Um dos diversos desafios que filmes de super-heróis enfrentam é a estagnação. Quando um mesmo personagem é apresentado por diversos filmes (ou pior ainda, rebootado), a cada nova encarnação fica mais presente a necessidade de inovar, de trazer uma nova faceta do velho conhecido dos espectadores, que adicione ainda mais camadas. Se na DC temos Batman, na Marvel temos o Homem-Aranha. A trilogia dirigida por Sam Raimi está entre uma das melhores adaptações do herói, mesmo que o último volume tenha derrapado feio (Tobey Maguire emo ainda assola meus pesadelos). Andrew Garfield padeceu com uma boa encarnação do herói numa trama confusa e rocambolesca que não decolou (ou não prendeu na teia, numa analogia mais apropriada).

Eis que Capitão América: Guerra Civil apresentou Tom Holland e com ele um “teioso” jovem, brincalhão e que lembrava diretamente a contraparte clássica dos quadrinhos. Mas era necessário mais do que uma participação para que todas as dúvidas fossem sanadas. Homem-Aranha: De Volta Ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017), elimina todas essas questões. É o herói na sua mais pura essência. Um acerto da parceria Sony/ Marvel que conseguiu renovar o personagem para um público mais jovem ao mesmo tempo que mantem o apelo aos fãs saudosistas do personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko.

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar
Homem-Aranha: De Volta Ao Lar

O filme dirigido por Jon Watts trata de construir todos os alicerces dos personagens principais, sem desmerecer a bagagem anterior daqueles que verão ao filme. Assim, a origem dos poderes de Peter Parker (Holland) são ditas, mas não mostradas, dando espaço para a motivação do antagonista Adrian Toomes (Michael Keaton), que logo fica conhecido como Abutre, um vilão bem trabalhado que possui seu próprio código de honra. Robert Downey Jr e seu Homem de Ferro, que foi explorado à exaustão na divulgação, está comedido aqui, mais como um orientador do que uma presença onipresente e serve como o gancho para a inclusão do “cabeça de teia” no MCU. Sai a Oscorp, entra as Industrias Stark pós invasão de Nova York e Tratado de Sokovia. Falando nas referências ao MCU, elas são várias, mas não soam tão forçadas ou invasivas demais, aparecendo com fluidez durante a exibição.

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar
Homem-Aranha: De Volta Ao Lar

Além do triunvirato principal, os coadjuvantes são tão importantes quanto. Marisa Tomei e sua Tia May jovem, Jon Favreau no guarda-costas Happy, Zendaya e sua misteriosa Michelle, Jacob Batalon e seu impagável Ned, até o Capitão América (Chris Evans) consegue fazer rir aqui. Falando em Ned, Batalon junto com Holland tem uma química tão grande em cena que muitos dos momentos de humor e/ou amizade não parecem ter sido roteirizados. O que reforça ainda mais a aura de “high school film” que bebe diretamente da fonte de John Hughes (diretor do clássico “Curtindo a Vida Adoidado”). E se você pensa que isso é um demérito do filme se engana prontamente, pois essa pegada mais irreverente casa belamente com a película. Da clássica trilha da série de televisão, passando pelo mockumentary, o filme brinca com esse espirito juvenil e utiliza disso como um sopro de novidade, trabalhando com um material que já foi explorado várias vezes no passado recente e ainda assim encontrando novas maneiras de expô-lo na tela sem aparentar cansaço ou falta de planejamento.

> Minha Série Vs. Sua Série feat. Aline Diniz

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar é a prova de que, quando bem trabalhado, um material já adaptado é passível de frescor e ineditismo. Ao mesmo tempo que solidifica a presença de Peter no MCU, o filme cria parâmetros para uma mitologia separada e que mesmo assim não soa distante do tronco central da narrativa. A parceria Sony/Marvel tem tudo para dar certo se as coisas continuarem como estão, abrindo a possibilidade de que outros personagens em poder de outros estúdios sejam utilizados de modo semelhante e, ainda mais importante, fiel a sua gênese.

O “amigão da vizinhança” voltou ao lar, de onde nunca deveria ter saído.

PS: Há duas cenas pós crédito no filme, uma após os créditos animados (que são muito bacanas, com uma mistura de “stop-motion” de diversos gêneros) e a outra após os créditos finais, fiquem de olho!

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Sony Pictures Brasil 

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REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
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