Com quase um terço de temporada já exibido, podemos afirmar que How To Get Away With Murder voltou para seu quarto ano disposta a desconstruir o estilo de montagem que era sua marca registrada, alternando para um ritmo mais lento; mas isso não é uma crítica negativa. Tal dinâmica começa a fazer sentido conforme os personagens, aos poucos, vão encontrando seu lugar na história e têm a complexidade de seus conflitos sobrepostos à maneira frenética com que os fatos eram contados nos anos anteriores.
Uma das cenas iniciais de Was She Ever Good At Her Job? mostra os membros do Keating 5 perdidos em suas distrações durante uma aula (confesso que às vezes eu esqueço que eles ainda têm uma vida acadêmica a cumprir) e deixando, como sempre, seus problemas pessoais interferirem no desempenho escolar. Isso só prova algo que já era óbvio para o público, mas parece não ser para os personagens: todos eles têm tendências autodestrutivas e uma capacidade quase que natural de se meter em problemas. Acontece que, sob as asas protetoras de Annalise, era muito mais fácil simplesmente culpá-la por todas as desgraças que ocorriam, ao mesmo tempo em que choravam de mãos atadas, implorando para que a advogada os salvasse quando se viam incapazes de lidar com a responsabilidade de seus atos. Resta torcer para que esse afastamento da ex-professora traga essa autoconsciência e, consequentemente, algum amadurecimento para o quarteto.
Por falar em amadurecimento, Michaela é recompensada por ser a “aprendiz de Annalise” que mais evoluiu, protagonizando o primeiro confronto – mesmo que indireto – com a antiga mentora. A personagem de Aja Naomi King é, sem dúvidas, quem mais demonstra força quando decide se reerguer, mas ainda têm inseguranças e particularidades que precisa trabalhar dentro de si mesma para avançar nessa trajetória. Isso fica muito evidente em seu último diálogo com Keating, onde é vencida dentro de um jogo psicológico que se volta contra ela – e vamos combinar que, quando se trata de jogos psicológicos, você tem que ser MUITO BOM ou MUITO BURRO para decidir confrontar Annalise.

Por outro lado, é triste ver o rumo que está ganhando a personagem de Karla Souza. Laurel foi por muito tempo uma queridinha dos fãs, considerada a mais sensata, corajosa e equilibrada do grupo. A sensação atual é a de que ela foi tão destruída emocionalmente por tudo que aconteceu, que agora sequer tem forças para segurar sozinha uma motivação dentro da narrativa, e por isso está funcionando muito mais como uma coadjuvante de Michaela, mesmo sendo detentora de informações e “dando as cartas” no plano de investigação que move contra seu pai. Foi até meio frustrante notar que sua contribuição dentro de Was She Ever Good At Her Job? foi basicamente cobiçar a bunda de Asher e dar 50 passos pra trás ao transar novamente com Frank (mesmo que, convenhamos, transar com Frank é muito tentador, especialmente com os hormônios da gravidez pululando dentro de si).
Quem também teve destaque foi Connor, que continua (aparentemente) distante da trama principal, mas pelo menos ganhou um desenvolvimento que faz sentido dentro da construção do personagem ao longo desses quatro anos. A apresentação de Jeff (o pai) e Ted (o namorado do pai) pode ser um passo importante para colocar Connor de volta pra valer na história, mesmo que isso signifique um futuro pé na bunda de Oliver vindo por aí.
Sobre essa possibilidade, lembro que quando Connor e Oliver engataram um relacionamento mais sério, tive o mesmo pensamento de Jeff. Parecia aquele tipo de relação em que um abre mão totalmente de quem é em prol da vida a dois – o que é um equívoco bastante comum na realidade de casais até mesmo aqui na “vida real”. A questão é que essa diferença de personalidade entre eles estava muito relacionada à agitada vida sexual e ao egocentrismo do personagem de Jack Falahee, o que imprimia nele uma imagem que beirava o mau-caratismo. Esses traços não voltaram a ser realçados dentro da história recentemente e, além disso, Oliver não é mais o mesmo nerd inocente que Connor seduziu em um bar para conseguir informações em troca de sexo. Portanto, o começo de um conflito interno de Connor seria um movimento um pouco abrupto – e não muito coerente – do roteiro nesse momento.

E já que Asher segue mais solto do que linha de pipa dentro dessa história toda (roteiristas, por favor, achem uma função pra esse menino!), vamos falar de Annalise, que vai traçando o percurso de evolução mais interessante da temporada. É ótimo ver que uma das tramas principais aponta em uma direção diferente dos anos anteriores, onde a advogada define um propósito de luta contra falhas do sistema judiciário, ao contrário das motivações passionais dos crimes que fizeram as engrenagens girarem nos anos anteriores. Esse engajamento rendeu, inclusive, uma cena forte e com um grande peso crítico e reflexivo: não seria lindo se, na vida real, fosse mais comum/possível que quatro mulheres negras conseguissem passar por cima das injustiças impostas por um grupo de homens brancos ricos e heterossexuais?
Além da abordagem de tais problemáticas sociais, o que já era um ponto forte da série desde seu início, uma das características mais marcantes desse quarto ciclo de HTGAWM está sendo o aprofundamento psicológico na persona de Annalise baseado na exploração de suas motivações e traumas. Nesse contexto, o questionamento incisivo de Isaac sobre a possibilidade de a advogada estar apenas tentando “tapar o buraco” deixado pela morte de Wes vem mais como uma confirmação do que uma descoberta para o público. Workaholic incurável, é natural que Keating responda ao luto se dedicando a novos projetos profissionais – por mais absurdos e impossíveis que eles possam parecer. Ao mesmo tempo em que é animador ver a personagem se reconstruir e se afastar da loucura que rondava sua vida até meses atrás, fica a curiosidade sobre como a maré de fatos e descobertas carregará Annalise para dentro da correnteza que culminará em todo aquele sangue espalhado pelas paredes – não só do apartamento alugado, mas também dentro da Caplan & Gold – dentro de um mês e meio. Porém, acima de tudo, vale ressaltar algo que foi provado mais uma vez ao fim de Was She Ever Good At Her Job?: a resposta para a pergunta-título é “sim, Annalise já foi e continua excelente em seu trabalho”.
Porém, vale lembrar que tudo indica que essa nova missão da personagem de Viola Davis levará à reativação de antigas alianças e deve ressuscitar velhos conflitos; aos poucos, Nate, Frank, Denver e agora principalmente Oliver e Bonnie, vão se aproximando do mistério abordado nos flashfowards e tendo seus papeis e funções rascunhados. Isso traz um outro ângulo para a questão da repetição de elementos narrativos e priorização de foco em personagens já conhecidos ao invés da inserção de novos rostos: pode ser que HTGAWM esteja justamente preparando o terreno para a chegada do fim da série, abrindo menos pontas para que dê tempo de fechá-las no caminho.
A maior dúvida agora fica em torno dessa persona adotada por Bonnie para se consultar com Isaac. Será que a personagem de Liza Weil vai finalmente assumir um papel definitivo de antagonista, se voltando contra sua antiga chefe e mentora? Sinceramente, uma das perspectivas que eu considero mais animadoras para o futuro de How To Get Away With Murder seria um crescimento de Bonnie, tanto como advogada quanto como estrategista, para que ela travasse uma “batalha” contra Annalise na quinta e última temporada. Já pensou se o último mistério da série fosse a identidade do assassino (e os seus motivos) de Bonnie?

E vocês, quem acreditam ser o(s) dono(s) das misteriosas manchas de sangue nos dois lugares? Agora com Isaac, Frank, Laurel, Michaela, Bonnie e Oliver fora da lista de possíveis vítimas, acredito que pelo menos uma delas seja o pai de Laurel, que pode ter sido assassinado dentro da própria empresa. Será que vamos descobrir as identidades até o hiato do fim do ano?
> MINDHUNTER VALE A PENA? 🔪🚔 | SM Play #76 [4k]
OBS1: Aguardando ansiosamente um encontro entre Miguel Prado e Maria LaGuerta.
OBS2: Aguardando mais ansiosamente ainda um Frank aparecendo na minha porta com uma mala cheia de dinheiro.














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