Quando se está analisando o cenário internacional, é necessário deixar de lado a bagagem pessoal e moral. Atos que assustariam e seriam punidos por prisão dentro de um país são completamente comuns de serem praticados quando o espectro é alargado para fora das fronteiras. Chapter 35 foi exemplar ao colocar em questão exatamente isso. Oito militares russos foram mortos no Vale do Jordão. Esse fato isolado seria um acontecimento digno de explodir um conflito sério na região. Afinal, como o analista internacional contratado por Heather Dunbar avisou episódios atrás: a operação de paz da ONU poderia render um Nobel da Paz, caso alcançasse a pacificação da área, mas também, por outro lado, poderia fazer eclodir a terceira guerra mundial, caso a situação fugisse do controle. Underwood forçou a operação de paz na ONU da forma mais incisiva possível, pressionando a Rússia a acatar algo que não estava em seus interesses. No momento em que o presidente dos Estados Unidos escreveu a carta em que garantia que militares do país estariam presentes na força conjunta, o que ficou declarado é que Petrov não deixaria isso barato. E ele não deixou: a pacificação do Vale do Jordão nunca esteve em seus objetivos políticos, então, consequentemente, seu interesse se tornou derrubar a operação de paz e que melhor forma de alcançar isso que matando seus próprios militares secretamente e deixar a repercussão das mortes incendiar a força conjunta?
Já ficou claro que essa terceira temporada de House of Cards será a sua mais calma, com menos momentos explosivos e cliffhangers. Isso tornou a experiência inferior a dos anos anteriores? É uma questão possível de ser considerada. Algo, no entanto, que não precisa de consideração é a qualidade absoluta do roteiro. Lidando com temáticas mais complexas, o texto desse terceiro ano está conseguindo um nível de apuração política que deixa outras séries internacionais no chinelo. A jogada de Petrov, a conversa entre Seth e seu assistente, o encontro privado entre Claire e Alexi e toda a estratégia militar discutida na sala de controle criaram um panorama palatável de crise. O brilhantismo técnico do episódio foi tanto que a questão do Vale do Jordão chegou a ser quebrada em seis vertentes, num intricado jogo de ação e consequência que deve ter sido o terror da equipe de montagem e um desafio para a direção. E que revelação foi Robin Wright na direção. Depois dos minutos iniciais em que Frank estava fazendo campanha, o episódio foi escalando em sua tensão. Wright identificou o intuito do roteiro de colocar todos os plots com nervos exaltados e segurou o clima pesado até o último segundo em tela. A diretora foi além e criou um dos quadros mais belos da série: Claire e Alexi em uma sala escurecida da ONU. Todo o segredo da situação, com as insinuações do embaixador russo e o choque de Claire misturado ao horror de Alexi foram um primor absoluto, uma imagem emblemática enriquecida pela atuação de Aleksandr Sokovikov.
As tramas estão avançando e as pressões sobre Underwood continuam aumentando. As diversas responsabilidades da presidência estão atingindo Frank. Antes isso era um argumento, agora é uma realidade. Sua expressão se tornou consternada, ele perdeu a energia que expôs nos anos anteriores e as ações militares passaram a mexer com seu emocional com maior intensidade. O grande questionamento da série é exatamente: Frank será capaz de lidar com tudo ou perderá o controle? E outro que emerge é: como ele conseguirá administrar a campanha presidencial com o cargo que ocupa? Em outro espectro, Remy Danton se encontra em um momento instável. Jackie se mostra, progressivamente, mais próxima de Alan, foi humilhado por Traub ao ser chamado de chofer e depois diminuído pelos policiais. No episódio anterior, ele se posicionou incisivamente perante Underwood e agora seus nervos estão à flor da pele, ou seja, os roteiristas estão preparando o terreno para algo que ele fará ou que irá sofrer. Independente de qual seja o caso, Mahershala Ali entregou bem o barril de pólvora emocional de Danton e foi elegante até mesmo no beijo em Jackie: mais que romântico, foi um momento de pedido de apoio.
Por último, Stamper recebeu as provas de que Rachel está morta pelas mãos de Orsay e entrou em uma espiral de luto, revolta e álcool. A função da presença intensa de Doug nessa temporada começa a ser explicitada e espero que a tragédia anunciada seja cumprida. A apresentação da morte de Posner foi muito brusca e se tem uma coisa que House of Cards não faz é exatamente deixar de trabalhar um fato antes de determiná-lo. Dessa forma, fica a forte suspeita de que ela esteja viva. E, se o próprio Stamper já deixou claro que ele não será o próximo Peter Russo, a única opção que resta é ele matar Rachel com as próprias mãos. Esse seria o final ideal para o arco do personagem nesse terceiro ano e encerraria dignamente a participação da fugitiva. Independente de esse ser o cenário a ser apresentado pela série ou não, o fato inegável é que Michael Kelly esteve excelente, principalmente, em sua conversa com Underwood, quando seus olhos entregaram uma tristeza e um desespero profundos.
Restam quatro episódios para o final e o cenário fica ainda mais sufocante na Casa Branca.
P.S.: A igreja glorifica o telefonema de Frank para Dunbar – eu estava com falta desse Frank assustador.













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