Durante minha adolescência, eu tive um amigo que gostava de divas latinas, novelas mexicanas, de dançar em qualquer situação que tocasse uma música que gostasse até não se aguentar em pé e de ser carinhoso com todas as pessoas que ele conhecia. Ele foi meu melhor amigo durante anos e eu valorizava imensamente sua amizade. Havia momentos em que eu tinha vergonha dele, de estar com ele quando certas pessoas estavam olhando feio, no entanto o que fez com que eu me afastasse dele foi a vida turbulenta de vestibulando e a ida para a universidade em outro estado, não ele. Um ano e meio depois, ele desenvolveu uma doença fulminante e faleceu. Eu sabia que ele era gay não por sua personalidade ou seus gostos, mas devido a certos momentos em que ele mostrava sua insatisfação em não poder dizer a todos quem era e sua vontade de se “abraçar em uma bandeira de arco-íris e esfregar na cara de todos o preconceito da sociedade”, como ele disse uma vez.
Ele nunca teve a chance (e o tempo) de contar à família e admitir para as pessoas quem ele realmente era e, ali, às vésperas de meus vinte anos de idade, eu fiquei profundamente triste pelo fato de que o mundo tinha perdido a oportunidade de conhecer uma pessoa linda e incrível. A tristeza maior, no entanto, veio quando eu percebi a homofobia escondida por mim que tive vergonha de andar com ele quando algum olhar reprovador surgia. Eu não podia mudar o que tinha feito, porém podia mudar dali para frente e, desde então, passei a defender, celebrar, incentivar e ter orgulho de todas as formas de ser e se expressar. As pessoas continuam a olhar feio para o que acham diferente; por outro lado, eu sei que faço minha parte em apoiar quem merece e deve ser apoiado. Ele foi um pequeno grão de areia desse universo, no entanto ele causou uma mudança em mim de forma comparável a uma revolução.
Chapter 32 será um dos episódios definidores de House of Cards quando a série acabar. Pode não ser o episódio mais chocante ou empolgante da série até o momento, mas conseguiu concentrar suas melhores qualidades e alargar uma veia que vinha pulsando desde a segunda temporada: a carga ideológica. Toda revolução tem um estopim e Michael Corrigan foi responsável por explodir HoC. Antes de chegar ao estouro, é necessário ressaltar a inteligência do roteiro em ter ignorado America Works, uma vez que, diante da preponderância do cenário internacional, com a libertação de Corrigan, o programa de empregos iria sobrecarregar a trama. Outra decisão acertada foi ter deixado em segundo plano toda a trama nos Estados Unidos. Heather Dunbar e a busca de Rachel continuaram e deram contornos interessantes ao panorama geral da temporada. Stamper está se mostrando valioso para Dunbar, expondo a ingenuidade da candidata e moldando a mesma. Curiosa a forma que a retratação da candidata começou segura e ameaçadora e, agora, toda a ameaça está concentrada na figura de Doug. O roteiro tem duas possibilidades com isso: destruir Frank ou usar Dunbar como degrau para a ascensão do mesmo (diante dos contornos finais do episódio, a primeira opção se mostra mais real). Por outro lado, Orsay está se revelando um achado político: sua infiltração na vida de Lisa. A forma fácil e fluida que ele conseguiu criar a atmosfera adequada para conversar sobre Rachel e obter informações sobre o paradeiro da mesma foi bem perspicaz e, junto a Stamper, ele representa uma arma poderosa contra quem Doug venha a ficar.
Apesar da movimentação em território estadunidense, não há como negar que o brilho do episódio ficou em terras russas. A nova dinâmica entre Underwood e Petrov foi bem vinda e agradável. Depois de causar rebuliço nos Estados Unidos com sua postura implacável, arrogante, combativa e humilhadora e da atitude desrespeitosa e desdenhosa do embaixador Alexi, as negociações ocorreram de forma mais calma e desenvolta. De início, apesar do abrandamento, as necessidades políticas de ambos os presidentes faziam com que suas posturas fossem firmes e sérias. Ao passo que a conversa entre Claire e Corrigan decorria e se tornava mais difícil, Underwood e Petrov foram ficando mais cansados, mais verdadeiros e cativantes. O momento mais lindo da conversa foi quando Frank enfrenta o russo quanto ao fato de que, na prática, ele não deveria ligar para sexualidades e Viktor admite isso, mas deixa claro que o que ele pensa e respeita não é o mesmo que o governo precisava. Em uma sociedade conservadora, cujos preceitos levaram ao estabelecimento da lei gay, derrubá-la seria fragilizar a presidência e avançar um estágio em torno do caos. Elogios absolutos para Larks Mikkelsen e Kevin Spacey por exalarem química e uma cumplicidade inusitada diante de uma situação tão complicada politicamente.
Mas foi em uma cela da prisão que ocorreu o melhor momento da temporada. Uma negociação se tornou uma conversa. E, quanto mais ela avançava, mais a tensão subia e as emoções transbordavam. Corrigan é um idealista, uma pessoa que pegou uma causa, considerou sua e decidiu seguir sua vida em prol da mudança da intolerância do mundo. Claire inicialmente enxergava nele um revolucionário ingênuo, egoísta e com mania de grandeza, alguém cujo umbigo encobriria o mundo. A conversa entre os dois se aprofunda, seus relacionamentos passam a ser pauta e suas visões de mundo são expostas. Claire então passa a enxergar um homem cujo medo era de que sua vida fosse em vão, no entanto as necessidades políticas encobrem seus olhos e ela expõe a sua versão da verdade de forma dura para o ativista. E aí já era previsível o que viria a seguir.
Afinal, o que acontece quando você tira de um idealista a única coisa que o motiva – seu ideal? Corrigan comete suicídio por fraqueza ou egoísmo? Não é nossa função ou papel julgar isso. O que importou é que, apesar de morrer imaginando ser um pequeno grão de areia incapaz de gerar uma simples onda, ele conseguiu atingir a primeira dama. Por culpa ou fé, Claire abraça o ideal de Corrigan e, no discurso a imprensa, ela enfrenta Petrov da forma que o ativista gostaria de ter feito. Mas a sagacidade da direção de James Foley foi revelada ao ter criado um momento ambíguo, em que emoções conflitantes de celebração, tensão e desespero disputavam diante das consequências da ação da primeira-dama. E a discussão entre o casal no final do episódio foi basicamente um enterro: esqueçam o otimismo, pois esse casamento está com seus dias contados. Ele pode continuar a existir por aparências, mas a parceira está com seu fim declarado.
Não há palavras para descrever a beleza de Chapter 32. Um episódio que soube administrar diversas nuances e, em seu fim, sair do muro, defender uma ideologia através de Claire Underwood, uma personagem até então implacável e realista. Como consequência, a guerra entre o presidente e a primeira-dama está declarada, as relações com a Rússia ficam mais perigosas e o cenário político para a Casa Branca promete ficar ainda mais nublado, com chances de grandes tempestades. House of Cards atingiu o primeiro ápice da temporada e os plots da metade final foram delineados. Conseguirá Frank sobreviver em Washington? Esse terceiro ano será o final do casal Underwood ou eles serão capazes de resolver seus problemas?












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