Os garis mais elegantes de todos os tempos.

Spoilers abaixo:

A continuidade sempre foi um elemento presente nos episódios de It’s Always Sunny In Philadelphia. Mesmo não baseando todas as suas narrativas nesse específico recurso, é interessante ver como a série sempre manteve acontecimentos importantes próximos para utilizá-los a qualquer momento, sendo tudo que envolve Cricket um exemplo disso. “The Gang Recicles Their Trash” é um episódio que aposta em inúmeros tipos de humor, mas o caso mais importante aqui está relacionado a maneira como a série faz referência a vários episódios passados (“The Gang Solves The Gas Crisis”, “The Gang Finds A Baby Dumpster” …).

Essas referências, mesmo alternando entre sutis e gritantes, conseguem adicionar um tom diferente ao episódio, o que começa imediatamente em sua cold open, onde praticamente todas as falas dos personagens envolvem algum tipo de referência a episódios anteriores, no que acaba sendo o momento mais feliz do episódio quando falamos da qualidade de execução desse projeto.

O ponto principal que faz com que “The Gang Recicles Their Trash” seja algo tão maluco é justamente a sua premissa, que é uma ideia perfeita para uma simples cold open, mas acaba deixando pouco espaço para outras formas de humor convincentes durante o resto do episódio, o que faz com que os diálogos deixem bastante a desejar. Mesmo com isso, é algo notável ver como outros elementos são capazes de driblar algumas decisões criativas discutíveis do roteiro, como o trabalho de Kaitlin Olson* quando Dee finge ser negra para fazer com que os garis persigam Mac, Dennis e Charlie em uma sequência divertida por capitalizar em um dos pontos fortes da série: confusões causadas por acidentes.

* O episódio exibe alguns momentos bastante favoráveis a Dee, o que faz com que sua intérprete não decepcione, fazendo com que conceitos já divertidos se tornem sensacionais, como sua explicação sobre os twists que podem ser tomados por uma pessoa gay ao longo de sua vida. Uma piada que se torna ainda melhor quando Dennis reconhece e até comenta sobre isso algumas cenas depois.

Entretanto, mesmo diante de inúmeras adversidades criadas pelo próprio episódio, “The Gang Recicles Their Trash” funciona nas áreas em que o roteiro simplesmente abandona os personagens fazendo aquilo que eles fazem quando estão juntos, indo de acordo com uma correnteza que leva até as brigas de família entre Frank e Dee que são resolvidas em menos de duas cenas, mas que trazem o melhor de cada um deles. Momento pessoal: eu tinha até esquecido que a arma era uma das piadas recorrentes do Frank, o que gerou uma bela risada.

A capacidade da série de se conhecer também colabora bastante quando o roteiro trata da questão do plano de Frank. Todos nós sabemos que It’s Always Sunny In Philadelphia segue uma fórmula quando trata de um plano idiota dos personagens para passarem a perna em alguém. A ideia do episódio para fugir dessa lógica envolve justamente administrar as nossas expectativas logo na segunda cena do episódio, onde eles mesmos admitem que aquilo tudo falhará, mas decidem continuar** por descargo de consciência, uma característica típica deles.

“** Ok, ok… E aquela cena com o Charlie não entendendo nada que Mac e Dennis estavam falando? Momento pessoal²: Ainda não sei o que pensar sobre aquilo, se você for capaz de decifrar, por favor, apareça nos comentários”.

Por falar em Charlie, nunca deixa de ser agradável vê-lo como WILDCARD do grupo, apresentando mais uma das suas infinitas funções narrativas que sempre acabam funcionando graças à versatilidade do personagem. Aliás, é interessante ver como ele normalmente lidera as epifanias que levam a momentos hilários, como, por exemplo, a canção dos garis nas portas alheias e a última tentativa de fazer o plano funcionar.

Tudo isso faz com que “The Gang Recicles Their Trash” seja ao mesmo tempo uma execução não tão bem elaborada de uma já insustentável premissa e um bom exemplo de como um conjunto de bons personagens são capazes de funcionar individualmente ao ponto de transformar tudo em um experimento aprazível.

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