Caminhando para o fim.

Quando apresentada no upfront da CBS, ainda em 2013, Intelligence foi considerada certamente uma das estreias mais aguardadas para a mid season, por apresentar um formato procedural – considerando o estilo da emissora – diferente do que a população estava acostumada a se entreter, como as investigações criminosas. Embora os primeiros episódios, bem como os posteriores, não tenham cumprido exatamente tudo o que se propuseram ao gerarem enormes expectativas, não se pode negar que Intelligence consolidou-se como um drama apreciável, com um grande elenco e histórias que, apesar das falhas, conseguem atrair o telespectador. A um episódio do fim, não sei ao certo quais são os meus sentimentos acerca da despedida da série, visto que uma renovação é impossível. O fato é que Intelligence deixará uma ligeira saudade, muito provavelmente por saber construir roteiros inteligentes aprofundados no mundo tecnológico.

Isso se manifesta mais ainda após estes dois episódios, ainda que seus propósitos sejam muito divergentes. Enquanto The Grey Hat é um caso da semana típico, sem apresentar evoluções significativas para a trama principal e até incomodar em alguns pontos, The Event Horizon é um excelente episódio, que provoca uma imensidão de perguntas. A primeira delas talvez seja o porquê de Intelligence não ter trazido mais episódios como este, que simplesmente beirou a perfeição. Com uma trama ágil, intrigante e bastante desafiadora, este último foi alucinante ao fazer associação com um possível crime cometido por Gabriel, envolvendo absolutamente todas as pessoas ao seu redor.

Mas antes de elogiar exaustivamente o décimo-segundo episódio, é preciso comentar um pouco sobre The Grey Hat. Como ele anunciava um grande mestre da tecnologia, apto a hackear os sistemas mais sofisticados do mundo sem deixar rastros, esperava-se um manipulador nato – pessoalmente e virtualmente – que pudesse ser condizente com essas características. A forma que os doutores Cassidy descreviam Cortes inferiam um gênio – e nesse ponto não estou falando que Troy não seja – mas algumas de suas ações podem ser consideradas infantis, assim como algumas de Gabriel, diante dos acontecimentos. Momentos como a fuga totalmente rastreável ou a inocência de quando o agente impediu a decolagem do avião corroboram isso, fatores que entram em conflito com o enunciado anteriormente.

Outros dois pontos também foram desagradáveis para o contexto da série, que insiste em pecar, infelizmente, nestes quesitos. O primeiro deles é justamente o fato de Gabriel nem ao menos tentar esconder a existência do chip para algumas pessoas que ele havia conhecido, como em diversas cenas com Troy. Isso já aconteceu antes, e o projeto aparentemente superconfidencial tem ganhado contornos mais amplos, já que muitos adquiram o conhecimento, mesmo que de maneira superficial, mas dedutível, acerca do chip. O outro problema, contudo, está diretamente ligado à resolução dos problemas e, consequentemente, dos casos. Primeiramente, sempre as questões são encaradas como muito complexas e são solucionadas com uma simplicidade absoluta, como a criação do reator nuclear para a impedir a proliferação do parasita. Em segundo lugar, esta uma espécie de teimosia da série em, praticamente todo episódio, apontar situações extremamente perigosas que podem danificar definitivamente o chip e, mesmo assim, fazer por ser a única alternativa possível. Esse recurso tem sido usado com muita frequência, e deveria ser guardado para momentos especiais, como os de The Event Horizon, que serão comentados posteriormente.

Quanto ao caso propriamente dito, nota-se que ele foi bem construído, desde que sejam excluídos as incoerências e as insistências citadas anteriormente. Foi muito interessante a associação feita entre um possível ataque nuclear a Los Angeles com uma das maiores catástrofes da história mundial – o acidente de Chernobyl. O receio da população e dos integrantes do Comando Cibernético, principalmente Lilian, foram marcantes por anunciarem mais uma vez a preocupação com a sociedade como um todo, exacerbados por uma comemoração extremamente necessária por terem conseguido salvar um número inestimável de vidas. Apesar de uma bela cena, que fechou um episódio não tão bom, Intelligence já havia apresentado tramas mais instigantes, como de fato voltaria a executar no episódio seguinte, The Event Horizon.

Talvez o único problema deste episódio esteja relacionado à intérprete de Mei Chen, que não consegue transmitir empatia nas cenas em que sua personagem é o centro das atenções. Como já havia ocorrido lá no dificílimo Mei Chen Returns, ela não foi capaz de convencer na sua atuação por querer mesclar uma aparente fraqueza emocional ao lado de Gabriel, como nas renderizações, com um sentimento de determinação e ousadia, pretextos que entram totalmente em confronto. Sabe-se que tal comportamento pode estar correlacionado por ela ser metade humana metade computador, mas o mesmo não se observa na figura de Gabriel. Apesar de ele ter seus momentos mais pessoais, ele nunca foi enganado num contexto tão infantil como o proposto para capturar a mercenária chinesa. Outro detalhe infeliz, que também envolve a chinesa, foi o previously, por retirar o elemento surpresa que teoricamente apareceria quando surgiram especulações. Sim, estava óbvio desde os primeiros instantes que ela estava por trás do suposto assassinato cometido por Gabriel, mas seria mais inteligente não jogar todas as informações de imediato logo nos segundos iniciais.

Tirando isso, pode-se considerar que The Event Horizon não apresentou falhas significativas e foi surpreendente em muitos momentos, além de ressaltar o sentimento mútuo de apoio e companheirismo entre os seis membros da equipe. Com Gabriel e Riley desaparecidos e Lilian dispensada na teoria de sua função no Comando Cibernético, só restaria para os Cassidy e para o quase sempre apagado Jameson o objetivo de salvar os outros integrantes do time, mesmo que para isso fosse preciso agir contra o governo norte-americano e suas diversas agências. Construiu-se um lema de lealdade, este já forte antes, mas desta vez mais exaltado pela situação em que se encontravam.

Não há como negar que aquela primeira observação no mural virtual de evidências tenha sido bastante imprevisível, por anunciar que Gabriel estaria envolvido em um assassinato cometido por matadores calculistas. A forma que sua memória desaparecia, sem no mínimo tomar conhecimento acerca de suas ações na noite anterior – como uma possível noite mais íntima com Riley, como sugeriu o Dr. Cassidy – foi interessante por revelar um Gabriel confuso, mas disposto a dar o melhor de si para entender o que estava realmente acontecendo.

Cabe ressaltar, neste ponto, o papel de Riley. Ela praticamente abandonou sua carreira por acreditar em alguém que todos haviam perdido a confiança. Naquela entrevista ou no furto da minivan, ela se mostrou sempre ao lado de Gabriel, não se importando com o que estava acontecendo. São essas ações que determinam a existência de algo maior, possivelmente bem mais complexo que uma simples amizade ou parceria, mas um sentimento verdadeiro. Afinal, não é por qualquer pessoa que uma renomada agente deixaria tudo o que conquistara para trás, mesmo com sua personalidade determinante e sempre coerente com os seus atos.

Após um fluxo intenso de reviravoltas, chegamos à cena final, que tem o objetivo de preparar os telespectadores para o possível series finale. Estaria Mei Chen realmente falando a verdade? Quem foi o autor do disparo? Será que o Comando Cibernético voltará a ser o que um dia foi? O que acontecerá com as carreiras de Lilian e Riley? E o chip de Gabriel? Terá sofrido alguma consequência drástica?

O fato é que Intelligence percorreu um caminho satisfatório até aqui, apresentando alguns deslizes em sua curta jornada. O que resta é torcer por um final coerente que seja capaz de amarrar todas as pontas soltas, trazendo um desfecho digno aos que estiveram aqui por treze episódios, buscando as maiores inovações da evolucionária e revolucionária inteligência.

Observações inteligentes 

– Num momento de tensão, a melhor alternativa é pedir um milk shake! Confesso que ri muito com a espontaneidade do Dr. Cassidy e a dos outros integrantes da mesa ao o acompanharem na refeição matinal.

– Afinal, o que teria acontecido em 1973? Qual a relação entre a esposa do Dr. Cassidy e o suposto beijo? Questões que nem a inteligência é capaz de resolver.

– O comentário do doutor sobre os acontecimentos da noite anterior merece mais uma menção. Simplesmente memorável aquele “cala a boca”!

– O pai da Lilian simplesmente não consegue me passar uma noção de confiança. Sempre parece que ele está planejando algo bem mais complexo do que de fato existe.

– Foi inadmissível o Gabriel ter achado que o Troy não conseguiria hackear aquele carro. Tudo bem que sua inteligência foi posta em xeque minutos depois com o rastreamento, mas…

– Gostei muito da interação entre Troy e o Dr. Cassidy, que tinham muitos conceitos a serem compartilhados na arte da tecnologia. Cabe ressaltar a importantíssima câmera de Raio-X, vital para a resolução do caso.

– Até em Intelligence existe o Dr. Phil? Sempre solucionando problemas de qualquer natureza, ele estaria lá. Muito boa a referência.

– Já estou sentindo falta da abertura executada pelas vozes da Lilian… E vocês?

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