmente) acompanhando as antologias de Black Mirror (onde apenas os personagens permanecem – temos sorte que as gêmeas são carismáticas, já que Hope estava um pouco apagada essa semana).

A oportunidade de expandir o universo criado em TVD se mantém, porém a preocupação em identificar o objetivo da série, bem como sua trama central, se torna cada vez mais frequente. Ao analisarmos o episódio dessa semana, por exemplo, nos deparamos com uma infinidade de perguntas sobre a nova criatura. Diferenremente de SPN, que dedica cada minuto para destrinchar a mitologia por trás de seus casos semanais, o roteiro não toma o cuidado em explorá-las adequadamente. O quê era o monstro: a própria Arachne do mito grego ou apenas um ser humano como qualquer outro que tornou-se uma aranha gigante pelo mesmo motivo que transformou a talentosa mortal de Lídia que conhecemos das histórias? E isso continua (mantendo o ritmo do dragão): porque não há magia nas teias, possibilitando que Josie drenasse delas ao invés de beijar o Rafael, numa clara conveniência de roteiro a fim de dar um pontapé na relação dos personagens?
Qual o objetivo da aranha: ela assume a aparência de suas vítimas, mas e o que acontece com elas? Ela precisa matá-las para transformar-se nelas? Sasha permaneceu viva, mas e o Connor, qual terá sido o destino do jovem que tinha uma leve função de antagonista na trama (algo extremamente necessário e que precisa de mais atenção)? Não ficou claro se ele morreu ou se ele encontra-se preso em alguma teia por Mystic Falls. E, infelizmente, a ausência de explicações não é uma exclusividade das novas criaturas, pois até mesmo as cenas mais simples estão sendo jogadas na narrativa de forma preguiçosa e sem sentido, como é possível ver claramente nas cenas do Rafael com sua matilha. Se os lobos queriam apenas ouvir a história de como sua maldição foi ativada, por qual motivo, então, eles o atacaram de forma tão impiedosa e agressiva? Depois eles tratam-no respeitosamente, como se nada tivesse acontecido antes. Que sentido existe nisso? Coerência pra quê né?

Apesar dos pontos citados acima, é justo dizer que o episódio não foi completamente ruim. Hope is Not the Goal apresentou cenas bem interessantes, aumentando a expectativa que gira em torno da identidade de Landon e a relação conflituosa que as gêmeas estão destinadas a enfrentar ao longo dessa e das próximas temporadas. No que tange as filhas de Alaric, fica cada vez mais claro que o envolvimento entre Josie e Rafael será o provável estopim para que Lizzie se aproxime da personalidade e instabilidade mental de Kai, seu tio pelo lado materno do clã Gemini. Por enquanto é possível identificar apenas uma pequena fagulha de inveja e desentendimento entre elas, mas podemos perceber que tudo isso pode mudar da água para o vinho num passe de mágica. Com o desenrolar da temporada atual, tendo em vista que Josie vem assumindo um lado ativo e saindo das sombras da irmã, e com o sumiço de Caroline, tudo indica que Lizzie logo perderá o controle de suas próprias atitudes. Mas, Vinícius, o que isso pode significar para o futuro do spin-off?
Pode parecer loucura, mas a trama que envolve as gêmeas é bastante previsível e pode ser contada de forma linear: Josie irá cansar de viver em função da irmã, o que, consequentemente, a incentivará a se relacionar com Rafael; Lizzie, revoltada com a situação e com toda a carga dramática da proximidade de Alaric com Hope, se aproximará de seu lado negro (vai virar uma sith) e, como previsto nas hipóteses que giravam em torno do anúncio de Legacies, pode vir a desempenhar o papel que Kai teve em TVD, ao tentar absorver a irmã no ritual dos Gemini (onde, vale lembrar, sobressai aquele com maior capacidade mágica). É claro que a revolução entre as duas está apenas começando, como bem pontuou Josie ao final do episódio, não acredito que essa será a temática da série por um bom período de tempo. Eu suponho que ao final da temporada será revelado o motivo do desaparecimento de Caroline, mas apenas a segunda (caso seja renovada) abordará a mitologia por trás do clã Gemini.

Já no que diz respeito ao Landon, poucas foram as revelações, no entanto, a expectativa em cima de sua identidade aumenta a cada episódio que passa. A faca permanecia intacta na mansão, sem atrair qualquer tipo de criatura até o piloto, porém, com a chegada de Landon e no instante de seu toque, ela foi ativada. O que isso pode significar? Será que o personagem é de fato uma nova espécie de criatura, como apresentei na review passada, ou ele é apenas um “meio para um fim”, servindo como uma chave para que o artefato fosse ligado? E ainda, por qual motivo a aranha/arachne estava presente em Mystic Falls e não perseguindo quem de fato estava com a adaga? Com isso em mente, o que impede de que Landon também atraia os seres sobrenaturais, numa clara semelhança com o objeto? Uma coisa é certa: quando a aranha estava no corpo de Connor ela não atacou Landon e ainda parecia hipnotizada pelo jovem adolescente. Meio suspeito, não?
Qual é o palpite de vocês? Landon não faz parte de nenhuma das classes de seres sobrenaturais que conhecemos, o que mostra que ele é algo totalmente novo. Será que ele é uma espécie de juiz (como expliquei na última semana) ou um ser oriundo dos livros de The Vampire Diaries, que possui pouco conteúdo semelhante à série, mas que sempre foi além ao expandir seu universo sobrenatural com novos monstros e entidades misteriosas? Os livros apresentaram os já acostumados vampiros, lobos e bruxos, mas também inseriu em suas páginas a presença de anjos (não, o Castiel nada tem haver com isso) e kitsunes, espíritos demoníacos que podem assumir a forma de raposas (corrijam-me caso eu esteja errado). Será que Julie Plec decidiu tomá-los como base para criar Legacies? Será que o Landon pode ser um anjo? Independente do que for, vamos deixar de ser ingênuos, a população de um mundo sobrenatural como esse não se reduziria à tríade padrão de criaturas.

E por falar no número três, não tem como falar do que aconteceu na semana sem destrinchar cada palavra dita por nossa querida tríbida ao final do episódio. Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a ausência de menção aos Mikaelsons e a dor que Hope sente pela perda deles, Hope is Not the Goal calou a boca de cada um que reclamava da caçula da família. Sua sabedoria foi tanta, que ela conseguiu alcançar até mesmo o coração de Lizzie, que sempre guardou rancor pela colega de escola. Hope tem tido pouco tempo de tela, apesar de ser protagonista, no entanto, esse foi o diálogo mais significativo dela até o momento. Ao contrário dos outros estudantes, que têm problemas semelhantes e cuidam uns dos outros, a tríbida não apenas é impedida de revelar sua origem, como possui lembranças tenebrosas e marcantes sobre o fim de seus parentes, totalmente diferente num comparativo com o que cada aluno já passou em vida. É através desse momento que vemos que Hope desempenha o papel de arma secreta de Alaric (pelo seu conhecimento e sua relação com Freya), o que a aproxima do diretor, e uma maturidade fora do normal da sua idade e de todos os outros personagens da mansão.
Porém, Hope não é um objetivo a ser seguido, até porque ela está longe de ser perfeita, mas parece ser aquela que mais precisa de atenção e cuidado, por estar sempre à beira do mesmo abismo que puxava Klaus e forçava-o a ser agressivo e maligno. Ao contrário de Klaus, que fazia o que fazia por causa de sua experiências passadas, Hope trilha um caminho perigoso, marcado por luto e sofrimento. A tríbida perdeu tudo e mais um pouco no caminho que percorreu até o spin-off. No entanto, não é apenas sua dor que é extremamente palpável, mas principalmente seu posicionamento perante tanta perda desde que nasceu. Numa clara alusão aos vampiros que desligavam suas humanidades em TVD e à vida real de modo geral (senti no fundo do meu coração), Hope expõe a fala mais impactante de Legacies até então. Não devemos esquecer da dor que sentimos ou do que levou-nos para tal lugar obscuro, pois isso não ajuda ninguém, sofrer e sentir cada lembrança com quem perdemos é essencial e a chave para passar pelo luto. O que fica depois da morte de entes queridos são as memórias boas, elas que nos incentivam a continuar lutando em vida. Obrigado pelo apoio indireto, Legacies!

Agora, por outro lado, será que o pedido que Josie fez ao pai terá alguma conexão com a ameaça velada de Matt? Com Kaleb preso (óbvio que ele ainda trará problema – até porque ele plantou uma semente da discórdia em MG ao revelar a natureza do sangue disponibilizado na escola), o que pode acarretar na ruptura da amizade entre Alaric e Matt senão o envolvimento das gêmeas nessa história? Apesar de concordar com o apontamento feito pela Josie, o que garante que as bruxas e bruxos (creio que isso está mais atrelado a essa espécie de criatura sobrenatural em si) da escola saberão separar quando devem ou não usar as magias ofensivas que podem aprender na escola? Todos precisam aprender a se defender e não depender apenas de Hope, mas até que ponto Alaric poderá controlar seus estudantes, impedindo-os de se descontrolarem ao usar o que foi aprendido para vinganças pessoais ou em ataques a humanos da cidade? A trama central continha um mistério, mas, felizmente, podemos ver em Landon, na briga das gêmeas e na guerra com os humanos, uma esperança de que a série não está tão perdida e sem rumo assim. Não custa acreditar, não é verdade?
Por fim, qual será a importância da nova criatura misteriosa que surgiu nos momentos finais do episódio? Das duas uma, ou ela é apenas mais um monstro que está em busca da adaga, como o dragão e os outros, ou, como espero, alguma entidade mais forte e que possa se tornar o grande antagonista da temporada. Sempre concordei com a ideia da série em apresentar novas espécies, no entanto, Legacies não pode seguir seu caminho apenas com casos semanais que não sejam um perigo real para os estudantes. Legacies precisa de um vilão adequado, algum personagem que desempenhe o papel que Klaus, Silas, Dahlia, Katherine, Kai e tantos outros representaram ao longo de suas séries maternas. Infelizmente nada sobrevive apenas de nostalgia, dramas teens corriqueiros ou oponentes isolados na história, sabemos que isso não garante uma renovação. Fica cada vez mais claro que o spin-off necessita urgentemente dar mais atenção à sua trama principal e ter foco narrativo.
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Isso é tudo, pessoal, chegamos ao fim do review. Dessa vez eu demorei demais para escrever a crítica da semana e peço desculpas por isso. Como foi possível perceber mais acima, hoje mais do que nunca eu entendo o sentimento de luto que a Hope ainda passa. Infelizmente na última semana um amigo do trabalho faleceu num acidente grave e eu fiquei sem condições de escrever ou sequer pensar em qualquer coisa. Ainda estou sofrendo por sua ausência, mas sigo forte e com a esperança de que ele encontrou paz em seu novo caminho. Desde já agradeço a força do pessoal do grupo, que soube imediatamente e me transmitiu bons pensamentos. Bem, fiquem sabendo que o próximo episódio vai ao ar apenas no dia 30 de Novembro, com o título “Malivore”. Aguardo vocês na semana que vem, ok?
Curiosidades e Comentários:
MG e a representatividade de Legacies
Creio que nunca disse antes, mas é interessante ter um personagem com características tão originais como as do MG no mundo de TVD e TO. Normalmente, vampiros eram símbolos de coragem, onipotência e força bruta. No entanto, MG representa o oposto do mito construído em cima dessas criaturas: ele é medroso, atrapalhado, cômico e inteligente de uma forma totalmente diferente dos vampiros que estamos acostumados. Isso, ao meu ver, é extremamente bem-vindo, pois é mais um exemplo de representatividade em Legacies. Temos nele um vampiro nerd e corajoso a sua maneira; no Rafael, um galã negro (se não me falha a memória Marcel era um dos poucos até hoje) e Landon, um protagonista masculino fora dos padrões de beleza que as séries teens da CW sempre impõe. Com base nisso, Legacies já ganhou não apenas meu coração, mas principalmente meu respeito!
Ostentação
Não é tão relevante, mas eu precisava fazer esse comentário: é impressionante o nível de ostentação da Escola Salvatore! Alaric e Caroline realmente pensaram em tudo ao construírem o local. Nesse episódio foi possível ver que os estudantes têm, além de arquibancada, bibliotecas e campo de futebol, uma enorme piscina! Prioridades não é, gente?
Referências
O quarto episódio trouxe-nos novas e hilárias referências das culturas pop e nerd adolescente: o Gorila Grodd (um primata de grande intelecto com poderes telecinéticos), um dos inimigos do super-herói Flash, visto diversas vezes na série The Flash; o assassino mascarado da franquia “Pânico” e Jogos Vorazes, no hilário momento em que Lizzie se voluntaria para a missão da semana, numa clara referência à cena em que Katniss Everdeen toma o lugar de tributo da irmã Primrose num bizarro sorteio no distrito 12 (sim, conheço tudo).
Lizzie
Te entendo, Lizzie, eu também não sei nada de matemática, sempre me confundo ao fazer contas. Não sinta-se mal, todos nós somos de humanas!
Siphoners
A título de informação: nesse episódio é revelado que Josie e Lizzie drenam magia das paredes da escola para realizar pequenos feitiços. O que isso implica? Será que a mansão esta impregnada de magia devido a grande quantidade de seres sobrenaturais presentes no local ou há algum motivo misterioso por trás disso?
Grupo no Telegram (SM – The Originals)
Pra quem ainda não sabe, eu criei um grupo no Telegram voltado estritamente para os leitores dos meus textos de The Originals e, agora, de Legacies aqui no Série Maníacos. Tem sido muito interessante esse contato com vocês, então, quem ainda não estiver no grupo e quiser fazer parte para discutirmos sobre o spin-off, basta clicar aqui. Aguardo vocês por lá!














