Balanceando as coisas.

Spoilers Abaixo:

Mesmo em suas primeiras temporadas, House nunca teve o costume de equilibrar o desenvolvimento de todos os seus personagens, sempre dando atenção muito maior ao seu protagonista, como não poderia deixar de ser. Ainda assim, a antiga equipe do médico trazia bons momentos, sejam eles relacionados ao paciente semanal ou às vidas pessoais deles. Por isso, quando a equipe original se desmanchou, a série criou uma lacuna criativa, principalmente pelo fato de os novos integrantes não conseguirem se encontrar na série de maneira satisfatória. Agora, House novamente conta com novos personagens importantes para o desenvolvimento das histórias. Mas, diferente de outras ocasiões, procura criar uma atmosfera que os torne mais incluídos na série. É assim que surge Perils of Paranoia, que ainda aproveita para semear discussões válidas típicas de House.

Atuando como uma espécie de contraponto a Dead & Buried, o episódio aproveita a entrada de um novo paciente, Tommy, um competente promotor que acredita ter um ataque cardíaco em pleno tribunal. Durante uma investigação na casa dele, Adams e Park descobrem um imenso arsenal de armas escondido, o que levanta a hipótese de paranoia ser um dos sintomas da misteriosa doença, além de várias dúvidas sobre a necessidade do porte de armas, o que faz com que Wilson imagine que House possui uma, mesmo com o amigo negando a todo momento, iniciando um jogo de gato e rato, com os dois aplicando truques um no outro. Foreman, por sua vez, irrita-se com o fato de Taub insistir para que ele arrume uma namorada.

Com um paciente de fato relevante para o desenvolvimento das histórias (incluindo a dele próprio), Perils of Paranoia consegue construir bem o caráter de seu personagem convidado, mostrando-o, em uma relativamente longa cena de abertura do episódio, como uma pessoa decidida e segura de si. No entanto, a doença de Tommy permite ao espectador descobrir que o paciente não é nada do que aparenta ser. Assim, o roteiro aproveita para torná-lo sempre interessante, mesmo que não possua um grande número de diálogos. O motivo disso é justamente a excessiva paranoia que o personagem possui. Mesmo não sendo um sintoma, o episódio deixa claro que Tommy é extremamente inseguro, vide o fato de cozinhar sua própria comida. Por esse motivo, o desfecho do caso se mostra inteligente e irônico, o que não deixa de ser uma crítica à paranoia americana, que parece só existir para situações graves e improváveis, esquecendo-se de coisas pequenas, como uma simples vacina.

Mas esses elementos não servem apenas para contribuir com o desenvolvimento do paciente. O arsenal secreto de Tommy também questiona a necessidade de armamento civil. É verdade que o roteiro aborda esse tema de uma maneira muito menos crítica ou argumentativa, utilizando-o mais para revelar traços de personalidade de seus personagens, casos de House e Wilson. A desconfiança deste sobre o amigo procede, mas ele se esquece que o ex-presidiário moldou seu caráter de uma maneira muito mais segura do que em outros momentos de sua vida. Ou seja, embora House ainda tome decisões eticamente questionáveis, ele mostra-se muito mais contido, mais parecido com o médico da primeira e segunda temporadas, evitando tomar decisões claramente perigosas ou até suicidas. Esse é um traço que a série vem tentando trabalhar, com competência, desde a saída da prisão, no segundo episódio. Quanto ao momento saudosista do médico nos últimos momentos, ainda é cedo para afirmar, mas é fato que David Shore tem investido em um lado mais sentimental do personagem em seus últimos anos, que agora deve tender para algo mais familiar.

Além de seu protagonista, Perils of Paranoia também usa o tema central do episódio para desenvolver mais um pouco a personalidade de Adams. Repare que, mais uma vez, ela se aproxima de House somente pelo fato de possuir uma arma por pura diversão, não por necessidade, exatamente como Wilson comenta alguns momentos antes. A forma como os roteiristas tem trabalhado para estabelecê-la como uma mulher de princípios mas sem entrar no aspecto maniqueísta que personagens como Masters tinham agrada bastante, por tornar a personagem mais real. Da mesma maneira, o episódio estabelece a relação dela com Park de maneira envolvente, continuando com o conflito visto logo no primeiro capítulo em que as duas se encontram. As diferenças de personalidades entre as duas são evidentes, e o roteiro esforça-se em contrapor as duas praticamente todo o tempo, em uma tentativa de estabelecer logo o papel das duas dentro da nova equipe.

O que nos leva aos instantes finais do episódio, quando Park chama Chase para sair. É interessante acompanhar a reação de Adams, que parece ignorada pela câmera, quase saindo de quadro. Mais do que ciúmes por Chase, a jovem médica vê ali algo que para ela seria impensável, o que provavelmente complicará ainda mais a relação entre a equipe. Esse tipo de rivalidade nunca foi retratada por nenhum elemento de equipe alguma de House. Finalmente a série parece ter a intenção de trabalhar essa dinâmica entre duas novatas querendo mostrar serviço, tanto profissional quanto emocionalmente.

Mas se as novas integrantes da equipe ainda procuram uma posição, os veteranos Chase e Taub mostram-se cada vez mais seguros de seus trabalhos. Além de chegarem a resolver casos sozinhos, eles sabem exatamente o que House quer a todo momento e parecem sempre estar em posição superior às duas garotas. Além disso, chegam a dar pitacos inclusive para Foreman. Este, aliás, está cada vez mais inseguro em seu novo cargo, principalmente agora que desistiu de controlar seu empregado mais problemático. É verdade que a trama que trata do personagem soa o tempo todo como a mais fraca do episódio, mas é importante perceber como o diretor parece aos poucos abrir mão de seus princípios, mostrando também uma nítida evolução.

É claro que Perils of Paranoia também tem seus pontos ruins. O principal deles na verdade tem ocorrido durante toda a temporada. House parece cada vez mais distante de seus pacientes, muitas vezes chegando a nem vê-los durante quase todo o episódio. Se por um lado isso traz de volta o lado egoísta das primeiras temporadas, o roteiro tem exagerado muito nisso, tornando-o praticamente um médico a distância, comprometendo muitas vezes o realismo das histórias.

Mesmo com esses pequenos problemas, House consegue trazer um episódio que, se não é excepcional, consegue balancear bem seus personagens e trabalhá-los de maneira consistente, mostrando mais uma vez que a atual temporada se direciona para mostrar o jogo de equipe, ao invés de focar-se apenas em seu protagonista, como a anterior.

Obs: Com esse episódio, House encerra seus episódios em 2011, voltando apenas em janeiro de 2012. Com ela, volta o Tiago e suas sempre ótimas reviews. Foi um prazer escrever nesse curto prazo sobre a série. Até a próxima.

@GabrielOliveira

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