Quem acompanha o mundo das séries a algum tempo já sabe como a coisa funciona: episódios que antecedem um season finale geralmente terminam abruptamente com uma determinada ação em curso, deixando o telespectador bem ansioso para ver a conclusão da história na semana seguinte. Hoje House resolveu seguir por um caminho diferente: aqui, quase nada de novo foi deixado no ar. Mas, ao mesmo tempo, recebemos de presente – com uma semana de antecedência – algo que geralmente só descobrimos depois: os porquês de determinadas atitudes.

Spoilers Abaixo:

Por que House está deprimido? Por que as dores voltaram? Por que parece que nada dá certo na vida dele? Perguntas como essas – assim como tantas outras – foram inseridas nesse pré-season finale com um intuito bem claro: dar embasamento à uma (possível) atitude que House resolva tomar semana que vem. Sem querer soltar aqui qualquer tipo de spoiler (até porque não os acompanho faz tempo), acho bem provável que no próximo review nós estaremos aqui comentando alguma atitude auto-destrutiva por parte do nosso protagonista. Ou mesmo um risco desnecessário, enfim, algo que nenhuma outra pessoa que tenha algo a perder na vida faria por conta própria. Isso porque, ao fim deste episódio, a aura que gira em torno do personagem ficou bem clara: House não enxerga um motivo para seguir em frente.

O início do episódio com rápidas cenas de um consultório já deixou bem claro que teríamos o excelente Dr. Nolan de volta ao seriado. Seja por questões contratuais ou por opção narrativa, o fato é que a volta de Andre Braugher nesse ponto da temporada trouxe novamente ao espectador, mesmo que por um curto período de tempo, aquela sensação maravilhosa que o início da trama deste sexto ano nos proporcionou. Se esta temporada caiu de qualidade pelo caminho ou se ela oscilou mais do que devia, tais considerações serão feitas após o episódio da semana que vem. Mas é inegável que a volta do psiquiatra à cena de House traz uma carga dramática que, infelizmente, é cada vez mais rara.

Como de costume, quanto mais próximos estamos do season finale menos os pacientes se tornam relevantes nos episódios. Essa semana com Baggage não foi diferente, mas seria infantil chegar aqui e excluir a paciente da história e do review. Até porque, e não canso de tirar o chapéu para isso, a escolha do seriado em colocar um Paciente X para um Episódio Y cada vez mais se mostra bem planejada. Tanto a advogada quanto House tinham problemas com suas memórias; em diferentes escalas, era o velho fantasma do passado que assolava a ambos, trazendo mais um raro momento de conexão entre o médico e um paciente. Por um momento até visualizei uma certa semelhança física entre ela e Lydia, mas depois de um tempo ficou claro que essa não era a intenção aqui.

Ao mesmo tempo em que House se via – como já comentado no último review – cada vez mais sozinho no mundo, todos os relacionamentos à sua volta pareciam se encaminhar para um final feliz, final esse que coincidentemente não envolvia o próprio médico. O já esperado estopim de todos os problemas foi o recente comunicado de Wilson, anunciando que sua ex/futura esposa Sam iria morar com ele em seu apartamento. House então se vê em uma situação completamente incômoda, sendo delicadamente expulso de seu próprio apartamento, justamente por aquela pessoa que ele mais se importava na vida.

Fato este já seria suficente para abalar emocionalmente qualquer um, e por mais que por alguns momentos o próprio House tenha se mantido indiferente, é óbvio que essa atitude do Wilson ainda irá trazer algumas repercussões para a história do seriado. Independente de qualquer tentativa de reaproximação dos dois, a lição que House tirou disso tudo é muito simples: nem sempre ele poderá usar o Wilson como sua bengala emocional. E começar agora a caminhar sozinho não vai ser nem um pouco fácil para ele.

Em meio à tanta turbulência na vida do médico, ele então retorna ao seu velho apartamento, onde coincidentemente (ha!) uma pessoa está instalada: ninguém menos que Juan Alvarez, o nosso velho Alvie. Inconscientemente ou não, muitos fãs em algum momento já compararam a amizade de House e Wilson com os breves momentos que Alvie e o ranzinza passaram juntos no Mayfield. Era questão de tempo para que esse paralelo viesse à tona na própria tela do seriado, mas a impressão que ficou é que poderíamos ter tido um pouco mais de Alvie antes desse episódio. A rápida sucessão de eventos – chegada, instalação e partida – do porto-riquenho seria mais impactante se durasse pelo menos uns 2, 3 episódios. É bem verdade que, no fim, o resultado seria o mesmo: House sozinho sem ter nenhum amigo para contar. Mas se toda essa transição tristeza com Wilson-conforto com Alvie-tristeza com Alvie fosse mais gradativa, mais planejada, a audiência poderia ter a chance de ver um turbilhão de emoções que passou muito implícito nesses breves 43 minutos. Uma pena.

Os pontos altos do episódio, sem dúvida alguma, foram os diversos e ricos diálogos entre o Dr. Nolan e seu paciente traumatizado. Em certos momentos toda esa áurea “médico tratando médico” lembrou a série da HBO In treatment (interessantíssima, já fica aqui a recomendação), onde um psiquiatra psicólogo atendia pacientes de segunda a quinta, e na sexta ele próprio fazia sessões de terapia, se mostrando, talvez, mais traumatizado que qualquer um de seus pacientes. As conversas entre House e Nolan carregavam, assim como na série citada, um ar denso em cumplicidade, onde os dois sabiam que estavam diante de um igual, que poderia entender a profundidade de um problema que para qualquer outra pessoa seria algo sem importância.

A inserção da “terceira pessoa” do Dr. Nolan nas cenas do hospital foi um recurso absolutamente simples, porém interessante. Aproveitando a já recorrente ideia na série de trazer alguém conversando exclusivamente com House (fantasmas de Amber, Kutner e outros tantos), aqui essa ferramenta serviu para nos lembrar que tudo que vemos é simplesmente fruto do nosso posicionamento. Como exemplo, um momento interessante no episódio é quando House e Dr. Nolan conversam e o Taub aparece magicamente no mesmo cenário. Os mais atentos puderam perceber que, sutilmente, nessa cena existe uma divisão da matiz de cores entre o ambiente da conversa entre os médicos e o local onde chega o Taub com suas notícias sobre a paciente. Sutileza essa que, através do recurso da fotografia, nos atentou para o fato de que cada situação pode ser vista por diversos olhos, com percepções diferentes. O ponto de vista pode alterar desde um simples aspecto visual, como as cores de fundo, até mesmo a percepção dos próprios fatos. A questão sobre a suposta conspiração entre Cuddy e Wilson foi só a cereja desse bolo, onde uma mesma discussão foi interpretada por dois pontos de vistas opostos.

Através de uma sucessão de eventos, House se dá conta de que mesmo com todo o investimento feito em internações, terapia e acompanhamento, seu resultado não aparece. Sua vida continua terrivelmente miserável enquanto a tal felicidade, outrora tão almejada, se mostra cada vez mais distante. Todos à sua volta conseguem definições positivas em suas vidas, enquanto o médico está, novamente, em uma espiral em direção à depressão profunda. As lágrimas nos olhos do Dr. Nolan no fim do episódio já deixaram o gancho: House está desistindo. Está sucumbindo. E o que ele fará agora que não mais tem expectativas em sua vida? Algo me diz que saberemos essa resposta já na semana que vem.

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