Logo nos primeiros vídeos de Kong: A Ilha da Caveira já se podia esperar um filme com uma técnica bem empregada e uma bela fotografia. Também há toda a carga de se mexer, novamente, com um mito já estabelecido anteriormente por outras produções. A trama já deixava um ar de filme pipoca com referências aos clássicos do cinema. E o maior acerto do filme, certamente, é se assumir dessa forma.
A trama se passa em 1973, pós-guerra do Vietnã (também conhecida como uma das vergonhas que o Exército Norte-Americano não gosta de se recordar), onde o mundo começa a tomar rumos diferentes. Também temos menção à Guerra Fria de uma forma muito interessante dentro do roteiro. Dentro desse cenário, o cientista Bill Ronda (John Goodman) e o geólogo Huston Brooks (vivido por Corey Hawkins) buscam permissão no Senado para iniciar uma expedição a terras inexploradas de uma ilha misteriosa na Costa do Pacifico. Junte a isso uma escolta militar composta por buchas de canhão e um sargento sem propósito agora que a guerra terminou (Samuel L. Jackson), um mercenário desertor do exército britânico interpretado por Tom Hiddleston e uma fotógrafa com fome de uma grande manchete com as feições de Brie Larson: temos aqui a receita ideal, repleta dos arquétipos que o cinema pipoca necessita para sobreviver.
Jordan Vogt-Roberts não tem medo de assumir suas referências cartunescas e de escancarar que está emulando diversas referências estilísticas, todo o tom do filme é pautado nisso. As seqüências de ação e o mise-em-scène bem pensado nas mesmas é um triunfo, visto que não é usual no cinema hollywoodiano. O longa conta com cenas memoráveis por sua construção intensa; seja na desenfreada chegada a Ilha da Caveira e sua glorificação à destruição que é parte do gene Norte-Americano; seja proporção e na planificação pensada quadro a quadro para o antagonismo entre determinados personagens se tornar palpável ou até mesmo na claustrofobia causada por uma cena envolvendo muita fumaça e um câmera fotográfica. Vogt-Roberts não tem medo de se assumir brega em determinados momentos, mas esse é o fator que faz o filme funcionar.

Vale aqui um adendo ao trabalho de fotografia de Larry Fong (Batman vs Superman: A Origem da Justiça e 300) que nos deslumbra e nos insere dentro daquela realidade de monstros e macacos gigantes. Ao primoroso trabalho de Edição de Som, que mescla de forma bastante satisfatória os momentos explosivos com pequenos detalhes sonoros.
O espetáculo visual do filme é memorável, não apenas por sua pirotecnia exacerbada, como por sua câmera sempre buscando a aproximação de todo aquele espetáculo. O 3D bem executado ajuda muito na imersão, com moscas passando ao seu redor, monstros surgindo a todo momento numa proximidade excessiva. O uso do jogo de luzes para expressar os sentimentos de personagens e ainda um alívio cômico que é bem usado, mas aos poucos se torna cansativo.
Falando de atuações, temos os atores encarnando típicos arquétipos. Tom Hiddleston entra de cabeça em seu papel de herói clássico, sempre com uma pose pomposa, projetando o peito. Brie Larson por sua vez é a mocinha, porém, menos omissa e a espera do príncipe encantado, ela depende até certo ponto do explorador. Samuel L Jackson antagoniza a tudo e a todos em sua composição de militar de forma tão realista que você sente um calorzinho no peito com o desfecho concedido para o mesmo. Temos ainda John C. Reiley, impagável como um velho louco, mas nem tanto assim. Não há nada muito prismatizado no longa, os personagens e a trama existem para ser simples, para te entreter.

Apesar dessa simplicidade assumida na trama, temos alguns momentos em que o roteiro cutuca o American Way e faz piada descaradamente com isso, seja ao abordar como o exército passou vergonha no Vietnã, seja na pontinha de orgulho ferido ao mencionar a Guerra Fria ou até mesmo nas ações tomadas logo na chegada à Ilha, como seus “instrumentos de mapeamento sísmico”.
De modo geral Kong: A Ilha da Caveira é um filme que cumpre seu propósito e não tenta ser mais do que realmente foi pensado para ser. É um ótimo entretenimento, que funciona perfeitamente dentro de seus padrões e realmente vale a pena.
Em tempos que tudo precisa ser complexo, intrincado e com enormes plot twists, numa execução de dar inveja a diversos diretores renomados, Jordan Vogt-Roberts aposta na reinvenção do mítico gorila encontrando Apocalypse Now e se sobressai por sua simplicidade.
> Só tem Spin-off e Revival na TV!
Obs.: Tem cena pós-créditos dando gancho para um universo compartilhado que vai ser muito divertido, visto os dois exemplares mais recentes.














