Nova tentativa de Anitta em mostrar-se além de sua persona pública falha na busca pela naturalidade.

Anitta é a maior estrela da música pop do nosso país. Isso quem diz são os números, são as inúmeras conquistas que ano após ano a colocam cada vez mais segura no primeiro lugar desse pódio. E ela sabe disso; explora isso, celebra isso, sem modéstia, com a segurança de quem olha para si de fora para dentro. Goste ou não de sua música ou de sua figura pública, não se pode negar o quanto ela alcançou como artista.

Também é dela uma certa ansiedade em mostrar-se mais “humanizada”. Larissa: O Outro Lado de Anitta é seu terceiro título documental na Netflix (Vai Anitta e Made in Honório foram os anteriores), mas enquanto nas outras incursões no gênero – focadas mais em seu trabalho – ela parecia autêntica em sua ambição muitas vezes dramática para aqueles que a cercam, em Larissa: O Outro Lado de Anitta ela surge mais calculadamente produzida que nunca.

A ideia soa promissora na sua sinopse: durante as filmagens do documentário, o diretor Pedro Cantelmo – amigo de infância da cantora – e ela se apaixonam e começam um relacionamento. O relacionamento não vai adiante, mas Pedro resolve tornar esse um título que passa a figura da cantora por essa ótica: a de um antigo amor, diante da maior estrela do país, acompanhando-a com o olhar de um súdito, um mero mortal perante o gigantismo de uma entidade.

Os problemas começam aí. É emblemático que esse seja um título com a pretensão de revelar mais da pessoa anônima que Anitta já foi um dia, mas que já comece com a cantora contando uma história de sua adolescência, em inglês; numa espécie de demonstração involuntária de que Larissa tem dificuldades reais de afastar-se de Anitta (algo que ela mesma admite em determinado ponto do doc). Ela lembra muito as tentativas que Britney Spears fez no passado, também de forma documental, com o mesmo intuito; e assim como aconteceu com Britney, há uma impossibilidade notória de esvaziar essa celebridade para deixar vir à tona aquela que tanto Anitta quanto Britney insistem em afirmar que ainda está ali em algum lugar.

A narração de Pedro Cantelmo pretende tornar o clima do documentário mais emocional, mas o texto nem sempre consegue fugir de um endeusamento desnecessário, cafona. A Larissa que o diretor narra tampouco nos parece autêntica. Nas sequências em que deveria parecer mais verdadeira, Anitta se revela excessivamente efusiva, quase infantil, falando para uma câmera que ela trata como se fosse um dos fãs à espera de sua nova peraltice.

É impossível não pensar em Um Lugar Chamado Notting Hill, em que um desengonçado Hugh Grant tenta administrar o peso de se relacionar com uma estrela do calibre de Julia Roberts. O documentário que deveria ser sobre Larissa, vira o documentário sobre Larissa e Pedro; e enquanto ouvimos os pensamentos dele sobre tudo que vive ao lado dela, o nosso acesso a ela está um degrau abaixo disso. Pedro, enfim, parece mais aprofundado que a própria Larissa.

Curiosamente, é justamente quando Anitta aparece trabalhando que ela soa mais autêntica. Quando ela fala do amor pela cultura do nosso país e pela própria família, é que parte de seu objetivo escapa de toda aquela impressão de falsa intimidade nos momentos compartilhados com Pedro. Quanto mais ela se esforça para não parecer “a Anitta”, mais ela parece se afastar de Larissa; e o dilema é real. A pressão de ser considerada duas pessoas diferentes atinge a cantora em cheio; e ela acredita – piamente – que seja esse o caso. Exatamente por isso, é surpreendente que ela tenha permitido ser contada pela ótica de um homem, ao invés de continuar falando por si mesma.

O amor de Anitta pela música e pelo Brasil é sempre comovente. Ela vem de bases familiares claramente sólidas; mas dificilmente alguém que tem o tamanho da fama dela passa pela vida sem sofrer grandes transformações. Embora a “narrativa” criada pelo diretor do documentário seja uma barreira muito mais que uma revelação, Anitta é uma cantora que só quer ser feliz fazendo o que ama e paga o preço do desconforto da exposição da maneira mais gentil possível. Ela merece reconhecimento e o quanto puder achar de paz interior.

Mas… talvez não haja pessoa nenhuma escondida nos louros da fama e as pessoas simplesmente só crescem… e mudam.

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