A série pioneira em conteúdo original da Netflix chega ao fim, mantendo sua qualidade narrativa, mas pecando levemente no ritmo e com um final agridoce.
Cercada de muitas polêmicas e adiamento, envolvendo a demissão do protagonista Kevin Spacey no ano passado (leia aqui), eis que no feriado nacional de Finados, a Netflix disponibiliza a sexta e última temporada de House Of Cards.
Eu estava bastante ansioso para conferir a temporada em que o holofote estaria dedicado 100% para Robin Wright e sua maravilhosa e soberba Claire Underwood/Hale. Se desde a longínqua primeira temporada ela já imprimia personalidade e destaque em tela, com um crescimento assombroso no decorrer dos demais anos, nessa derradeira leva de capítulos ela sustenta tranquilamente a trama, chocando um total de zero pessoas com seu enorme talento.
A resolução encontrada para a saída de Kevin Spacey funciona de forma satisfatória e plausível. O personagem não ganha tempo de tela (e nem deveria), mas é citado bastante no decorrer da temporada, como um legado, uma sombra e fantasma assombrando a carreira política de Claire.
Doug retorna como o vassalo leal de Frank Underwood, beirando o fanatismo com sua dedicação a um cara morto que lhe tanto maltratou e também salvou. Daí vem tamanha devoção e gratidão. Ele é a maior âncora de Frank na trama, com seus interesses ora indo de encontro com os de Claire e ora contra eles, o último sendo a maior parte do tempo.
Outra fórmula estrutural repetida na narrativa desta sexta temporada é o surgimento de importantes personagens vindos do nada interpretados por atores de alto calibre. É o caso dos Shepherds, interpretados pelos esplendorosos Diane Lane e Greg Kinnear. Cabe destaque também ao caçula da família, Duncan, vivido por Cody Fern, estrela em ascensão desde American Crime Story: The Assassination Of Versace e American Horror Story: Apocalypse, ambas produções comandadas por Ryan Murphy.

No início é difícil comprar a história de que os Shepherds sempre estiveram envolvidos com Frank, até mesmo ditando todos os acontecimentos a tramoias perpetrados pelo falecido protagonista. Mas como isso é repetido à exaustão no decorrer dos episódios, a ideia plantada começa a soar natural. Eles são os típicos oligarcas cujo único interesse é fazer lobby e aprovar leis que maximizem seus lucros. Um viva a democracia e ao capitalismo!
Ambos estão muito bem em tela e são antagonistas a altura de Claire. Eles oferecem bastante resistência a presidente, nos fazendo lembrar o quão difícil e complicado é se manter no cargo, em um eterno jogo de interesses, egos e troca-troca que parece nunca cessar. Assim como nos tempos de Frank, chegar à presidência dos Estados Unidos da América soa fácil diante dos percalços que surgem para se manter lá.
A trama é contemporânea, lidando com a mídia impressa, televisiva e online de forma dinâmica. Tudo continua sendo uma questão de ótica, imagem e percepção. Escândalos surgem aos montes a cada capítulo, ora favorecendo e ora desfavorecendo Claire Hale. Questões como privacidade e uso de aplicativos também são abordadas, vilanizando a grande corporação da temporada.
Notei também uma leve queda no ritmo da narrativa, porém nada que atrapalhasse a experiência de fazer a maratona da temporada. Com apenas oito episódios, não encontrei dificuldades em assistir tudo em uma só tacada no sábado, parando apenas para comprar um almoço e mergulhar de volta na narrativa. As reviravoltas parecem demorar mais a acontecer e soam menos dinâmicas, mas não se assustem, é uma percepção inconsciente, pois a qualidade do elenco e do texto mantém-se impecáveis.
Considero também que todo o ciclo de investigação jornalística iniciado lá na primeira temporada com Zoe Barnes, Lucas Goodwin, Janine Skorsky e Tom Hammerschmidt, foi bem concluído. O ciclo se fecha, com final trágico para a maioria deles e sem a real criminalização dos atos cometidos por Frank Underwood, pois é assim que funciona a política, mesmo em uma democracia sólida de 241 anos como a norte-americana.

Dois pontos altos que destaco da enxurrada de acontecimentos dessa sexta temporada: o gabinete inteiramente feminino montado por Claire após ela desmontar um golpe contra si e a gravidez revelada somente quando foi mais conveniente para a sua imagem pública. A quebra da quarta parede continua charmosa e vibrante, fazendo o telespectador se sentir especial cada vez que ela nos dirige a palavra e nos permite entrar em seus pensamentos. Outra grata surpresa é quando outro personagem também o faz, lembrando a gradual transição entre Frank e Claire utilizando esse recurso narrativo.
O final climático ocorre entre os dois personagens que mais tiveram suas vidas afetadas e delineadas por Frank: Claire e Doug. Houve uma poesia e tragédia digna da dramaturgia de Shakespeare, mas somos interrompidos antes de poder acompanhar as consequências do ato. É onde me desprendi da poesia narrativa e retornei ao meu pensamento lógico e racional. Não é uma resolução ruim, também não considero um final em aberto, é resolutivo e conclusivo, ao mesmo tempo que fiquei esperando outra cena. É uma torrente de sensações e emoções que ainda estou tentando entender.
> A Maldição da Residência Hill – QUASE MORRI DE MEDO!!
House Of Cards é a primeira série de conteúdo totalmente original do Netflix, que encontra seu fim no timing certo, seja pela exaustão da fórmula narrativa, seja pelo escândalo envolvendo Kevin Spacey. De qualidade sempre acima da média e narrativa empolgante, vale sempre relembrar sua importância já que cinco anos atrás, em 2013, ela redefiniu a forma como consumimos audiovisual, onde cada vez mais conglomerados estão criando seus próprios serviços de streaming. Me recordo que na época soava estranho ter todos os episódios disponibilizados de uma só vez. Havia descrença até mesmo da imprensa especializada. Hoje não me vejo consumindo séries e filmes de outra forma: no meu tempo, na minha agenda e na velocidade que eu quiser.















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