Jurrasic World, concordemos, não foi exatamente uma obra-prima. Das incontáveis reclamações direcionadas à ressurreição do clássico noventista absoluto de Steven Spielberg, orquestrada por Colin Trevorrow, a mais repetida incansavelmente dizia respeito aos personagens mal desenvolvidos, ao cerne espiritual da franquia que parecia ausente nos novos protagonistas, Owen e Claire, ou dos secundários Gray e Zach. O que Jurassic World conseguiu, entretanto, foi ser um acerto de mercado absoluto, monopolizando bilheterias mundo afora com a ajuda de espetáculos megalomaníacos de efeitos especiais que trouxeram à vida novos dinossauros ultra-extravagantes. O resultado foi… Divertido, mas passou longe do deslumbramento e encanto fornecido com o primeiro filme da franquia, lá em 1993, quando os tais efeitos eram de fato surpreendentes, e mesmo assim não eram a única atração do parque.
Minha expectativa particular para a continuação do filme de 2015 era de que J.A. Bayona pudesse se desvencilhar das “obrigações” relacionadas ao imaginário de Spielberg e, por que não, abraçar de vez o espetáculo introduzido por Trevorrow, de uma forma mais honesta e menos nostálgica. Mas o primeiro ato de o Reino Ameaçado é no mínimo surpreendente. A premissa carrega conceitos inteligentes, e influencia os personagens novos, bem como Owen e Claire, de uma forma verdadeiramente emocional, tentativa constantemente frustrada no longa anterior. É palpável a relação de Owen e Blue, a paixão sincera de Claire pelos dinossauros, e o mesmo vale para Zia (Daniella Pineda) e Maisie (Isabella Sermon), boas adições ao elenco de apoio – certamente melhores que Gray e Zach – e que servem funções específicas, determinantes e potentes à trama. O Frankling de Justice Smith, por outro lado, não passa de um alívio cômico cansado. Parece, portanto, que Jurassic World irá seguir um caminho bastante original, e que preza aos laços importantes da trilogia original, sejam as relações humanas ou as relações entre humanos e animais. Há uma cena, no início do segundo ato, que remete claramente ao momento clássico de Jurassic Park entre Ellie e o braquiossauro, aqui protagonizado por Zia, competentemente. Estes momentos breves ausentaram-se do filme de Trevorrow, e talvez essa falta de conexão tenha sido seu grande demérito.

Na ilha, entretanto, Bayona de fato aposta na natureza espetacular por ele herdada: soldados atirando em dinossauros fugindo de um vulcão em erupção por pouco não pisando nos heróis que fogem e mergulhar n’água e se salvam do afogamento e encontram um caminhão e finalmente escapam da ilha. Não há muitas reservas, muito menos tempo perdido. As ações e tensões se desenrolam freneticamente. Por isso mesmo, portanto e surpreendentemente, que essa parcela apocalíptica do filme, cerna da campanha de marketing do filme, é um momento chave mas fugaz no conjunto da história. Reino Ameaçado faz um caminho curioso, nada convencional para o blockbuster moderno: centenas de dinossauros correndo da lava não habitam o clímax do filme, mas, de certa forma, o início da ação, o miolo se passa dentro um barco em alto-mar, e a conclusão da jornada se dá dentro de uma casa abrigando alguns poucos dinossauros cuja maioria passa 95% do filme atrás das grades. Trata-se de uma mansão, é justo dizer, mas nada comparado ao espaço grandiloquente da Ilha Nublar. Há, inclusive, lampejos da também icônica cena da cozinha em Jurassic Park, principalmente nos momentos encenados em uma sala-museu cheia de fósseis e esqueletos.
Mas no fim das contas, muitos dos “defeitos” aqui são os mesmos de Trevorrow, mas carregam um peso bem menor. O romance entre Claire e Owen é, para não medir palavras, insuportavelmente entediante e profundamente desnecessário; a escarcéu de CGI é mais contido, mas ainda sim um tanto desmoderado nos últimos 30 ou 40 minutos de filme; os twists de roteiro não só são previsíveis como são gastados na história da própria franquia, que parece se repetir (e se esgotar) a cada nova história; a trilha sonora é tão enlatada que em certo momento me veio na mente a abertura de um jogo da Champions, e creio que esse não tenha sido o objetivo numa cena em que um dinossauro geneticamente modificado cai de um teto de vidro e é atravessado pelos chifres fossilizados de outro dinossauro. É tudo ainda mais frustrante por que há vislumbres de um filme muito melhor em vários instantes. É o caso na recusa dos efeitos computadorizados e o uso de próteses em uma cena específica que envolve um braço mordido – por um dinossauro, caso não fique claro – e arrancado violentamente, o tipo de cena que não demanda tratamento de pós-produção que ainda são perceptíveis pelo espectador, e portanto muito mais bem colocadas em planos mais gerais, construção de mundo (há uma vista do vulcão atrás da fumaça deslumbrante, por exemplo, gerado artificialmente). É também o caso do twist final do filme, envolvendo a menina Maisie, que se pendura na linha tênue entre o chocante-mas-crível e o chocante-mas-exagerado, pelo qual Bayona, Sermon e os roteiristas merecem todo o crédito por abraçarem sem pensar duas vezes o risco, e o resultado é bastante satisfatório.
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O que resta de Jurassic Park: Reino Ameaçado, o que restou de Jurassic World, é aquela sensação de “agora vai” quando o lateral chega, arranca pro fundo do campo pra cruzar na área cheia de atacante, e aí continua arrancando, e continua, e sai com bola e tudo e o juiz apita e créditos. Hollywood precisa de mais franquias como essa – talvez o Pacific Rim de Del Toro e o Valerian de Luc Besson entrem nesse balaio, ambos também mal recebidos pela crítica – no sentido que são filmes nada obcecados pela onda majoritária dos filmes calcados no realismo, mesmo quando trata-se de super-heróis com capas voando. Esse espírito, cujo precursor foi o próprio Spielberg, foi abandonado em certo momento, e ele faz falta (as unanimidades são sempre negativas, já dizia alguém famoso). O cinema pode ser e pode fazer o que quiser. O que também quer dizer que ele pode gerar obras geniais, e pode gerar obras pavorosas, e pode gerar Jurassic World. Cruza, Hollywood, cruza.











