Jessica Jones vai à terapia para controlar sua raiva e nos entregar um ótimo episódio.

Este segundo ano de Jessica Jones não está tão poderoso quanto o primeiro, infelizmente. A falta de uma figura antagonista com presença marcante é o que mais está pesando negativamente para a trama. Usando uma frase que gosto de repetir sempre em minhas críticas, quer seja do universo da DC ou Marvel, uma heroína e uma série de super heroína/herói, só é tão boa quanto sua vilã principal. Até o momento, porém, Jessica Jones tem apenas duas figuras para suprir este espaço, a da corporação misteriosa liderada por uma misteriosa mulher e Pryce Chang, o investigador que serviu, até agora, como saco de pancadas e vítima das tiradas ácidas da protagonista. God Help the Hobo é um bom episódio exatamente por começar a trabalhar melhor uma vilã para Jessica, além de mergulhar no mistério da IGH, com um ritmo um pouco mais rápido.

Como já mencionei antes, um dos aspectos que mais valorizo em Jessica Jones e qualquer outra série ambientada em um mundo de histórias em quadrinhos, é o lado da vida privada dos personagens. É sempre muito interessante ver como pessoas que mantém, além da vida pessoal, uma responsabilidade com a segurança e proteção de outros, mesmo quando não quer ter qualquer envolvimento, vivem suas vidas. A abertura, com Jessica indo (forçadamente) para uma sessão de terapia para controle de sua raiva, é um ótimo exemplo. Ter estes heróis de uniforme, lutando contra alguma ameaça, com socos, chutes, escudos e raios é interessante, mas vê-los sendo desafiados intimamente é tão valioso quanto. Exatamente por este motivo séries com este tipo de personagem tendem a aproveitar bem as crises pessoais impulsionadas por problemas parcial ou completamente criados pelo alter ego heroico.

Da mesma maneira que Bruce Banner em Vingadores, Jessica Jones está sempre com raiva. Um grupo de apoio não conseguirá fazer com que ela controle seus impulsos, porque ninguém ali realmente está apto para compreendê-la. Contudo, o mero exercício de jogar a bolinha na parede enquanto se abre, já é o suficiente para canalizar aquele sentimento em um tipo de destruição menos letal – para ela e outros, não para a bolinha. É um movimento que diz muito a respeito da personagem e que já foi usado por outra produção para aproximar o telespectador do drama de uma complexa mulher. Em Grey’s Anatomy acompanhamos Meredith por um processo de descoberta e realização através da terapia, de uma maneira que nenhum drama particular, amoroso e profissional havia conseguido elucidar. Gosto de acompanhar produções que tratam o processo terapêutico como algo sério e não coloca o ato como um alivio cômico em que o terapeuta é praticamente um hippie desvendando um tratamento alternativo com incenso e óleo de patchuli.

Também é interessante ver como Jessica Jones coloca Jessica e Trish em lados totalmente opostos, apesar de serem tão próximas. Enquanto Jessica repudia qualquer tipo de terapia, Trish é aquela que encoraja e, por causa de suas experiências pessoais, abraça o processo. O processo de transformação da Trish nesta temporada também está interessante, apesar do pareamento um pouco sem sal. Griffin é um personagem bondoso, aparentemente, mas totalmente sem graça. Explorar mais do passado da “Patsy” enquanto atriz é uma ótima maneira de apresentar uma personagem mais complexa e calejada, mas as cenas com o namorado permanecem totalmente opacas, frente ao que a personagem poderia estar oferecendo com um texto melhor.

God Help the Hobo é um episódio que oferece uma missão bem mais centralizada para suas personagens, mas que também perdura no ritmo de banho maria que a série já é conhecida. O que fez deste capítulo um produto bem melhor estruturado e de ritmo até mais coeso, foi o fato de terem usado Jessica e Trish para realmente seguir uma linha melhor definida. Temos mais do relacionamento entre ambas como irmãs, além de uma reação que me fez amar mais ainda Jessica, após ver o vídeo gravado por Malcolm, com o produtor. A maneira que ambas desenvolvem o relacionamento que mantém como irmãs é excelente e sem sombra de dúvidas o ponto mais alto da série. Melhor ainda quando a interação entre ambas nos aponta para um caminho melhor definido, com a possível localização da mulher misteriosa.

Outra personagem que conseguiu um impulso em sua história dramática e que reafirmou a qualidade da série, que é bem mais alta quando está levando suas personagens para o limite, foi Jeri Hogarth. A maneira que ela encarou a mulher caindo da muleta na rua foi tão cruel, para ambas, mas de uma maneira que apenas nós – e ela – podemos compreender. Essa fragilização causada pela doença é algo que compete a Jeri uma história bem mais humana. Entretanto, a personagem conduzida brilhantemente por Carrie Anne Moss, mesmo doente, ainda consegue transparecer uma aura de superioridade e ego suficiente para nunca nos esquecermos de quem ela realmente é. Em determinado momento a relação entre ela e Jessica traz um pouco deste lado superior, mas bem mais brando. Obviamente também existe a preocupação de que Jeri irá, em algum momento, tentar tirar proveito da trama da IGH, assim como ela fez com Kilgrave. Resta saber se ela seguirá o mesmo caminho, especialmente após o resultado avassalador da primeira temporada. Lembre-se dos cortes, Jeri.

Também quero comentar a respeito de outro ponto levantado pelo episódio e que não é assim tão digno de parabéns. Quando a série mostrou Jessica tendo um sexo casual, na montagem mais casual da história dos sexos casuais, em um banheiro de bar, eu fiquei feliz. Gosto de ver como a série trabalha a vida sexual de suas mulheres. Neste episódio também tivemos Trish em um momento criado exatamente para nos lembrar que mulheres também tem este desenvolvimento dentro da cultura pop, que por muitos anos preferiu ocultar qualquer desejo pelo medo do telespectador não simpatizar com a mocinha. Recomendo inclusive a leitura deste artigo AQUI, que fala sobre como os executivos da ABC confessaram não ter gostado de Meredith Grey por sua cena de sexo casual no piloto de Grey’s Anatomy.

Mas mesmo a consciência sexual de Jessica Jones não blindou a série de um relacionamento extremamente clichê com seu vizinho, além de uma construção bem questionável a respeito da sexualidade da protagonista. Não existe nenhum problema no sexo casual, mas quando a série coloca Jessica “avançando” no seu vizinho e sendo freada por ele, enquanto tenta vender um possível romance sério entre os dois, praticamente nos diz que: para que existe seriedade, é necessário deixar de lado o impulso e o desejo. É uma abordagem mais puritana, para uma produção que nunca pareceu tão preocupada com este lado, e uma que não me agradou muito. Gostei de ver a Jessica interagindo com o filho Oscar, foi engraçado e tudo mais, mas não é o tipo de homem que eu gostaria de ver a protagonista envolvida – alô Luke Cage.

Mais do que impulso sexual, este quarto episódio trabalhou, principalmente, o tema da raiva e da violência. Jessica e Trish conseguem encontrar a moradora de rua, que na verdade é uma enfermeira envolvida com a IGH, mas o principal está no desenvolvimento delas enquanto mulheres tentando lidar com este sentimento. É algo que toda mulher um dia já precisou ouvir, a respeito de seu comportamento, usualmente atrelado a seu gênero. O texto de Jack Kenny é certeiro ao trabalhar estas questões através do comportamento da protagonista, da sua irmã e também da misteriosa mulher. Com um destino melhor traçado e com suas personagens parte do panorama maior, AKA God Help the Hobo conseguiu se movimentar com melhor velocidade e também com uma história mais envolvente.

Easter eggs e outras informações

– No mural da Perucas da Sally é possível ver uma foto de RuPaul, a drag queen mais famosa do mundo. You betta work!

– Chang é o típico homem tóxico que não aceita, em nenhuma esfera, ser desafiado por uma mulher ou perder para ela.

– Na revista de fofoca é possível ver o nome Hedy Wolfe, a grande inimiga da HQ da Patsy Walker.

– Jessica diz para o vizinho que “nós preferimos gifted”. Este é um termo bem comum nas histórias em quadrinhos, mas também é uma boa referência aos X-Men. Lembra da Escola do Professor Xavier para Gifted Studends? E a série da FOX, que se chama The Gifted? Não chega a ser uma referência direta, mas é definitivamente algo saído das páginas da Casa das Ideias.

– O filho do Oscar refez uma cena de Superman II, quando Lois Lane tenta provar que Clark Kent é o Superman ao se atirar da janela.

– A segunda temporada de Jessica Jones foi dirigida inteiramente por mulheres. O episódio número 4 teve direção de Deborah Chow (The High Cost of Living e  Mr. Robot).

REVISÃO GERAL
Nota:
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